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Sonhos de uma noite de verão
Enquanto o sol não chega
Ausência
Um cálice de vinho para Brecht


O vento circula entre os vales, as pradarias, anima e destrói. Trilhar o caminho da educação, errar buscando o melhor e respeitar o outro é o que mais nos assemelha a um parâmetro humanizador. Venha voar com o vento

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Gato ---->
O gato estira-se preguiçosamente.
Você entra casa adentro.
O sol invade a sala.
Minúsculos grãos de poeira transformam-se em ouro volátil.
Pulo de cima do sofá e, enternecido,
mio seu nome.

hILTON
 

Sonhos de uma noite de verão ---->
“-Sonhos de uma noite de verão, isso não é Beethowen?”
“-É sim”, respondeu Leopoldo, “é a marcha nupcial, aquela que vais ouvir depois de amanhã! Ansioso, não?”
Augusto recostou-se na poltrona, sorriu, mas efetivamente não queria ouvi-la, pelo menos na condição de protagonista...e Leopoldo sabia disso. Entendia, contudo, o amigo, que queria aliviá-lo de tensões e angústias e especialmente gostaria que o fantasma de Ana o abandonasse...para Augusto, contudo, ela não era um fantasma, mas o melhor que podia acontecer em sua vida...
No entanto, esse melhor estava descartado...não haveria mais Ana na vida de Augusto, e conformar-se era mais o que podia fazer. Afinal de contas, Clara era uma boa moça (grande qualidade!), ótima cozinheira (maravilhosa na panqueca...) e ....e.....bem, Augusto não saberia o que mais....ah, sim! Sincera, leal, prudente....Sim, Clara tinha todas essas qualidades...seria uma boa esposa ou, quanto mais não fosse, uma ótima dona de casa, eufemismo para se tratar uma doméstica com a qual casamos, pensava ironicamente...
Augusto ergueu-se do sofá, passou por Leopoldo e nada disse. Trancafiou-se no banheiro. Leo observou o amigo....o amigo tolo, que perdera Ana por rusgas e, especialmente, por teimosia. Mas, enfim...Tinha vontade de dizer-lhe: “-Não vai a esse casamento! Telefona, vai lá, termina com essa agonia!”, mas justo por conhecer o amigo, não iria fazê-lo. Sabia que Augusto teria um ataque histérico, mas que ficaria assim mesmo como estava há minutos atrás, um homem derrotado atirado num sofá, pensando no que deveria ou poderia fazer, mas que nada agilizaria...
Lembrou-se de quando eram bem jovens, e em como as coisas que Augusto mais gostava escapavam entre seus dedos...assim foi com Margarete, namoro forte na adolescência, assim foi com o emprego no banco, por uma briga sem sentido com um gerente, assim foi na faculdade de agronomia, que foi simplesmente abandonada...depois, outros fatos que apenas demonstravam a capacidade de Augusto em não reter o que mais desejava. Lembrou-se de Vitor, de Pedro, de Amália, de João, de Rosa...tantos que Augusto conhecera, tantas amizades que faziam parte do cotidiano dele e que tinham gradualmente se afastado...sobrara quem, afinal? Ora, eu mesmo, pensava Leo, enquanto premia o botão do tape-recorder, para que Roberto Carlos invadisse o ambiente...
Leopoldo caminhou até a janela do apartamento. “Eu disse pro Augusto não alugar isso, eu avisei.” De onde estava, a única visão que tinha era uma parede já descascada, sombria; escutava vozes dos outros apartamentos, crianças gritando ou brincando, adultos aviando providências ou rindo...
Ouviu o estalar da porta do banheiro, Augusto saíra e lhe mirava com um olhar sombrio; caminhou até o bar e trouxe uma garrafa de vinho, com dois cálices. “Ai, caramba, vai começar tudo de novo”, pensou Leo, enquanto estendia a mão para tomar o primeiro gole...

..............

Toda essa situação veio à mente de Leopoldo quando, andando apressadamente pela Mostardeiro, sentiu um toque em seu ombro e, ao virar-se deparou-se, após vinte anos, com Augusto. Abraçaram-se, e Leo não conseguiu esconder a surpresa. Decidiram matar as saudades; durante esse tempo Augusto viajara para o norte do país, tivera três filhos com Clara (“Olha a foto do Jorginho, esse tem onze, é macho que nem o pai!”), e vários empregos, todos de vendedor. Há três anos atrás havia separado, e vivia só, num apartamento da Cristóvão. Conversaram longamente, durante horas, esquecidos do tempo. Em determinado momento, Augusto perguntou por Ana (caramba, ele não havia esquecido...), se Leo soubera o que havia sido feito dela. Disse que não, que tinha estado fora de Porto Alegre durante muitos anos, e perdido o contato. A noite caía quando finalmente se separaram. Como é freqüente nesses encontros de amizades tardias, haviam perdido a naturalidade que somente o cotidiano oferece. Falaram sobre o que haviam feito durante o tempo em que estiveram apartados. Ambos sabiam que aquela era uma despedida definitiva, que não se veriam mais. Talvez por isso, somente por isso, e por ter notado ainda nos olhos do amigo a antiga paixão, foi que Leopoldo não convidou-o a jantar em sua casa. Afinal, Ana poderia não compreender...

hILTON
 

Enquanto o sol não chega ---->


Comprei uma calça de veludo e uma camisa. Loquei uma adolescente, dessas que estudam em alguma faculdade e não tem como pagar as prestações. Fiz sexo por três horas e paguei com meu cartão de crédito. Assisti a um filme cult, reservei algumas moedas pro flanelinha que cuidava do meu carro. Foi um dia razoável, até o momento que me deitei para dormir.
Três horas da manhã e meus pensamentos me atropelavam, então tomei um calmante, bebi um litro de Coca-cola e tentei relaxar. Amanhã, novamente, vou acordar e, como será um dia de trabalho, já comecei a me sentir mal, derrotado, apreensivo. Sempre tenho estas síndromes no final de semana. Ainda bem que vivo só, porque assim nada me alcança. Minha ex-mulher vive na Guatemala e tenho dois filhos que não vejo mais ou menos há uns quatro meses. O tempo liquidifica tudo, e já não sei se não estou virado apenas em uma lembrança.
Mês que vem viajo para São Paulo, depois vou ao Rio, me hospedo num quatro estrelas e trabalho que nem um cão. À noite, provavelmente serei ofertado com um corpo feminino, que normalmente os clientes do meu empregador disponibilizam para os executivos mais influentes, como eu. Estou assomado por responsabilidades e não consigo dormir nem acordar direito.
O papa morreu, e eu com isso? Habemus papa? Então está tudo ótimo. Anteontem estive num simpósio meio estranho, sobre educação e aquelas bobagens todas. Citaram um tal de Paulo Freire e um outro que deve ser comunista pelo nome, um fulano chamado Vygotsky (ou seria Ingoski?). Não sei e não quero saber. Fui ao seminário para agradar meu chefe, que me passou o convite e ainda me recomendou que eu entrasse quieto e saísse calado. Seminários de educação são sempre monótonos. Bom mesmo é a Bolsa.
Hoje ainda, no semáforo, um menino me pediu um dinheiro. Dei, dei sim a primeira nota que me apareceu na carteira, dez dólares. Mas não me arrependo, tenho muito medo de tomar um tiro nos cornos. Minha úlcera voltou a doer, nada que um leite quente não resolva. Minha vontade é dormir, dormir, dormir. Minha cabeça dói e o sexo que tive não me deixou totalmente satisfeito. Acho que vou ligar meu laptop.
Pelo menos me distraio, enquanto o sol não chega.
 

Ausência ---->
Não vou te contar nenhuma novidade; confidenciar é abrir portar, conceder espaços, por isso me calo, fixo minhas memórias em meu corpo, gravadas como as inúmeras linhas de tempo que por vezes me tiram a capacidade de pensar. Em me reservando, resgato-me de teus movimentos. Preservo-me de ti na medida em que nada te digo, nada comento de fatos, sentidos e sentimentos que em minhas lembranças me acossam, me sacodem, me deixam apreensivo ou exultante. Quero-te assim, recordação de um carnaval distante, uma imagem de colombina, pedaços de confete me invadindo a boca, os olhos, possuindo, possuindo, possuindo.
Minhas modernidades já caíram em desuso; as teorias se desvaneceram como nacos de gelo, minhas seguranças são couraças amordaçadas. Cintos cingem-me., vendas cobrem-me os olhos, e mesmo assim eu persisto no sonho de tentar ver o que mais me tolhe os movimentos. Quero um banho tépido, quero adormecer em uma cama macia, relaxar, esquecer-me de forma tão absoluta até me tornar um espaço de solidão diante do vazio. Sequer quero que me acudam remorsos, tristezas, alegrias ou exultações. Não te aproximes de mim, tenho medo de sangrar, de que fístulas novamente circundem minha alma, que tuas lembranças me afoguem em um denso anel de gelo.
Quero apenas ficar assim, quieto, como um romance inacabado, como um cigarro queimando lentamente, como um bicho acuado. Deixa-me calado, permita que eu me emudeça, não me perguntes mais nada. Não me recordes, em tua ausência, a ausência tua na qual me tornei.
 

Um cálice de vinho para Brecht ---->


O Analfabeto Político

O pior analfabeto é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédiodependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.

Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo

Bertold Brecht



Pois é, a moça disse, com um ar professoral: “se é um encontro político, não contem comigo, eu detesto política!”. O crítico é que a pessoa é uma professora. Estou afirmando então que todo professor deve praticamente obrigar-se a gostar de política? De gostar, claro que não. No entanto não deve ignorá-la. Tem, sim, o dever de analisá-la, de ler, de procurar investigar porque determinadas situações ocorrem desta e não daquela maneira. Não adiantará nada discursar a respeito de cidadania para seu aluno, enquanto afastar-se de toda a atividade que julgue “política”. Ora, todos nos estruturamos dentro de um determinado contexto ideológico. É claro que durante a vida e suas alteridades circunstanciais podemos alterar nossas visões de mundo, mas as mesmas sempre serão condicionadas por um pensar político. E dentro das sociedades são os pensadores, os intelectuais que, através de seu pensar, influem decisivamente sobre estruturas ideológicas, ou seja, sobre política. Dizer-se alheio à política é entender-se alienado do mundo, porque as ideologias assumem uma função claramente política. Quem se omite faz política igualmente. E bem mais do que pensa. Faz a política do continuísmo, do desimportar-se com os fatos, com suas nuanças e previsibilidades. Em outras palavras, da reprodução social como está posta. Evidentemente não estou falando de um ativismo irracional, mas de uma posição que marcará o pensamento e o fazer crítico de uma pessoa. Aqui, lembro-me de Paulo Freire, estigmatizado porque ousou dizer que o ato pedagógico é um ato político. Foi devidamente execrado à época, mas disse o que de fato sempre existiu. As leituras sociais do mundo são as leituras ideológicas não só de nossas circunstâncias, mas moldam nossos valores e nossas prioridades. Em tal terreno não há como ser tabula rasa. Contrariamente, a alienação e a omissão políticas nada mais são do que a explicitação da conformidade, do estarsocialmente satisfeito com o que está posto. Há, portanto, um enorme interesse em tais posições que se dizem neutras mas que operam eficazmente em favor de uma extratificação social que privilegia a exclusão, a dependência e a homogeneização cultural. Tal espanta partir de um professor, pois ele se conforma em ser tio ou tia; seu discurso em favor da participação política esvair-se-á dentro da retórica vazia com a qual a injustiça social tem brindado a maioria dos nossos irmãos. Não há pois a opção entrefazer política, entre participar ou não: de qualquer forma, sob qualquer modo, somos seres políticos e nossos comportamentos falam mais por nós do que nós próprios possamos fazê-lo. Um cálice de vinho à Brecht!

Hilton
 
 
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