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Os Anarquistas Falam...
A Vingança é Um Prato Que Se Come Vivo
A Ilusão do Sufrágio Universal - Mikhail Aleksandrovitch Bakunine
Faleceu Heinrich Harrer, o SS do Dalai Lama...
Recordando a Frente de Libertação dos Açores...



Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

- Cesário Verde, in Sentimento Dum Ocidental

Um Jovem Rebelde Açoriano Luta Contra o Mundo!!! As opiniões, dissidências e gostos de Flávio Gonçalves.

Aviso à Navegação: este blog por vezes (muito raramente) é actualizado mais que uma vez por dia, é favor verificar a secção de Arquivo para não perder nenhum dos posts, obrigado.

Veja os últimos 5 tópicos:

Os Anarquistas Falam... ---->


“Diz-se, amiúde, que os anarquistas vivem em um mundo de sonhos de futuro, e não vêem as coisas do presente. Vemo-las em demasia sob as suas verdadeiras cores, e é isso que nos faz brandir o machado nesta floresta de preconceitos autoritários que nos obcecam. Longe de viver em um mundo de visões, e de imaginar os homens melhores do que são, vemo-los tais como eles são, e é por isso que afirmamos que o melhor dos homens torna-se essencialmente mau pelo exercício da autoridade, e que a teoria da "ponderação dos poderes" e do "controle das autoridades" é uma fórmula hipócrita, fabricada pelos detentores do poder para fazer "o povo soberano" - que eles desprezam - crer que é ele quem governa.”

Piotr Kropotkin

“Na realidade, o governo assume a tarefa de proteger, mais ou menos, a vida dos cidadãos contra os ataques diretos e brutais. Ele reconhece e legaliza um certo número de direitos e deveres primordiais e de usos e costumes, sem os quais é impossível viver em sociedade; organiza e dirige alguns serviços públicos como os correios, as estradas, a higiene pública, o tratamento de águas, a proteção das florestas etc; abre orfanatos e hospitais e compraz-se em mostrar-se, na aparência, e isto é compreensível, protetor e benfeitor dos pobres e dos fracos. Mas basta observar como e por que ele realiza estas funções, para se ter a prova experimental, prática, de que tudo que o governo faz é sempre inspirado de dominação, e ordenado para defender, aumentar e perpetuar seus próprios privilégios e aqueles da classe da qual é o representante e o defensor.”

Errico Malatesta

“O sufrágio universal é a exibição ao mesmo tempo mais ampla e refinada do charlatanismo político do Estado; um instrumento perigoso, sem dúvida, e que exige uma grande habilidade da parte de quem o utiliza, mas que, se souber servir-se dele, é o meio mais seguro de fazer com que as massas cooperem na edificação de sua própria prisão.”

Mikhail Bakunine

“A verdadeira escola para o povo e para todos os homens feitos é a vida. A única autoridade onipotente, simultaneamente natural e racional, a única que poderemos respeitar, será aquela do espírito coletivo e público de uma sociedade fundada no respeito mútuo de todos os seus membros. Sim, eis uma autoridade que não é de forma alguma divina, inteiramente humana, mas diante da qual nós nos inclinaremos de coração, certos de que, longe de subjulgar os homens, ela os emancipará. Ela será mil vezes mais poderosa, estejais certos, do que todas as vossas autoridades divinas, teológicas, metafísicas, políticas e jurídicas, instituídas pela Igreja e pelo Estado; mais poderosa que vossos códigos criminais, vossos carcereiros e carrascos.”

Mikhail Bakunine

“Todas estas divisões de partidos entre as quais a nossa imaginação cava abismos, todas estas divergências de opinião que nos parecem insolúveis, todos estes antagonismos de sorte que nos parecem sem remédio, encontrariam de repente sua equação definitiva na teoria do governo federativo.”

Pierre-Joseph Proudhon

“Desejamos abolir de forma radical a dominação e a exploração do homem pelo homem. Queremos que os homens, unidos fraternalmente por uma solidariedade consciente, cooperem de modo voluntário com o bem-estar de todos. Queremos que a sociedade seja constituída com o objetivo de fornecer a todos os meios de alcançar igual bem-estar possível, moral e material. Desejamos para todos pão, liberdade, amor e saber.”


Errico Malatesta

“Nós vemos no Estado uma instituição desenvolvida através da história das sociedades humanas para impedir a união direta entre os homens, para entravar o desenvolvimento da iniciativa local e individual, para aniquilar as liberdades que existiam, para impedir a sua nova eclosão e submeter as massas aos interesses, egoísmos e ambições das minorias ociosas e autoritárias. E sabemos muito bem que uma instituição que tenha um passado de milhares e milhares de anos não pode desempenhar uma função diferente daquela para que foi criada, nem diferente daquela em que se desenvolveu no decurso da história.”

Piotr Kropotkin

"Quem diz estado, diz necessariamente dominação e, em conseqüência, escravidão; Um Estado sem escravidão declarada ou disfarçada, é inconcebível; eis por que somos inimigos do Estado... Assim sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas compor-se-á de operários. Sim com certeza de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não o mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana. "

Mikhail Bakunine

“Demonstramos que, enquanto houver dois ou vários graus de instrução para as diferentes camadas da sociedade, haverá necessariamente classes, quer dizer, privilégios econômicos e políticos para um pequeno número de afortunados, e a escravidão e a miséria para a maioria. Como membros da Associação Internacional de Trabalhadores, queremos a igualdade, e porque a queremos devemos querer também a instrução integral, igual para todos.”

Mikhail Bakunine
 

A Vingança é Um Prato Que Se Come Vivo ---->


Fui ao FantasPorto ver este filme maquiavélico, aconselho vivamente (sou fã confesso do cinema asiático - FUCK HOLLYWOOD!").

"Oldboy", um dos melhores filmes que no ano passado estreram em Portugal, não ficou mais que três semanas em exibição num par de salas de "multiplexes" onde só por mero acaso ou extrema atenção iriam passar pessoas interessadas em pagar cinco euros para ver actores desconhecidos com nomes impronunciaveis.

A boa notícia é que a New Age Entertainment - distribuidora com manifesta dificuldade em negociar com os donos dos cinemas mas engenho suficiente para criar um beleo catálogo de filmes independentes nort-americanos, europeus e de outras paragens - lançou uma edição para coleccionador em DVD do filme sul-coreano que em 2004 só não saiu de Cannes com a Palma de Ouro porque a cega militância anti-"bushista" impôs a distinção a "Fahrnenheit 9/11" de Michael Moore.

Para quem nunca ouviu falar da longa-metragem que levou Quentin Tarantino a entusiasmar-se com a obra de um licenciado em Filosofia de 42 anos chamado Park Chan-wook, é justo gastar algumas linhas com a sinopse.

Oh Dae-su é um homem capaz de embriagar-se e ser remetido à esquadra no dia de aniversário da filha. Um amigo resgata-o, mas um instante de distracção chega para que desapareça sem deixar rasto.

Quando acorda está no que aparenta ser um quarto de hotel, equipado com uma cama, uma televisão, instalações sanitárias e um orifício na porta por onde lhe fazem chegar mantimentos. Ninguém lhe explica a razão de estar detido - em boa verdade, nem existe contacto humano, sendo adormecido com gás sempre que arrumam o quarto ou lhe cortam a barba.

O tormento prolonga-se durante 15 anos, tempo mais do que suficiente para entender que fez algo terrível a alguém cuja identidade ignora - para adensar o desespero, vê na televisão que a mulher foi assassinada, sendo ele o principal suspeito, e que a filha acabou por ser adoptada por suecos.

Aproveita para escrever intermináveis mas infrutíferas confissões num caderno colocado à disposição e, à medida que os dias não páram de contar, esmurra a parede até endurecer os punhos tanto quanto o espírito. Até que, mais uma vez sem qualquer explicação, é deixado no terraço ajardinado do arranha-céus onde perdeu anos de vida. A partir daí tem cinco dias para encontrar quem se deu a tanto trabalho para o castigar, contando para isso com a ajuda da jovem cozinheira Mido, capaz de o levar para sua casa (e para o seu leito) após vê-lo desfalecer ao comer com sofreguidão um polvo vivo.

A "famosa" cena dopolvo - Park Chan-wook não poderá dizer que nenhum animal foi ferido durante as filmagens... - é capaz de abalar os estõmagos mais fracos, mas realmente chocante revelar-se-á a teia construída para vingar um acto que, embora fortuito, teve consequências irreversíveis.

O cineasta sul-coreano, para quem "olho por olho, dente por dente" não é letra morta - "Oldboy" é o segundo tomo de uma trilogia iniciada com "Sympathy for Mr. Vengeance" (ainda sem edição portuguesa em DVD) e culminada no ano passado com "Sympathy for Lady Vengeance" -, assumiu inspirar-se na onsessão de James Stewart por Kim Novak em "Vertigo - A Mulher que Viveu Duas Vezes".

Mas o plano maquiavélico arquitectado ao longo de décadas por Lee Woo-jin, o milionário que manipula as vidas de Oh Dae-su e Mido como se fossem marionetas, não impede que o vilão seja tão ou mais digno de piedade quanto aqueles a quem procura fazer um mal que não ficaria deslocado numa tragédia grega.

Em entrevista à "Hollywood Reporter", Park Chan-wook explicou que as suas personagens "são fundamentalmente boas pessoas". Acrescentou ainda que as vinganças omnipresentes nos seus filmes não são o que parecem: "São histórias de pessoas que culpam os outros pelas suas acções pois recusam culpar-se a si próprias."

Quem comprar a edição de coleccionador de "Oldboy" poderá, entre os extras distribuídos por dois discos, conhecer melhor a mente de um dos maiores virtuosos da sétima arte.

O que, tal como observar a ingestão de polvos vivos, talvez não seja aconselhável aos mais sensíveis.

- Leonardo Ralha, in "Atlântico" Nº 11, Fevereiro 2006
 

A Ilusão do Sufrágio Universal - Mikhail Aleksandrovitch Bakunine ---->


Este é um blog de cultura, mas no rescaldo das eleições ofereço um petit texto político dum dos meus pensadores favoritos:

Os homens acreditavam que o estabelecimento do sufrágio universal garantia a liberdade dos povos. Mas infelizmente esta era uma grande ilusão e a compreensão da ilusão, em muitos locais, levou à queda e à desmoralização do partido radical. Os radicais não queriam enganar o povo, pelo menos assim asseguram as obras liberais, mas neste caso eles próprios foram enganados.

Estavam firmemente convencidos quando prometeram ao povo a liberdade através do sufrágio universal. Inspirados por essa convicção, puderam sublevar as massas e derrubar os governos aristocráticos estabelecidos. Hoje, depois de aprender com a experiência e com a política do poder, os radicais perderam a fé em si mesmos e nos seus princípios derrotados e corruptos. Mas parecia tudo tão natural e tão simples: uma vez que os poderes legislativo e executivo emanavam directamente de uma eleição popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não produziriam a liberdade e o bem estar entre a população?

Toda a decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a verdadeira vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas coisas: a maior prosperidade possível combinada com a maior liberdade de movimento e acção. Isto significa a melhor organização dos interesses económicos populares, e a completa ausência de qualquer organização política ou de poder, já que toda a organização política se destina à negação da liberdade. Estes são os desejos básicos do povo. Os instintos dos governantes, sejam legisladores ou executores das leis, são diametricamente opostos por se encontrarem numa posição excepcional.

Por mais democráticos que sejam os seus sentimentos e as suas intenções, atingida uma certa elevação de posto, vêem a sociedade da mesma forma que um professor vê os seus alunos, e entre o professor e os alunos não há igualdade. De um lado, há o sentimento de superioridade, inevitavelmente provocado pela posição de superioridade que decorre do professor, exercite ele o poder legislativo ou executivo. Quem fala de poder político, fala de dominação. Quando existe dominação, uma grande parcela da sociedade é dominada e os que são dominados geralmente detestam os que os dominam, enquanto estes não têm outra escolha, a não ser subjugar e oprimir aqueles que dominam. Esta é a eterna história do saber, desde que o poder surgiu no mundo. Isto é, o que também explica como e porque os democratas mais radicais, os rebeldes mais violentos, se tornam os conservadores mais cautelosos assim que obtêm o poder. Tais retracções são geralmente consideradas actos de traição, mas isto é um erro. A causa principal é apenas a mudança de posição e, portanto, de perspectiva.

Na Suíça, assim como em outros lugares, a classe governante é completamente diferente e separada da massa dos governados. Aqui, apesar da constituição política ser igualitária, é a burguesia que governa, e é o povo, os operários e os camponeses, que obedecem as leis. O povo não tem o tempo livre ou a educação necessária para se ocupar do governo. Já que a burguesia tem ambos, ela tem de facto, senão por direito, privilégio exclusivo. Portanto, na Suíça, como em outros países, a igualdade política é apenas uma ficção pueril, uma mentira.

Separada como está do povo, por circunstâncias sociais e económicas, como pode a burguesia expressar, nas leis e no governo, os sentimentos, as ideias, e a vontade do povo? É impossível, e a experiência diária prova isto. Na legislação e no governo, a burguesia é dirigida principalmente pelos seus próprios interesses e preconceitos, sem levar em conta os interesses do povo. É verdade que todos os nossos legisladores, assim como todos os membros dos governos cantonais são eleitos, directa ou indirectamente, pelo povo.

É verdade que, em dia de eleições, mesmo a burguesia mais orgulhosa, se tiver ambição política, deve curvar-se diante de sua Majestade, a Soberania Popular. Mas, terminadas as eleições, o povo volta ao trabalho, e a burguesia, aos seus lucrativos negócios e às intrigas políticas. Não se encontram e não se reconhecem mais. Como se pode esperar que o povo, oprimido pelo trabalho e ignorante da maioria dos problemas, supervisione as acções dos seus representantes? Na realidade, o controle exercido pelos eleitores aos seus representantes é pura ficção, já que no sistema representativo, o controle popular é apenas uma garantia da liberdade do povo, é evidente que tal liberdade não é mais do que uma ficção.
 

Faleceu Heinrich Harrer, o SS do Dalai Lama... ---->


O alpinista, investigador e escritor austríaco Heinrich Harrer, autor do livro Sete Anos No Tibete, que deu origem ao filme homónimo com Brad Pitt, faleceu ontem (Sábado, 7 de Janeiro, 2006) aos 94 anos. Autobiográfica, a obra relata a experiência de Harrer em Llasa, a capital do Tibete (país cuja destruição cultural denunciou), onde viveu e foi professor do actual Dalai Lama, o 14º, e aprendeu tibetano e japonês.

in Correio da Manhã, Domingo, 8 de Janeiro de 2006.

O, curto, obituário só se esquece de mencionar que o mesmo era militante do NSDAP (partido nazi) e das SS...
 

Recordando a Frente de Libertação dos Açores... ---->


Quando, nos anos setenta, vi jovens açorianos desafiarem tudo e todos, deslocarem-se a Lisboa e içarem a bandeira azul e branca com o símbolo do açor protegendo as nove ilhas num mastro do aeroporto da Portela, no Castelo de S. Jorge e no monumento do Marquês de Pombal, vi também mais uns descendentes destes ilimitados portugueses quinhentistas!

- Rainer Daehnhardt, "Homens, Espadas e Tomates"
 
 
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