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Este blog visa a divulgar o livro Epopéia Gaúcha, escrito pelo prof. Eugenio vasconcellos, sobre as excursões que o Sport Club Cruzeiro fez à Europa e Ásia, nos anos de 1953 e 1960.
Aceitamos comentários, informações e todo o tipo de sugestão pertinente ao clube, locais e componentes da excursão, que não conste das matérias.

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A PRIMEIRA VEZ NINGUÉM ESQUECE ---->
A EPOPÉIA GAÚCHA
História das excursões cruzeiristas à Europa e Ásia

Eugenio Carlos Vasconcellos

A EPOPÉIA GAÚCHA

História das excursões
Cruzeiristas à Europa e Ásia

Edição: CRUZEIRO

Para:
Nelson José Machado,
que me incentivou a realizar este trabalho.
Olmira Oliva de Vasconcellos,
minha mãe, que sempre me incentivou a
buscar o conhecimento.
Orlando Barbeitos de Vasconcellos,
meu pai, que me legou a graça de ser cruzeirista.

ÍNDICE

A primeira vez ninguém esquece

Introdução 6
A Notícia 7
A Preparação 8
Ari dos Santos 9
O Furacão 9
Arre...Piadas Olímpicas 10
A Viagem 11
A chegada na Europa 15
A estréia esperada 17
Davi e Golias 19
Jornal Arriba ( Espanha ) 20
Soprou o Minuano em Madri 22
Na França 24
Na Itália 29
Na Suíça 32
Uma perda irreparável 37
E continuam os dezoito 39
Agora, é a Lazio 40
O Cruzeiro em Israel 43
Em Jaffa, a segunda apresentação 45
Cruzeiro, “O abre-te Sésamo” 46
Agora, a Força Israelense 48
Cruzeiro na Turquia 51
Novamente o sr. José Gama 53
Tempo de guerra 54
Agora é a Seleção Turca 55
Mensagem de Natal 57
Contra o Fenerbach 58
Cruzeiro saiu de campo aplaudido (Gallatassaray) 59
Cruzeiro e a Seleção Gaúcha 60
De volta à Espanha 61
A revanche 62
De dezoito a dezoito mil 64
Cruzeirista! 66
Preparando o Regresso 67
A volta para casa 69
A chegada 71
A rentrée do Cruzeiro 72
A importância do feito cruzeirista 73
Mensagens de congratulações 76


A Segunda Excursão ao Velho Mundo

Sonho Grenal realidade cruzeirista 79
É quente a excursão 80
A escolha da delegação 80
O embarque 81
Roteiro da viagem 81
Seleção búlgara na estréia 82
A estréia 83
Segundo jogo na Bulgária 84
Cruzeiro na Áustria 85
Convite dos Estados Unidos 87
Dínamo de Zagreb 87
Rijeka 89
Torneio da Páscoa 89
Contra o Bayern 90
Contra o Vorvaerts 91
Contra o Dínamo 91
Ainda na Alemanha 93
Novamente um a um 94
A Guerra-Fria 93
Na Bélgica 94
Na Espanha 95
Real Madrid e Barcelona querem jogar com o Cruzeiro 96
Torneio Salvador Vilarrasa 97


INTRODUÇÃO
Esporte é cultura. É vida, paixão, amor e emoção. Mexe com a vida de todos que dele se aproximam. No Cruzeiro, esta máxima é levada muita a sério. Os cruzeiristas formam uma família. Falar deste clube é falar de paixão.

A proximidade do ano 2000, ou a expectativa da passagem para o século XXI, muitas retrospectivas de acontecimentos históricos do Rio Grande do Sul, foram produzidas e o esporte não poderia ficar de fora. Alguns fatos esportivos se destacaram neste século XX, outros foram apenas curiosidades, como o fato de Airton Ferreira da Silva ter sido vendido para o Grêmio em troca do antigo pavilhão da Baixada.

Os meios de comunicações praticamente ignoraram a participação estrelada neste século. Alguns apenas a mencionaram, outros usaram apenas uma linha. As paixões e o esquecimento podem ser classificados como os culpados deste lapso. Para resgatar, relembrar e fixar na memória dos esquecidos, foi realizado este trabalho de pesquisa, que nos mostra a real importância do Cruzeiro no desporto gaúcho e no desenrolar do século XX em nosso país.

Hoje, com a globalização da economia, fatos ocorridos na Europa, na Oceania ou na lua podem ser reproduzidos instantaneamente para qualquer parte do mundo. A televisão nos mostra no local, os acontecimentos. É tudo fácil, rápido. Os mais jovens, geração televisiva, não imaginam as dificuldades que ocorriam nas comunicações, na década de 1950.

O Cruzeiro lançou o nome da cidade de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande do Sul, na Europa e na longínqua Ásia, realizando um trabalho de divulgação e diplomacia reconhecido por todos, nos lugares onde andou. Isto é importante, isto é destaque, principalmente numa época, em que, para os chamados “povos civilizados”, a capital do Brasil era Buenos Aires. Este acontecimento projetou o nome de Porto Alegre, colocando-a no mapa dos grandes feitos.

A NOTÍCIA

Era o dia 1º de outubro do ano de 1953. Porto Alegre amanheceu perplexo com a notícia que descia da Montanha. O Cruzeiro, clube local, passaria, nesta cidade, a ser o grêmio porto-alegrense mais internacional do Estado.

Muitos, a princípio duvidaram, fizeram pouco caso. Outros, mesmo acreditando, não imaginavam que o velho Cruzeiro, da Colina Melancólica, pudesse jogar com grandes clubes europeus e conseguir algum resultado positivo.

Os cruzeiristas nunca duvidaram, sabiam da vocação estrelada para o sucesso. Um clube da provinciana Porto Alegre, na década de cinqüenta, iria representar o Rio Grande do Sul, em gramados europeus, com galhardia e denodo. Um clube para marcar época no cenário mundial. Para impressionar o mundo.

Da proposta efetivada ao Cruzeiro constava uma viagem a três continentes. Era como uma volta ao mundo. Seriam visitadas quinze cidades em nove países. O empresário José Gama havia contratado jogos na Europa, na Ásia e na África, passando por países como a Turquia, Líbano, Egito (local em que quarenta séculos de história contemplariam o maravilhoso futebol do Cruzeiro), Israel (o Cruzeiro seria o primeiro clube brasileiro a jogar em gramados deste recém criado Estado independente, mas herdeiro de seis mil anos de história). Visitaria ainda a Itália, França, Espanha e Portugal.

O Cruzeiro seria o embaixador do futebol gaúcho, abrindo espaços para que no futuro, outros clubes do Rio Grande do Sul possam abrir seus mercados. Os estrelados, humildemente, se aprontaram para enfrentar esta jornada. Ser cinco estrelas é símbolo de grandeza, é demonstrativo de qualidade. O Cruzeiro já nasceu um clube cinco estrelas.

Correio do Povo – 1.10.1953

O ITINERÁRIO DO CRUZEIRO

“Hoje é todo o Rio Grande do Sul esportivo que acompanha, não só curioso, mas também vivamente interessado, os preparativos do Cruzeiro para uma demorada visita a diversos países da Europa, da África e da Ásia. (...) Escapará, do roteiro, unicamente, a desconhecida Oceania, onde, ao que se sabe, os seus” atletas “ainda usam cabeças de focas em lugar de bolas de futebol”.

A PREPARAÇÃO

Rescisões, contratos, busca de novos valores, avaliações do desempenho apresentado durante o ano, jogadores disponíveis. Preocupações de toda a sorte. Estes passaram a ser os momentos de preparação do Cruzeiro com vistas aos jogos na Europa.

Deoli e Machado foram dispensados. Orceli, por não ter seu nome incluído na listagem dos que iriam a Europa, rescindiu seu contrato. Sarará, do Grêmio e Paulinho do Floriano, foram sondados, mas o preço exigido foi muito elevado, inviabilizando a contratação.

Também foram sondados, Quito, do Nacional e Cabrera. Sérgio Moacir e Wilson, do Grêmio, não foram liberados, pois o clube da baixada não poderia se desfazer de nenhum deles. O Cruzeiro tentou inclusive o concurso de Jesus, que talvez fosse o salvador, mas não deu certo. Enquanto isso, o Grêmio, que havia levado o Laerte II, no início da temporada, tentava o Laerte III e sondava o Paulistinha. Os problemas eram muitos. O Pinheirinho avisava:
“- O Cruzeiro não pretende levar enxerto para a Europa”.

Os jogos preparatórios do Cruzeiro, com vistas à excursão, foram às partidas finais do Campeonato Gaúcho de 1953. Mais especificamente, contra o Grêmio e o Internacional. Contra os tricolores, muita conversa antecedeu o jogo. Diziam que o Cruzeiro entregaria a partida, pois aí o Grêmio liberaria o jogador Sabará para ir à Europa com o clube da Montanha. Nada disso procedia, tendo em vista, que o Sabará já havia sido cedido ao Santos F.C.. A resposta, às maledicências, foi dada dentro de campo.No jogo realizado na Colina Melancólica, o Cruzeiro venceu merecidamente a seu adversário, pelo escore de dois tentos a um, tirando-lhe todas as possibilidades de almejar a conquista do campeonato, que por antecipação ficou com o Internacional. Contra o Colorado, o Cruzeiro apresentou um futebol vistoso, elegante, mas sem rendimento prático. Nardo, Ferraz e Jarico foram os destaques dos estrelados, no jogo em que o Internacional venceu por três tentos a um.

ARI DOS SANTOS

O jornal Correio do Povo, pertencente à Companhia Jornalística Caldas Júnior, em sua edição de 22.10.1953, publicou a escolha do representante da imprensa, escolhido pelo clube da Montanha.
“Acompanhando a missão do Esporte Clube Cruzeiro, viajará, hoje, rumo a vários países da Europa e da Ásia, o cronista especializado Ari dos Santos, que vem emprestando a sua colaboração às esportivas do e . Devidamente credenciado, o popular Chinês, enviará minuciosas reportagens, sobre a viagem dos estrelados, aos jornais da Empresa Caldas Júnior”.

Sobre o assunto, foi publicado no Diário de Notícias, de 22.10.1953, na seção Arre...Piadas Olímpicas, a seguinte gozação:
“O Código Brasileiro de Futebol obriga os clubes a levarem um cronista brasileiro nas suas excursões ao estrangeiro”.
- E como é que o Cruzeiro vai levar um cronista Chinês?”“.
Bom cabrito não berra! É isso aí.

O FURACÃO

Furacão é um vento muito forte, que surge numa zona de alta pressão atmosférica, se move em círculos concêntricos, formando um redemoinho. Seu núcleo é calmo, mas em sua periferia faz um estrago tremendo. Sacode o mundo. Furacão era o designativo carinhoso do Esporte Clube Cruzeiro, seu centro era calmo até demais, mas bastava aparecer um GRECRUZ ou INTERCRUZ, para que o Furacão fizesse das suas.

Todos, no Rio Grande do Sul, conheciam o Furacão, que geralmente era movimentado por algum nome masculino como Huguinho, Jarico, Hoffmeister, Tonico, Mauro, Raul Tagliari, Cará ou Elário.

Por estes motivos, o Diário de Notícias, jornal dos Diários Associados, empresa comandada por Assis Chateaubrient, ficou surpreso com o estranho telegrama recebido do governo da Turquia.

“Instituto Metereológico aqui, anunciando furacão com touca proveniente do Rio Grande do Sul. Não entendemos. Pedimos explicar”.

Arre...Piadas Olímpicas
Diário de Notícias – 13.10.1953

Após a vitória do Cruzeiro por dois a um, no GRECRUZ final do campeonato de 1953.

“-Este foi o campeonato mais barato que o Internacional obteve”.
- Por que?
- Porque custou apenas um Cruzeiro ““.


No jogo final, o Cruzeiro perdeu o INTERCRUZ por três a um. A gozação colorada não se fez por esperar.

“O Cruzeiro em seus primeiros tempos, foi o clube dos alunos da Escola Militar. Hoje continua agindo como um cadete”.
- Como?
-“Antes de ir embora teve o baile do adeus”.


Sr.OBOLA

- Que azar seu Laerte II ! Se você não tivesse deixado o Cruzeiro, ainda seria ainda seria o maior e estaria na Europa tomando aperitivos.
obs. Laerte II, foi vendido ao Grêmio, alguns meses antes do Cruzeiro obter o convite para disputar seus jogos na Europa.

A VIAGEM

A excursão do Cruzeiro começou em Porto Alegre, no dia 22.10.1953, com a saída para o Rio de Janeiro, da primeira parte da delegação estrelada composta por: Amauri, Valtão, Rui, Casquinha, Laerte, Celso, Delton, Bolacha, Hoffmeister, Nardo, Rudimar, Xisto, Ferraz e Jarico. Ivan Macedo Coelho foi chefiando a delegação.

A segunda parte da embaixada foi composta pelo restante da delegação, que seguiu com destino à Capital Federal, no dia 23. A saída do Rio de Janeiro aconteceria no dia 24. Até lá, os cruzeiristas seriam hospedados no Estádio São Januário, do Clube de Regatas Vasco da Gama. Local, que os estrelados usariam, também, para realizar um treinamento.

A embaixada cruzeirista era composta por:
Chefe: Dr. Antônio Pinheiro Machado Netto;
Secretário: Rivadávia Prates;
Tesoureiro: Ivan Macedo Coelho;
Diretor de Futebol: Jorge Elias Thomaz;
Cronista: Ari dos Santos;
Técnico: Osvaldo Azzarini Rolla (Foguinho);
Médico: Dr. Francisco Dall’Igna;
Massagista e roupeiro: Abraão Lermann;
Atletas: Jorge Américo La Paz; Amauri Ferreira Gomes; Marcelo Ernesto Castilhos; Valter Spies; Rui Scolari; Léo Alves Fonseca; Carlos Bermudes Guedes; Nadir Eraldo Prates; Antônio Gonçalves Filho; Antônio Alves Gomes; Antônio Xavier da Rosa; Celso Adams; Rubens Freire Hoffmeister; Odilon Ribeiro; Rudimar Machado; Bernardino Ferraz; Hugo Inácio Kuhn; Divo Barbalho; Jarí da Cunha Santos; Bernardo Barbosa da Silva; Valtair G. Bittencourt.
Acompanhantes:
Cornélio Martins e esposa; Sra. Maria Terra; Onira Terra de Bem; Hyeron Ribeiro; Antônio Caporal; Jorge Azzarini Rolla.

Do cais do Porto, da Capital Federal, a delegação embarcou no transatlântico Giulio Cesare, que iria sair às 11 horas, com destino a Espanha, onde, no dia 8 de novembro, enfrentaria o Real Clube Desportivo Espanhol, da cidade de Barcelona.

A escolha do Giulio Cesare se fez por motivo de economia. O Cruzeiro viajou na terceira classe. Tão boa, quanto o melhor hotel de Porto Alegre. Havia uma condição para a volta, pelo mesmo preço, foi ofertado ao clube voltar na segunda classe. A escolha se deveu ao preço e condições. No Giulio Cesare a viagem, por pessoa, sairia por Cr$ 12.400,00,
Mas, se a opção recaísse por uma viagem de avião, um Constelation, por exemplo, a despesa subiria a mais de Cr$ 33.000,00. De qualquer forma, todos seriam tratados durante a viagem, como nunca o tinham sido até então.

O Cruzeiro, nesta viagem, iria cruzar o Oceano Atlântico, sendo, portanto, o primeiro clube gaúcho a realizar uma tarefa deste vulto. Faria a viagem contrária à dos descobrimentos marítimos, no século XV.

O transatlântico Giulio Cesare fez uma escala na cidade de Dacar, no Senegal. De Dacar rumou, dia 30 de outubro, para a cidade de Barcelona, na Espanha, local onde, os estrelados porto-alegrenses, iniciarão sua jornada européia.

A CHEGADA NA EUROPA

A equipe porto-alegrense do Esporte Clube Cruzeiro desembarcou no dia quatro de novembro, no porto de Barcelona, ficando hospedados no Vitória Hotel, situado na Plaza Catalina. Somente após estarem acomodados no hotel, foi que os cruzeiristas tiveram conhecimento do cancelamento do jogo previsto, em Barcelona, contra o Desportivo Espanhol. A notícia pegou a todos de surpresa, pois os estrelados gaúchos pretendiam iniciar suas disputas na Europa, na cidade de Barcelona, como era previsto.

Em contato mantido com o empresário José Gama, a direção estrelada foi enfática, advertindo-o de que fatos como este não se repitam, pois o Cruzeiro não realizava uma aventura. Foi solicitada ao empresário, a apresentação dos pormenores dos próximos jogos a serem realizados.

Os contatos continuaram sendo feitos, agora com a direção estrelada a testa das negociações. Ficou acertado que o primeiro jogo seria contra o esquadrão do Real Madrid, na capital espanhola, dia oito de novembro. A cota recebida pelo Cruzeiro seria de Cr$ 98.000,00. Isto amenizou um pouco o prejuízo que o Cruzeiro teria, pois havia acertado a cota de Cr$ 120.000,00 na disputa em Barcelona.

No dia seguinte, o Cruzeiro realizou um treino coletivo no Estádio Sarriá, com a finalidade de se preparar para enfrentar seus futuros compromissos em gramados europeus. Neste treino, Foguinho teve a oportunidade de orientar seus pupilos e concluir sobre quem estaria mais bem preparado para integrar a equipe alvi-azul em seu primeiro compromisso na Europa. Nardo ressentiu-se de uma lesão e foi substituído por Celso Adams que teve um bom desempenho. Foguinho ficou em dúvida sobre quem escalar, para o jogo com o Real Madrid, domingo, na capital espanhola.

Após o treino, os estrelados seguiram em ônibus especial rumo a Madri. A chegada ocorreu as 3h30 min., da madrugada, do dia seis de novembro. Os estrelados foram recebidos por vários desportistas madrilenos e dirigentes do Real Madrid, que foram incansáveis no atendimento aos membros da delegação cruzeirista.

À tarde, o Cruzeiro efetuou um treinamento de 60 minutos, no Estádio Chamartin, para reconhecimento do terreno, onde se realizará sua estréia na Europa. Os reservas venceram os titulares por quatro tentos a dois. Há uma explicação para o fato, os titulares se pouparam visivelmente, já que a equipe passou mais de vinte cinco dias com pouco contato com a bola.

À noite, a diretoria do Real Madrid brindou a embaixada estrelada com um jantar de confraternização. Nesta ocasião, fez uso da palavra o desportista gaúcho Ivan Coelho, que agradeceu a homenagem e as atenções dispensadas pelos altos próceres do portentoso esquadrão espanhol do Real Madrid.
Mas, jogo é jogo. É dentro das quatro linhas que se decidirá à sorte da contenda. Homenagens à parte. No dia sete, todos realizaram um treino individual leve, como preparativo para a primeira disputa internacional de um representante gaúcho em gramados europeus.

Manchete do Correio do Povo – 8 de novembro de 1953.

A ESTRÉIA ESPERADA

Eram 16 horas na capital espanhola, 12h30 min. no Brasil. O Estádio Chamartin, do Real Madrid, abrigava a metade de sua capacidade normal, já que o selecionado espanhol enfrentava a Suécia no mesmo horário.

O dia era oito de novembro de 1953. O Cruzeiro estreava em gramados europeus frente ao esquadrão mais poderoso do mundo, o Real Madrid. O tempo se apresentava apropriado para a prática do futebol. O Real Madrid entrou em campo ostentando braçadeiras pretas em sinal de luto pelo falecimento da esposa do arqueiro madrilenho Joanito.

Iniciada a contenda, o clube local passou a tocar a bola e forçar a meta estrelada, defendida pelo excelente guardião La Paz. Existe uma explicação apropriada para este domínio dos espanhóis. Além de ser uma equipe mais qualificada, os locais estavam mais acostumados com o gramado escorregadio, o que lhes proporcionava uma vantagem. Devemos considerar também, o cansaço dos atletas cruzeiristas, devido à longa viagem de ônibus, logo após a travessia do Oceano Atlântico.

O Real Madrid dominou a contenda por uns sessenta minutos, mas também sofreu o domínio cruzeirista pelo espaço de trinta minutos. O resultado de zero a zero premiou a equipe brasileira, que demonstrou ser de muito boa qualidade, sem chegar a ser excepcional. O ponto alto do Cruzeiro foi o goleiro La Paz, que muitas vezes, durante o jogo, demonstrou suas qualidades, fazendo excepcionais defesas e impedindo que os locais pudessem abrir o marcador.

Outro destaque cruzeirista foi Laerte III, que sempre esteve bem na marcação e melhor ainda no apoio, com jogadas perfeitas na distribuição do jogo.

O treinador Foguinho, prevendo uma melhor performance do clube espanhol deu instruções ao zagueiro Valter Spies para colar no atacante Di Stefano, tarefa que Valter desempenhou com brilhantismo. O atacante argentino que jogava no Real Madrid mal pegava a bola, lá estava o zagueiro cruzeirista para atrapalhar-lhe a jogada. A certa altura da contenda, Di Stefano bravo, por não conseguir realizar jogadas com tranqüilidade, virou-se para seu marcador e disse:
“-Mire pibe, jo soy Di Stefano de Espanha!”
E o zagueiro cruzeirista respondeu:
“- Grande coisa! Eu sou o Valtão de Canoas”.
Apesar da marcação cerrada, Di Stefano foi o melhor de todos os atletas espanhóis.

Nos trinta minutos finais ocorreu a reação do Cruzeiro, que demonstrava grande entusiasmo e muita vontade de acertar, mas pouco ameaçou a meta adversária, pois a zaga espanhola formava uma barreira quase intransponível. Destaque para Campa, que marcou Huguinho com perfeição.

O Real Madrid teve um golo anulado pelo juiz da partida, aos 25 minutos, marcado por Olsem. Joselito perdeu duas oportunidades de marcar, quando se encontrou cara a cara com o arqueiro cruzeirista La Paz.

As duas equipes formaram com:

Real Madrid: Joanito, Becerril e Campa; Alonso, Montalvo e Zarraga; Britos, Olsem, Di Stefano, Joselito e Gento.
Cruzeiro: La Paz, Valtão e Paulistinha; Xisto, Casquinha e Laerte; Hoffmeister, Ferraz, Huguinho, Nardo (Celso Adams) e Jarico.

Ao término da partida, a alegria do lado cruzeirista foi muito grande. Ao ser entrevistado, La Paz achou justo o resultado e elogiou bastante os adversários, classificando-os como grandes arrematadores e finalizadores.

Huguinho elogiou bastante a Campa, que teve o mérito de marcá-lo com virilidade sem contudo ser violento. Huguinho pôde aparecer durante o jogo graças a seu esforço pessoal. Di Stefano considerou o Real Madrid superior durante a partida, teceu alguns elogios ao Cruzeiro, mas terminou afirmando que no Brasil existem outras equipes melhores que o Cruzeiro.

De qualquer forma, o Real Madrid é uma verdadeira seleção. Conta em seu quadro com jogadores nacionais e estrangeiros de alta qualidade como o uruguaio Britos, o sueco Olsem, considerado como um dos maiores atacantes do mundo e o argentino Di Stefano.

De Porto Alegre, a torcida cruzeirista satisfeita com o empate de zero a zero, com a poderosa equipe espanhola do Real Madrid, enviou um telegrama à valorosa reprentação estrelada dizendo:
“Delegação Esporte Clube Cruzeiro – Regina Hotel – Toulouse – França. Orgulhosos brilhante estréia aguardamos novos louros. Torcida Cruzeirista”.


Presente de Natal para a Torcida dos 18, era o Cruzeiro na tela do Cine Rio.


REPERCUSSÃO

Correio do Povo – 10.11.1953
DAVI E GOLIAS
Cid Pinheiro Cabral

“As agências estrangeiras de notícias, que transmitiram os detalhes do embate entre o Cruzeiro e o Real Madrid, apresentaram-nos frente aos olhos esta cena da ribalta futebolística, que tem tanto de comum, como de paradoxal: empatou... mas não convenceu...Um campeão da sorte, esse Cruzeiro, e nada mais!”

“Não devemos estranhar que isso aconteça. Em 1950 os uruguaios venceram, no Maracanã, perante 200.000 pessoas, a equipe brasileira – candidata única ao título, e, no dia seguinte, centenas de críticos não compreendiam ... e muitos colocavam os campeões mundiais em quarto ou quinto lugar, no ranking mundial. Em primeiro, apareciam o Brasil, derrotado da véspera, e a Inglaterra, que acabava de ser batida por um grupo de basebolistas improvisados em futebolistas, em Belo Horizonte!”

“A verdade, no caso do Cruzeiro – modesto clube do hinterland brasileiro – é que ele dividiu as honras de um prélio com a equipe que lidera o certame espanhol, uma equipe que, contando com o uruguaio Britos, o argentino Di Stefano, o sueco Olsem e o italiano Campa, é na realidade, não uma simples equipe espanhola, mas um autentico selecionado de grandes valores mundiais. Agora, se o Cruzeiro jogou com sorte e o Real sem sorte; se La Paz tirou o Cruzeiro nas costas e o Juanito, por falta de trabalho, teve de fazer ginástica sueca debaixo de suas barras, isso são outros quinhentos...”

“O que os comentaristas espanhóis consideram espantoso, é isto: Uma equipe tão modesta empatar com o poderoso líder do seu certame. Coloquemo-nos (somos brasileiros) no ângulo oposto. O que nos espantará, à primeira vista? Isto: Uma das melhores equipes da Europa não conseguir, apesar do seu domínio, bater o nosso querido e modesto Cruzeiro!”
“Conclusão lógica – conclusão nossa, brasileira: o mérito é todo do Cruzeiro. O mérito é do Davi que foi capaz de sustentar uma luta, sem vencido nem vencedor, com o imponente Golias”.

Esta crônica não leva em conta, o fato de ser o Cruzeiro, o primeiro clube do Rio Grande do Sul a jogar na Europa. Este fato causou desconforto a alguns invejosos. Os europeus não conheciam Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Grêmio ou Internacional. Acreditavam que a capital do Brasil fosse Buenos Aires. Portanto, se espantaram sim, que no Brasil houvesse um clube, longe do eixo Rio - São Paulo, e que pudesse fazer frente ao poderoso esquadrão madrilenho. Inveja mata.

Jornal ARRIBA
Madri 9.11.1953

“Si en el encuentro que el domingo jugaron el Cruzeiro de Porto Alegre, y el Madrid en el campo de Chamartin se hubieran marcado goles, no hay duda alguna que nos merecería el calificativo de excelente; pero como los tantos, que al fin y al cabo son la salsa del fútbol , no hicieron su aparición en el terreno madridista, tenemos que calificarlo simplemente de bueno”.

“Existía cierta curiosidad por ver el juego del equipo brasileño y el de al delantera madridista con Britos, Olsem, Di Stefano, Rodrigues y Gento y por ello Chamartin registró una buena entrada, pese al fuerte rival que el partido tenia en la retransmisión del España-Suecia. De los brasileños se esperaba una exhibición de juego brillante y rápido, y lo mismo se aguardaba de la delantera blanca formada a base de cuatro suramericanos y el montanês Gento”.

“Los visitantes, después de unos minutos iniciales de desconcierto en los que fuera netamente dominados, y en los que el Madrid con mayor fortuna en el remate pudo decidir el encuentro, cumplieron lo que de ellos se aguardaba, pero la que no cumplió fue la delantera local. Tanto con formación inicial de Britos, Olsem, Di Stefano, Joselito y Gento, como con la que jugo en la segunda mitad, de Joselito, Olsem, Di Stefano, Rodrigues y Gento, careció de ligazón, velocidad y acierto en el remate, y solamente cuando el balón lo jugaban Di Stefano y Gento, sus dos mejores hombres el peligro se cernía sobre La meta de La Paz”.

“Pese a estos reparos que le hacemos a la delantera madrileña, en el partido se vieron cosas de indiscutible calidad por parte de blanco y azules y para los verdaderos aficionados al fútbol, que no son precisamente los que necesitan que se dispute puntos para entretener-se, el partido resultó muy digno de repetir-se si los brasileños vuelven por nuestra ciudad”.

“En conjunto el Madrid jugó un buen encuentro, y con algo más de acierto y fortuna en el remate debió ser el vencedor; pero Joselito y Olsem no tuvieran su tarde en el tiro, y el meta brasileño salvó lo que en algunos momentos, como ocurrió en el golpe franco de Di Stefano en los últimos minutos, lo parecía completamente imparable”.

“Cumplió excelentemente Juanito, en su mejor partido en la meta madridista; pues si bien los brasileños no prodigan el remate, cuando lo hacen es con dureza e intención, y Juanito estuvo siempre bien colocado, valiente y seguro en el blocaje. La defensa, que sufre el papel parecía la línea más floja del conjunto, por faltaren ella sus tres titulares, cuajó un excelente partido ente los escurridizos delanteros brasileños”.

“De los tres fue mejor Gabriel Alonso, francamente recuperado y pleno de facultades y entusiasmo, seguido de cerca por Campa, y algo mas lejos por Becerril, al que no le van demasiado bien estos partidos de exhibición”.
“En los medios, Zarraga superó claramente a Montalvo, que parece haber perdido su sitio en el campo, y únicamente conserva su excelente toque de pelota. De los delanteros se esperaban grandes cosas, y en verdad que las hicieron Gento y Di Stefano, en muchos casos superiores a sus cuatro compañeros”.

“El montanês resultó, sin duda alguna, la gran figura del equipo. Rápido y con remate seco burló cuantas veces quiso al hombre encargado de márcalo, y como además mostró gran decisión para irse al gol por el camino más corto, su actuación fue francamente magnífica y de las más completas que desde hace muchos años le hemos visto a un extremo”.

“Gento salió ayer a ganarse el puesto de titular en su equipo, y a nuestro modo de ver lo consiguió de manera indiscutible. Di Stefano fue el gran delantero centro del día del Madrid. Su harté de ponerlos balones a sus compañeros de equipo realizó un par de jugadas individuales que nadie puede mejorar; jugadas que si no terminaron en tento fue por culpa de meta brasileño en un día feliz”.

“No tuvo Olsem su tarde, y de ello se resintió la delantera, pues ya es sabido lo que el argentino supone en el ataque madridista .Embarullado y poco acertado en el tiro Joselito, y lentos Rodrigues y Britos, de los que esperábamos bastante más”.

“El Cruzeiro, de Porto Alegre, demostró ser un excelente equipo, sin llegar a la categoría de extraordinario. Practica el clásico juego brasileño con el balón siempre a ras de tierra, y todos sus componentes marcan bien, son rápidos, ágiles y fáciles dominadores de la pelota. Como además ponen mucha movilidad y juegan con la máxima corrección, se ganaron las simpatías del publico, que los despidió con cariñosa ovación al abandonar el campo de Chamartin”.

LA PAZ IMPIDIÓ EL TRIUNFO DEL MADRID

“La figura del equipo fue el meta La Paz. El uruguayo paró con buen estilo todo lo parable, y casi lo imparable, pues marchamo de tales llevaban un remate y el golpe franco de Di Stefano. El impidió en gran parte el triunfo del Madrid”.

“Bien la defensa y excelente el medio Laerte, un moreno que marca excelentemente, corta mucho y pasa con la máxima precisión. El ataque tiene un juego espectacular basado en la movilidad, desmarque y excelente toque de pelota de sus componentes”.

“En la mayoría del partido quedó reducido a cuatro hombres, al jugar sin interior izquierda, retrasado en ayuda de sus medios, y aun así, ya que no prodigan el remate, fue una línea peligrosa y difícil de contener, en la que brillaron el extremo izquierda Jarico, el mejor disparador, y el delantero centro Huguinho, rápido y fácil en el desmarque. Los restantes cumplieron excelentemente y lucieron su velocidad y magnífica preparación física que les permitió finalizar el partido al mismo tren que lo iniciaron y sin dar señales de cansacio. Asimismo cumplió el árbitro señor Marrón, en un partido sin dificultades por la corrección de los dos equipos”.


Diário de Notícias – 10.11. 1953
DE FORA DA ÁREA

SOPROU O MINUANO EM MADRID...
Pê TARDO

“Conheço jogadores que nos treinos engolem a bola, mas quando toca de aparecer integrando o time numa partida qualquer, jogam pedrinha. Da mesma forma, tenho visto verdadeiros craques que nos treinos parecem miseráveis, assim como conheço, também, cabras que, nos seus quadros, são verdadeiros problemas para o técnico, mas se por acaso integram uma seleção, surgem como que transfigurados e botam no chinelo os papais da posição”.

“Isto quer dizer que há jogadores para treinos, jogadores para times e jogadores para scratches. E essa coisa de se querer organizar uma seleção baseada unicamente nas performances cumpridas pelos atletas nas disputas da temporada, pode muito bem não dar um quilo certo...”

“Bem, mas isso não tem nada com o que queria dizer, pois quando comecei esta coisa, minha idéia fixa de demonstrar que assim como há jogadores para treino, jogadores para times e jogadores para selecionados, há clubes para uso interno, clubes para uso externo e clubes de uso interno e externo ao mesmo tempo”.

“Pelos modos, o Cruzeiro pertence à segunda categoria. Como vocês sabem, os alvi-azuis, aqui em Porto Alegre não são lá essas coisas. Ganham quando menos se espera e perdem quando todo mundo acredita que vão vencer com facilidade. Não acerta o pé nunca. Agora, quando atravessa as fronteiras do município parece outro. Joga bem sempre e, mesmo que perca, como aconteceu com o selecionado uruguaio, não compromete o nosso bom nome”.

“Agora, mesmo, o clube estrelado fez um bonito, empatando com o Real, de Madrid, para onde parece que levou algo do nosso minuano... E olhem que o Real possui um dos esquadrões mais fortes da Europa. Um esquadrão que, há tempos venceu o Corinthians e empatou com o Vasco da Gama, quando o ‘Expresso da Vitória’ andava levando pela frente quantos adversários se lhe atravessavam. E, mais recentemente, abateu o Racing, campeão argentino, sem grande dificuldade”.

“Foi, portanto, uma façanha excepcional. Os desportistas gaúchos e, mesmo, brasileiros devem se sentir orgulhosos de tal feito. E aqueles que não escondem seu desgosto e sua ‘dor’ pela excursão que o Cruzeiro está realizando, que façam ‘boca de siri’, porque o que os azuis fizeram não foi coisa fácil e não lhes fica bem, como filhos desta terra, andar por aí a querer tirar o brilho de um acontecimento que só pode contribuir para aumentar o nosso prestígio no exterior e engrandecer o nosso futebol”.
Diário de Notícias – 10.11.1953

Arre...piadas Olímpicas

Ecos de Madri

“- O Cruzeiro nunca jogou diante de tanta gente! 110 mil pessoas em Madri!!!”.
- É, comparados, esses 110 mil assistentes, com aqueles 110 que presenciaram o último cotejo Cruzeiro e Aimoré...”


“E ainda dizem que o Cruzeiro não vale um Real !...
- Mas os leitores já ouviram falar no La Paz Futebol Clube”.


CRUZEIRO NA FRANÇA

De Madri a embaixada alvi-azul brasileira, seguiu em ônibus especial para a França, onde, no dia onze de novembro, deveria enfrentar a equipe do Toulouse, da cidade do mesmo nome, localizada na região da Gasconha, no sudoeste francês. A viagem era longa, desgastante, passaria novamente pela Catalunha, região espanhola onde o Cruzeiro iniciou sua peregrinação. Deveria atravessar os montes Pirineus, para depois chegar a Toulouse.

O Cruzeiro era aguardado com enorme expectativa, pois o resultado de zero a zero com o Real Madrid elevou o cartaz da equipe, na Europa. A delegação porto-alegrense esperava realizar uma grande partida, pois imaginavam estar mais ambientados com as condições dos campos locais que eram muito úmidos e bastante escorregadios.

Enfim chega o dia do jogo, o Cruzeiro entra em campo com a seguinte formação:
La Paz, Valtão e Paulistinha; Bolacha, Casquinha e Laerte III; Hoffmeister, Ferraz, Huguinho, Nardo e Jarico. A equipe francesa entrou em campo com sua esquadra completa, força total, mas, não foi divulgada em Porto Alegre a sua constituição.

A substituição de Xisto, que não pôde jogar e a entrada, em seu lugar, de Bolacha, não surtiram o efeito desejado por Osvaldo Rolla. Bolacha passou a ser envolvido pelos atacantes franceses, desestabilizando o sistema defensivo brasileiro. Já ao final da primeira etapa, os franceses venciam pelo elástico marcador de três a zero.

A autoria dos dois primeiros golos da equipe francesa não foi divulgada. O terceiro tento foi marcado pelo atacante finlandês Nils Rikberg, que fazia sua estréia na equipe do Toulouse.

Durante a segunda etapa da competição, o Cruzeiro reagiu, tentando descontar o placar, mas o que se viu, infelizmente, foi o quarto golo dos franceses, obra do dianteiro Bouchouk, que num rápido contra-ataque, assinalou mais um golo, dando as cifras definitivas da contenda.

Os melhores jogadores sul-americanos foram Laerte III e Casquinha. O zagueiro Valtão teve de abandonar o gramado por motivo de contusão no nariz. Além do campo escorregadio, da utilização constante do corpo a corpo por parte dos franceses, foi apontada a fraca atuação de Bolacha durante a partida, como a causa mais imediata desta inesperada derrota do Esporte Clube Cruzeiro, em gramados franceses. O esquadrão do Toulouse, anfitrião da disputa, é uma excelente equipe de futebol e ocupava, na época, a terceira posição na classificação geral do campeonato francês.

-Dizem que a maior parte dos jogadores dos jogadores
do Cruzeiro passou a viagem marítima tocando e cantando.
Por isso, terminaram dançando em Toulouse...
Charge: Diário de Notícias.

CRUZEIRO NA ITÁLIA

Dia treze de novembro, o Cruzeiro chegou a Turim, depois de sair de Toulouse, via férrea, para um encontro com a equipe local do Torino, a famosa equipe da camisa grená. Vários dirigentes recepcionaram, na estação, a comitiva estrelada, quando de sua chegada a esta cidade. Foram pródigos em cumprimentos.

Hospedados no Hotel Ginevra, os cruzeiristas aproveitaram para descansar e passar a noite no hotel. Na manhã seguinte houve uma visita a cidade, para que os desportistas brasileiros pudessem observar as belezas locais e passear pelos pontos comerciais de Turim, ao norte da Itália.

O futebol desperta grande atenção na população e pelo fato de o Cruzeiro ser uma equipe brasileira, o jogo do próximo domingo desperta grande interesse junto ao público. A emigração de italianos para o Brasil, desde o século XIX, é a responsável pela simpatia demonstrada pela população à equipe do Cruzeiro. Mas, o interesse especial que cerca a competição, se deve ao fato de ser os estrelados gaúchos, representantes do futebol do extremo sul do Brasil, região das mais populares da Itália.

Os italianos desejavam conhecer o grau de progresso que o futebol alcançara no Ri Grande do Sul e mesmo a derrota em Toulouse, não tirou o interesse pela contenda, pois na estréia, o Cruzeiro empatou com o poderoso esquadrão do Real Madrid, demonstrando a equipe gaúcha possuir condições de enfrentar qualquer adversário.

Na tarde do dia 14 de novembro foi realizada uma sessão de ginástica. Depois houve, na sede do Torino, uma recepção aos cruzeiristas. No dia seguinte, a cidade amanheceu com um intenso nevoeiro, que prejudicou inclusive, o interesse de Foguinho, em realizar um leve bate bola pela manhã.

As horas foram passando e o tempo mudou por completo. Após o meio-dia apareceu um sol maravilhoso, possibilitando que o encontro às 14h15min, no começo de uma tarde de outono, no hemisfério norte. O estádio estava lotado. A torcida local recebeu a equipe do Torino com grande estardalhaço e um pouco fria em relação à equipe do Cruzeiro.

A expectativa deste jogo era muito grande por parte dos alvi-azuis gaúchos. O Cruzeiro precisava de um resultado positivo para garantir o interesse dos europeus. Ari dos Santos escreveu para a Folha da Tarde Esportiva o seguinte: “na orla do gramado, o restante da delegação cruzou os dedos (isolando) quando a redonda foi movimentada. Osvaldo Rolla era o mais calmo, deixava transparecer sua certeza em uma boa exibição”.

O Cruzeiro iniciou nervoso esta partida. Disto se aproveitaram os locais para fazer carga à meta guarnecida por La Paz, que demonstrou firmeza e segurança. Laerte III e Valtão não jogaram esta partida e a defesa cruzeirista sentiu suas faltas, oportunizando a que a equipe do Torino exercesse pressão nos momentos iniciais.

No decorrer do jogo, os substitutos foram se ambientando e a defesa mais firme permitiu que o Cruzeiro fosse a frente, permitindo assim, que Soldan, arqueiro do Torino, se destacasse com grandes defesas, mostrando ao público que não era somente La Paz quem deveria brilhar nesta disputa.

Os ataques do Cruzeiro levavam pânico a defensiva do Torino, onde Soldan fazia verdadeiro milagre, ao conseguir manter o zero a zero no marcador. Em determinado momento, quando o arqueiro do Torino não consegue a defesa, a trave salva a equipe local, como ocorre, por duas vezes durante o primeiro tempo da contenda. Huguinho e Nardo carimbam o poste.

A equipe estrelada atacou muito mais que o adversário na primeira fase, que por muito pouco, não saiu de campo inferiorizada no marcador. Veio o segundo tempo, o quadro local voltou melhor. Rui, contundido, saiu de campo para ser atendido por Abraão Lermann, dedicado massagista cruzeirista, que fez de tudo para amenizar a lesão do zagueiro. Não demorou muito, Rui retorna ao gramado.

Osvaldo Rolla inverte posições, recua Casquinha e avança Celso Adams, que passa a municiar com mais intensidade a linha de frente alvi-azul. O Cruzeiro volta a atacar. Até o final do jogo é só ataque do Cruzeiro, e o Torino fazendo de tudo para permanecer com sua meta incólume.
Os espectadores, que a princípio receberam friamente a equipe do Cruzeiro, começam a admirar o futebol apresentado pelos sul-americanos e passam a aplaudi-los, em cada jogada efetuada com maestria e perfeição.

O Cruzeiro não conseguiu modificar o marcador com que iniciou esta disputa, mas deixou marcas profundas em suas traves e no coração dos italianos.

Jarico encontrou no poste, o destino de uma de suas conclusões, Ari dos Santos, cronista que acompanhou a delegação estrelada em sua excursão ao Velho Mundo, narra emocionado a quarta bola na trave: “falta contra o Torino, vai bater Adams (o grande homem em campo depois dos arqueiros). Atira por elevação. Confusão a boca da meta, Soldan tira de munheca. A bola fica dançando na pequena área. Surge Nardo e atira, Soldan está vencido. Dá meia volta no ar e tenta assim mesmo a defesa. Nada consegue e se tem a impressão que o golo está feito. Mas não estava, o poste salva novamente a meta do Torino”.

Findo o jogo, o Cruzeiro realizou uma grande partida. Não conseguiu vencer, mas marcou profundamente a assistência, que no final aplaudiu calorosamente os atletas brasileiros. O Cruzeiro jogou e encantou com: La Paz, Xisto e Rui; Celso Adams, Casquinha e Paulistinha; Hoffmeister, Huguinho, Rudimar, Nardo e Jarico.
Charge Sr.OBOLA: - Caramba! O Cruzeiro já jogou em três países
-Espanha, França e Itália – e ainda não marcou nenhum golo...
Deve ter batido o recorde mundial.

HUMOR
Diário de Notícias
A CARTA
O nosso colega Petardo, que teve um desgosto em pequeno e, por isso se tornou cruzeirista, acaba de receber de Toulouse, a seguinte carta de um jogador alvi-azul:
“Estou com muitas çaudades do Brasil, o dr. Pinheiro Maxado está açombrado com a cultura do povo francês. Imajine que, na França, até as crianças sabem falar francês. O nosso quadro vai bem! Pretendemos ir mais longe, se La Paz não cansar, pois é ele quem vem carregando o time nas costas...”

Registro dos jogos:

Até então, o Cruzeiro havia jogado três partidas na Europa.
Vitórias nenhuma; empatou duas vezes e foi derrotada uma vez.
Havia sofrido quatro golos e não havia feito nenhum.
Ainda não tinha goleadores a registrar.
Mesmo assim, seu futebol encantava a todos.

Charge Sr.OBOLA: - Caramba! O Cruzeiro já jogou em três países
-Espanha, França e Itália – e ainda não marcou nenhum golo...
Deve ter batido o recorde mundial.

O CRUZEIRO NA SUÍÇA

As várias agremiações esportivas de Porto Alegre e arredores, aproveitaram este final do ano de 1953, para excursionar a diferentes localidades. Sem clubes na cidade, a capital do Rio Grande do Sul passou por um período de jejum futebolístico. O foco dos noticiários e ações esportivas estavam direcionados para outros locais.


Em relação ao Cruzeiro havia um silêncio. A falta de notícias era incompreensível para os meios de comunicações. Este fato gerou muitas especulações, já que as últimas notas distribuídas pelas agências noticiosas internacionais, diziam ser possível uma apresentação dos alvi-azuis gaúchos na Suíça.

Até este momento, tudo era motivo para se noticiar, pois o Cruzeiro passou a ser o interprete das descobertas gaúchas. O Correio do Povo, em sua edição de 19.11.1953, afirmava que “o Cruzeiro é detentor de uma série alentadora de supremacias regionais, todas elas advindas do pioneirismo estrelado”.

O Cruzeiro, até o momento, havia passado por três países e realizado três jogos, não havia marcado nenhum golo. Incompreensível! Até porque, seus resultados eram exitosos. Também, foi o clube da montanha, o primeiro clube gaúcho a jogar em estádios com traves redondas. Aqui, no Brasil, as goleiras eram feitas com caibros de madeira.

Deixando de lado estas amenidades, eis que chega a Porto Alegre uma notícia alvissareira. O Cruzeiro jogou na Suíça, na cidade de Lausanne, dia vinte três de novembro. Com uma atuação brilhante sob todos os aspectos, o alvi-azul gaúcho goleou por cinco tentos a dois a equipe local do Lausanne.

Desta vez, o ataque saiu do sério. Em sua quarta partida no Velho Mundo, fez nada menos do que sete golos, dos quais dois foram anulados e os outros cinco validados. O mais importante nesta partida foi o entendimento coletivo, daqueles dias em que tudo parecia dar certo. A equipe causou uma boa impressão à assistência do espetáculo.Laerte III foi perfeito no entendimento com a defesa, onde se destacou o zagueiro Rui. Hoffmeister e Nardo espetaculares no ataque.

Na primeira etapa, o cruzeiro já vencia por três a dois. Com golos de Nardo (2), Huguinho, Hoffmeister e Ferraz o Cruzeiro venceu o Lausanne, que teve sus golos marcados por Stable e Stefano. Com La Paz, Rui e Paulistinha; Xisto, Laerte e Casquinha; Hoffmeister, Ferraz, Huguinho, Nardo e Jarico, o Cruzeiro agradou bastante ao público presente.

Ofício do Ministro do Brasil na Suíça ao E.C.Cruzeiro

“-Tenho o prazer de levar ao conhecimento de V.S. que o E.C.Cruzeiro obteve ontem em Lausanne uma magnífica vitória contra o clube local. Toda a imprensa Suíça não mede elogios à atuação dos nossos jogadores, cuja elegância, habilidade e espírito esportivo conquistaram o numeroso público que acorreu ao estádio do Pontaise”.
“Incluso remeto a V.S. recortes de alguns jornais suíços com comentários sobre o jogo. Peço a V.S. aceitar e transmitir aos seus demais colegas de direção os meus mais sinceros parabéns pela magnífica impressão deixada na Suíça pela equipe do E.C.Cruzeiro, que longe da Pátria soube honrar as tradições do futebol brasileiro e da galhardia gaúcha”.
“Aproveito a oportunidade para apresentar os protestos da distinta consideração com que me subscrevo. (as.) F.d’Alanno Louzada, Ministro do Brasil”.

Correio do Povo – 25.11.1953
Cruzeiro em Berna

“A equipe do Esporte Clube Cruzeiro, dando prosseguimento a sua gira pela Europa, deverá jogar depois de amanhã, na cidade de berna, na suíça, contra um quadro daquela cidade. Espera-se que a equipe alvi-azul, volte a fazer uma atuação de molde a agradar, uma vez que com sua última exibição em Lausanne, parece ter se encontrado, produzindo toda a equipe aquilo que de há muito se esperava na excursão que desenvolve”.

Correio do Povo – 25.11.1953
A vitória do Cruzeiro

Rio, 24 (C.P.)
“Albert Laurence, comentaristas de assuntos internacionais do ‘Jornal dos Sports’, publica hoje o seguinte comentário sobre a vitória alvi-azul”.
“Depois dos empates com o Real Madrid e o Torino, e da derrota ante o Toulouse francês, o Cruzeiro de Porto Alegre conquistou domingo sua primeira vitória nos campos do Velho Mundo, derrotando em Lausanne (Suíça) o quadro local, pertencente à Primeira Divisão suíça, pela contagem eloqüente de cinco a dois”.
“Convém, contudo, reconhecer que o Lausanne jogou bastante desfalcado, pois vários elementos seus foram escolhidos nos selecionados ‘A’ e ‘B’ da Suíça jogando contra a Bélgica na mesma hora, sendo possível citar em particular o arqueiro Stuber e o zagueiro Bocquet, o que, com certeza diminuiu a qualidade da defesa do Lausanne”.
“Mas, uma vitória no estrangeiro tem sempre o seu valor, e queremos esperar que o Cruzeiro, agora melhor ambientado continue honrando nos campos europeus o futebol do Brasil”.
“N.R. – Ao argumento expendido pelo sr. Laurence, devemos antepor que também o Cruzeiro não jogou com sua formação clássica, como aliás já deram ciência os noticiários sobre o jogo”.

UMA PERDA IRREPARÁVEL


De repente uma notícia estarrecedora. Faleceu em Istambul o terceiro vice-presidente do Cruzeiro, dr. Rivadávia Prates. O Riva, como era conhecido na família cruzeirista, era um sujeito muito dinâmico e dedicado às tarefas que lhe eram incumbidas. Secretariava a delegação alvi-azul na Europa e era uma das principais forças dirigentes do Cruzeiro.

As notícias, originárias das agências noticiosas, dão conta de que o Riva foi vitimado por um ataque cardíaco, quando de sua missão para acertar jogos de seu clube com equipes da Turquia. Inicialmente, após ser comunicada a embaixada estrelada em Roma, já estava sendo providenciadas a liberação e remoção do corpo deste estimado desportista a Porto Alegre.

Como não poderia deixar de ser, a notícia abalou profundamente a todos os integrantes da embaixada cruzeirista, ora em visita ao Velho Mundo. Foi cogitado até mesmo o cancelamento dos jogos acertados e o retorno de todos a Porto Alegre. E não era para menos! O Rivadávia era um sujeito calmo e estimado por todos.

A direção do clube, em Porto Alegre, declarou luto oficial do Cruzeiro, conforme nota oficial a seguir:
Nota Oficial
“O presidente em exercício e demais membros da diretoria do E.C.Cruzeiro cumpre o doloroso dever de comunicar aos seus associados e esportistas em geral, o falecimento do sr. Rivadávia Prates, 3º Vice-Presidente, Diretor Geral de futebol e Secretário da delegação ora excursionando no estrangeiro”.
“Na forma dos estatutos em vigor, fica declarado luto oficial por trinta dias, mantendo-se o pavilhão do clube em sinal de pesar por igual tempo”.
“Na oportunidade, comunicamos, que o corpo do nosso inditoso companheiro será transladado para esta capital, conforme comunicação oficial recebida por esta diretoria. À família enlutada, a diretoria do Esporte Clube Cruzeiro, apresenta oficialmente suas sentidas condolências”.

Rivadávia Prates era filho do sr. Fidélis Prates, conhecido despachante, em Porto Alegre.Riva era um batalhador, vinha há muito prestando relevantes serviços ao Cruzeiro e faleceu repentinamente, quando, em missão na Turquia, tratava dos interesses de seu clube.

Rivadávia e Jorge Tomaz, foram incumbidos pelo presidente do clube, dr. Antônio Pinheiro Machado Netto, para acertar em Istambul, os próximos jogos do clube e os respectivos translados de Roma-Istambul-Israel.

Partiram de Roma, dia 27.11.1953, pela Air France, às 14h30 min e realizaram uma ótima viagem até Istambul, com duração de cinco horas. Na chegada ao aeroporto, as 19h30 min, já eram esperados pelo sr. Charles Carnona e o Cônsul brasileiro sr. Valadares. Do aeroporto seguiram para o Hotel Karnack onde se hospedaram.

Dia vinte oito pela manhã, saíram para realizar os acertos necessários para o transporte da delegação. Às 12 horas, auxiliados pelo empresário sr. Carnona, já haviam resolvido os assuntos sobre passagens e jogos em Tel Aviv. À tarde, se dedicaram são conhecimento da cidade, fazendo um tour pelos locais mais visitados por turistas. Às 17 horas voltaram para o hotel. Passados mais ou menos uns trinta minutos, Rivadávia queixou-se de frio, apesar do entardecer apresentar uma temperatura agradável. Riva solicitou que Tomaz buscasse um cálice de conhaque para aquecê-lo. Tomaz, ao voltar encontrou Riva deitado e todo coberto, queixando-se de um intenso frio.

Rivadávia solicitou a Tomaz que fizesse uma fricção nos pés, pois estavam muito gelados. Após alguns minutos de aquecimento o Riva se levantou e sentou junto a uma mesa, passando a fazer um relatório dos resultados obtidos nos contatos feitos naquele dia. Jorge Tomaz saiu, mais tarde, para postar a correspondência no correio, demorou mais ou menos uns trinta minutos e ao voltar encontrou o Riva pronto, barbeado e vestido. Saíram a seguir, eram 18h30 min, muito cedo para jantar, resolveram ir ao cinema. Escolheram o filme Missão Secreta, estrelado por Cornell Wilde.

Às 20 horas, saíram e conversavam sobre o filme, de que haviam gostado muito. Não haviam percorrido 50 metros, quando o Riva queixou-se novamente de sentir frio. Mesmo bem agasalhado, tiritava de frio e de repente disse:
“- Jorge! Me agarra, eu não agüento mais!...”
A seguir, tombou, sendo amparado por Tomaz, que o imaginava desmaiado. Tomaz aflito, chamou um táxi e solicitou que rumasse a um hospital. Alguns minutos após, davam entrada no Pronto-Socorro, sendo atendidos de imediato por três médicos, que após um rápido exame, perceberam que o Riva jazia sem vida. Tomaz, desorientado pelo choque, ficou algum tempo sem ação, depois, já recuperado, ligou para o consulado brasileiro, solicitando a presença de nosso Cônsul no hospital. Ao chegar ao nosocômio, o Cônsul brasileiro tomou todas as providências necessárias. Tomaz telefonou para o Pinheiro Machado, que se encontrava em Roma, para informá-lo do ocorrido.
Em Porto Alegre, o dr. Pedro Pacheco de Souza, vice-presidente, no exercício da presidência, recebeu de Pinheiro Machado o seguinte telegrama, informando o ocorrido:
“-Dr. Pedro Pacheco, Porto Alegre. Nosso companheiro Rivadávia Prates foi vítima se um colapso cardíaco, vindo a falecer. O seu corpo seguirá via-aérea pela Pan American, dia 3, saindo de Istambul, fazendo escala em Frankfurt, Nova York, São Paulo e Porto Alegre, chegando a nossa cidade dia 8. Aguarde no aeroporto, com demais membros da diretoria, prestando toda a assistência à família do nosso companheiro, nesta dolorosa tragédia. Segue esclarecimento por carta. Pinheiro”.

Porto Alegre, aguardava com interesse, as notícias sobre o falecimento de Rivadávia Prates, para prestar-lhe as derradeiras homenagens. Do Rio de Janeiro, dia 3.12.1953, o Correio do Povo informava a data aproximada da chegada a esta capital, do corpo de Rivadávia Prates, concluindo assim a nota: “Desta Capital (Rio de Janeiro), o corpo será transportado para Porto Alegre, onde será sepultado. Esta providência foi tomada graças à iniciativa do Ministro João Goulart”.

Dia 17.12, o Cruzeiro divulgou o seguinte convite:
“A Diretoria do Esporte Clube Cruzeiro, comunica aos seus associados e aos desportistas em geral, que o corpo do seu pranteado vice-presidente Rivadávia Prates, segundo comunicado da Panair do Brasil, chegará hoje, às 13 horas no aeroporto de Gravataí (Pan American), saindo daí diretamente para a casa da família enlutada, sito à rua Aparício Borges, 939”.
“O féretro sairá para o cemitério da Santa Casa, às 17 horas do mesmo dia. Por ocasião do sepultamento, usará da palavra um membro da diretoria, para prestar ao extinto as derradeiras homenagens”.

Às 14 horas do dia 17.12 pousou, no aeroporto de Gravataí, o avião da Pan American, trazendo o corpo do desportista Rivadávia Prates, falecido subitamente em Istambul, no dia 28 de novembro. O corpo, recebido pela família do extinto e pela diretoria do Cruzeiro foi transladado para a residência da família, de onde, às 17 horas, saiu para ser sepultado no cemitério da Santa Casa de Misericórdia. O cortejo fúnebre passou pela frente do Estádio da Montanha, do Cruzeiro, antes de atingir a necrópole. O dr. Pedro Pacheco de Souza, proferiu comovente e sentida homenagem de despedida. O caixão do sempre lembrado foi coberto com o pavilhão estrelado. Havia muitas coroas, demonstrando o quanto era querido o prócer cruzeirista, sr. Rivadávia Prates.

Diário de Notícias – 6.12.1953
DE FORA DA ÁREA
Pe TARDO

E CONTINUAM OS DEZOITO
“Assinado por pseudônimo que encobre a personalidade de conhecido desportista metropolitano, recebi a colaboração que transcrevo, numa homenagem sincera à memória de Rivadávia Prates que a morte veio surpreender prematuramente, quando tornava realidade um dos seus mais ardentes sonhos de moço idealista e empreendedor, a quem não só o E.C. Cruzeiro, do qual era vice-presidente, como o próprio esporte gaúcho e brasileiro, ficaram a dever assinalados serviços:”
“Leitor assíduo de sua apreciada coluna jamais quis dar meus palpites sobre assuntos de futebol e muito menos tomar parte nas contínuas que a muito figuram na mesma”.
“Abro, porém, uma exceção, para prestar uma sentida homenagem a um velho camarada, lutador infatigável, que anonimamente vinha trabalhando, desde há muito, pela grandeza e o desenvolvimento do esporte, para maior grandeza do seu velho e querido clube”.
“Estas torcidas que vibram com as vitórias de sua equipe preferida, que endeusam os do seu clube predileto nos dias das grandes jornadas, injustiçam os timoneiros do seu barco nos momentos de desdita. Não conhecem essas torcidas e se conhecem não querem compreender, que por detrás dos bastidores, trabalhando estafantemente, anonimamente, permanentemente, sem nada usufruir, a não ser a grande satisfação de servir ao seu ideal, está um pugilo de bravos dirigindo a grande nau num mar encapelado de tropeços e de desilusões”.
“Rivadávia Prates que ante-sonhava assistir a volta gloriosa do seu querido clube, que já estava vivendo os momentos inesquecíveis de sua vida desportiva, que aguardava, impaciente, o momento supremo de volver ao seio dos seus familiares, que estava desejoso de retornar à sua Pátria, ao seu Estado, e à sua cidade, foi traiçoeiramente golpeado pela morte, deixando um profundo vácuo de difícil preenchimento”.
“Riva, porém, não desertou dos 18. Ele fará parte eternamente desse pugilo de bravos abnegados que vivem em torno da bandeira estrelada. E seu último desejo naquela lucidez da hora da morte, estou certo, longe de tudo e de todos, foi pedir bênçãos a Deus para sua família, sua Pátria e para o clube que ele tanto quis e ajudou a projetar fora das fronteiras do Brasil”.
“E a vida continua e o Cruzeiro também; Riva também continuará, eternamente, fazendo parte dos célebres DEZOITO”.

AGORA É A LAZIO

Roma, cidade eterna, não poderia deixar de assistir a apresentação do Esporte Clube Cruzeiro. O empate conseguido junto a equipe do Torino, já era uma apresentação e tanto. Tão logo, a Lazio recebeu a visita do dr. Antônio Pinheiro Machado Netto, propondo o jogo, ele foi aceito e programado para o dia dois de dezembro. Há quase uma semana sem jogo, a delegação estrelada, que encontrava-se em Roma, desde o dia vinte seis de novembro, aproveitava para conhecer a cidade.

Hospedados no Hotel Imperiale, situado na Via Veneto, os alvi-azuis brasileiros aproveitavam o tempo livre para descansar. Dia 27.11, realizaram um passeio pela capital italiana. Visitaram o Coliseu, as ruínas da Roma Antiga, o Palácio de Nero(aquele que botou fogo em Roma), o Arco de Constantino, o Fórum Romano, a Basílica de São Pedro e os muros que circundavam a Roma Antiga, datados de quatro séculos antes do nascimento de Cristo. Neste passeio, conta-se, que a certa altura, o guia da excursão anunciou:
“-Agora vamos visitar o Arco de Constantino!”
Ato contínuo, Hoffmeister perguntou:
“-Legal, mas em que time ele joga?”

No mesmo dia à tarde, houve um treino individual, preparatório para o encontro com a Lazio. Dia 28, um treino coletivo no Estádio Olímpico de Roma (Olímpico mesmo), para reconhecimento do terreno. Dia 29, domingo, a embaixada visitou o Papa Pio XII. Solicitaram, também, uma autorização para visitar a Cinecitá (estúdios cinematográficos de Roma).

Porém, nem tudo eram flores. O falecimento de Rivadávia Prates, calou fundo nos ânimos da delegação. A saudade do amigo Riva pesava a todo momento. Pretenderam voltar a Porto Alegre, mas os compromissos assumidos os impediam de retornar. O trágico acontecimento abalou a todos.

Contra a Lazio, no dia dois de dezembro, o Cruzeiro realizou sua última partida na Itália. O jogo começou as 15 horas, horário italiano e 11 horas, horário brasileiro. O passamento do vice-presidente estrelado Rivadávia Prates, fez o Cruzeiro entrar em campo ostentando uma tarja preta, em seu uniforme, em sinal de luto. Antes de iniciar a contenda, foi feito um minuto de silêncio em sinal de pesar pelo ocorrido.

Quinze mil pessoas assistiram, com grande expectativa, este encontro que se realizou sob um sol brilhante, quando a Lazio ostentou a seguinte formação: Sentimenti IV, Antonazzi e Montanari; Fuin, Sentimenti V e Bergamo; Puccinelli, Obredessem, Vívolo, Burini e Fontanesi. Pelo Cruzeiro, formaram: La Paz, Xisto e Paulistinha; Laerte III, Rui e Casquinha; Hoffmeister, Ferraz, Huguinho, Nardo e Jarico.

A Lazio é uma das mais categorizadas equipes italianas e a expectativa para este jogo era muito grande. O Cruzeiro vinha de excelentes resultados. Um empate sem abertura de contagem com o Real Madrid, a melhor equipe européia, a mais categorizada do mundo. Depois, o empate com o Torino, isso tudo, sem contar a vitória de cinco a dois contra o Lausanne. A derrota em Toulouse, foi considerada apenas um acidente de percurso.

Iniciada a partida, os locais perderam uma grande oportunidade, quando Puccinelli chutou forte e a bola bateu no travessão. La Paz já estava batido. Porém, esta primeira etapa, foi jogada lá e cá, palmo a palmo, disputa equilibradíssima. As duas equipes sempre buscando a abertura do marcador.

Na segunda etapa, a Lazio veio melhor e nos primeiros minutos chegaram a dominar os brasileiros, que aos poucos foram se recuperando até conseguir jogar de igual para igual e inclusive dominar as ações, estabelecendo um verdadeiro duelo entre o ataque cruzeirista e a defesa italiana.

O que faltou ao Cruzeiro foi um pouco mais de objetividade no ataque, causada pelo excesso de dribles, passes em demasia, sem objetivar o chute a golo. Aos trinta minutos da segunda etapa, Ferraz assinalou um golo, que foi anulado pelo árbitro da partida, sob a alegação de ter marcado uma falta anterior em Hoffmeister. Mesmo assim, já quase ao final da contenda, Ferraz chutou forte e a bola passou raspando o travessão, sufocando novamente o grito de gol do esquadrão brasileiro.

O jogo foi excelente. O público saiu do Estádio Olímpico com uma boa impressão da equipe cruzeirista, satisfeito com o espetáculo e com o resultado. O Cruzeiro dominou a maior parte do jogo, teve um golo anulado e saiu como um vencedor, neste empate de zero a zero.

A crônica especializada de Roma, teceu grandes elogios e as melhores referências ao futebol apresentado pelo Cruzeiro de Porto Alegre. Destacaram Laerte III, como o melhor atleta em campo, com referências elogiosas a La Paz, Rui, Paulistinha, Jarico, Huguinho e Ferraz. Ressaltando sempre, que o alvi-azul gaúcho foi c
 

AGORA É A LAZIO ---->
A crônica especializada de Roma, teceu grandes elogios e as melhores referências ao futebol apresentado pelo Cruzeiro de Porto Alegre. Destacaram Laerte III, como o melhor atleta em campo, com referências elogiosas a La Paz, Rui, Paulistinha, Jarico, Huguinho e Ferraz. Ressaltando sempre, que o alvi-azul gaúcho foi considerado a melhor equipe sul-americana que já jogou na Itália. O Cruzeiro gratificou os jogadores da equipe principal com cinco mil liras italianas e os reservas receberam 2500 liras.

Registro dos jogos:

Até o momento foram realizados cinco jogos; com uma vitória, três empates e uma derrota. Foram marcados cinco golos a favor do Cruzeiro e seis golos contra, resultando um saldo negativo de um golo.

Diário de Notícias – 3.12.1953

-DIZ A IMPRENSA PENINSULAR-
“CRUZEIRO, UMA DAS MELHORES EQUIPES QUE JOGARAM NA ITÁLIA”
Roma, 3 (United)
“A imprensa esportiva desta capital tece elogiosas referências à atuação do quadro brasileiro do Cruzeiro, de Porto Alegre, que domingo último empatou com a Lazio, local. Depois de destacar a atuação dos médios Laerte e Casquinha, afirma que o Cruzeiro foi um dos melhores esquadrões sul-americanos que se exibiram até hoje na península”.

Diário de Notícias – 19.01.1954

FICARAM MARAVILHADOS COM O CRUZEIRO NA ITÁLIA

“Estiveram em visita a nossa redação, acompanhados do desportista Duarte Fascina, os viajantes comerciais italianos Antônio Frattini e Franco Ferrari, que viram o time alvi-azul porto-alegrense atuar na Itália, contra a Lazio e o Torino”.
“O Cruzeiro foi um dos melhores quadros brasileiros que vimos jogar em nosso país. Seu futebol é vistoso, elegante e altamente objetivo. Agrada sobremaneira aos olhos. Ficamos verdadeiramente maravilhados com o que o Cruzeiro nos deu a observar em matéria de futebol por ocasião de suas duas apresentações frente ao e a Lazio. Valores individuais não temos a destacar, pois que todos exibiram-se muito bem e o grande mérito deste quadro brasileiro está exatamente no trabalho de conjunto”.

O CRUZEIRO EM ISRAEL

De Roma, o Cruzeiro deixa a Europa e parte em direção à Ásia, onde o clube gaúcho deverá exibir seu futebol no Oriente Médio, mais precisamente em Israel. O Cruzeiro chegou a Tel Aviv, capital do Estado de Israel, no dia cinco de dezembro. É o primeiro clube brasileiro a se apresentar neste recém criado Estado independente.

No dia seis, o alvi-azul gaúcho realizou seu primeiro contato com bola na cidade de Ramatgan, no Estádio Municipal, próximo de Tel Aviv. Este treino foi presenciado por um grande número de aficcionados do futebol.

Se em treino já era bom, imagine no momento do jogo. Esta era a opinião geral dos espectadores. Mas, o que pensavam técnicos de clubes e a imprensa presente ao treinamento do Cruzeiro. O sr. Moshe Halevy, treinador da seleção nacional e do clube campeão local, afirmou que os jogadores que acabaram de se exercitar estavam entre os melhores que ele já tinha visto, tamanha era a movimentação dos atletas em campo e a facilidade com que dominavam a bola.

A imprensa local se encantou com o treino do Cruzeiro e destacaram os jogadores alvi-azuis, como perfeitos controladores de bola. Os preparativos para este embate internacional foram grandes, tendo o Maccabi Tel Aviv feito um seguro da partida contra o mau tempo. Nada poderia deslustrar este espetáculo.

Eis que chega o tão esperado momento. O tempo era ótimo para a prática futebolística e a expectativa dos organizadores do espetáculo foi confirmada. Grande público acorreu ao Estádio Municipal de Ramatgan, calculado em mais de 27 mil pessoas, que não se cansavam de aplaudir o esquadrão brasileiro.

O Cruzeiro iniciou a partida jogando com La Paz, valtão e Xisto; Laerte III, Casquinha e Paulistinha; Hoffmeister, Ferraz, Huguinho, Nardo e Jarico. O Maccabi Tel Aviv atuou completo e disposto a fazer boa figura perante os visitantes.

Antecedendo a disputa, houve o desfile das duas delegações e a tradicional troca de flâmulas entre os capitães das duas equipes. Após, o Ministro brasileiro, dr. José de Oliveira Baião deu o pontapé inicial. Colocada novamente à bola no centro do gramado, foi dado início a esta disputa internacional. O jogo começou com bastante rapidez, os atletas estrelados infiltraram-se na defesa adversária, bateu pânico, confusão na área israelita, surge Huguinho para marcar o primeiro golo da partida. O cronômetro ainda não havia saído do primeiro minuto. O jogo transcorreu normalmente, com a equipe cruzeirista sempre à frente, em busca de um novo golo.

As finalizações estavam deixando a desejar e o que se pôde constatar foi o contra-ataque do Maccabi, por intermédio de seu centro avante Glazer, que aos 23 minutos da primeira etapa, igualou o marcador, em jogada individual, que deixou a defesa brasileira sem ação.

Depois disso, foi só Cruzeiro no ataque. Quem brilhou foi o arqueiro da equipe local, Bendori, que realizou brilhantes defesas ao longo desta primeira fase. O goleiro cruzeirista La Paz, também foi muito aplaudido, em bela defesa realizada, quando do chute, a 16 metros, de Goldstein.
Na segunda etapa, o Cruzeiro voltou com toda a força. Atuando de forma magnífica, mas que, devido à falta de sorte de seus atacantes, não aplicou uma saudável goleada. O golo da vitória foi marcado novamente pelo atacante brasileiro Huguinho, que aos 20 min, em posição difícil e a uma distância de 16 metros, fulminou o arco guarnecido por Bendori. Durante os dez minutos finais, os macabeus atacaram, mas não conseguiram colocar a meta brasileira em perigo.

Foi jogo para ninguém botar defeito e que os israelitas só verão outro igual, talvez no próximo século. O Cruzeiro saiu desse prélio com as honras de vencedor pelo escore de dois a um, mas que poderia ter sido mais dilatado.

EM JAFFA, A SEGUNDA APRESENTAÇÃO


O Cruzeiro chegou a Israel em viagem de avião, vindo de Roma. No dia nove de dezembro jogou com o Maccabi Tel Aviv e venceu pela contagem de dois tentos a um. O público israelita não se cansou de aplaudir a equipe de Porto Alegre, durante os noventa minutos. Foi um show de bola. Nos dias 10 e 11, os agentes, que recepcionavam a delegação, levaram-nos a vários passeios históricos, sendo que o mais importante deles foi a visita a Jerusalém, cidade repleta de histórias e significado religioso.

No dia doze, o Cruzeiro realizou seu segundo compromisso, no Estado de Israel. O adversário, Maccabi Petah Tikvak era um clube considerado mais fraco que o campeão israelense e, portanto, não seria um adversário a altura, para os brasileiros. A crônica esportiva especializada, de Israel consideravam os gaúchos, franco favorito.

O jogo foi disputado na cidade de Jaffa, também próxima de Tel Aviv, como a cidade de Ramatgan. A equipe do Maccabi Petah Tikvak é o clube local da cidade Petah Tikvak, situada mais a nordeste de Tel Aviv.

O Petah Tikvak, não estava interessado em vencer a disputa, postando-se quase todos os seus jogadores na defensiva, colocando apenas um atacante mais à frente. O jogo foi realizado apenas numa metade do campo, o que proporcionou a todos assistir de perto, pelo menos 45 minutos.

A platéia composta de treze mil israelenses, aplaudia entusiasticamente quase todas as jogadas realizadas pela equipe brasileira, que demonstrava possuir alta qualidade técnica. Novamente, quem deu o pontapé inicial da contenda, foi o dr. José Oliveira Baião, Ministro do Brasil, em Israel. Após iniciada a disputa, o Cruzeiro, durante todo o jogo se manteve no ataque, mais concentrado na área do adversário, já que os avanços da equipe do Petah não passava de sua zona intermediária. Foi um bombardeio constante, durante os 90 minutos. Só para exemplificar o massacre, nos primeiros quinze minutos de jogo, o Petah, já havia cedido oito escanteios.

Quem assistia ao jogo pensava:
“-Vai ser um massacre!”
Duas bolas na trave, chutadas por Huguinho e Nardo. Hoffmeister e Huguinho desperdiçaram esplêndidas oportunidades de marcar. Devemos parabenizar a defesa do Petah, que atuou de maneira enérgica, sem usar a violência e, também, ao arqueiro israelense que praticou defesas espetaculares.

O resultado deste jogo não espelhou o que foi a partida nos seus noventa minutos. Porém, representou um prêmio à modesta equipe do Petah Tikvak, que entrou em campo para não levar golo. O resultado foi zero a zero.

Cruzeiro, “O Abre-te Sésamo”

“O E.C.Cruzeiro deu o ‘arranco’ inicial e atingiu os gramados da Velha Europa, numa iniciativa de grande significado e que para muitos não passaria de uma aventura. Contudo vem brilhando o elenco estrelado e a sua passagem pela Espanha, França, Suíça, Itália, processou-se de maneira altamente meritória e o futebol brasileiro tem sido condignamente representado”.
“Jogou seis partidas até agora o Cruzeiro, incluindo Israel, e sofreu apenas uma derrota. Resultado altamente compensador e que bem demonstra o elevado nível técnico do futebol gaúcho”.
“Muitos céticos ou derrotistas, há estas horas, devem ter mudado de opinião a respeito do nosso futebol. O Cruzeiro foi o ‘Abre-te Sésamo’, pois abriu as portas do futebol do mundo aos clubes gaúchos, mostrando que já estávamos em condições de comparecer diante de platéias mais exigentes”.
“Joga hoje a equipe estrelada sua sétima partida enfrentando o Maccabi Petah Tikvak, em Jaffa, no Estado de Israel, em pleno Oriente Médio. Lá estará esta tarde, representando o futebol brasileiro, uma equipe do Rio Grande do Sul. E já temos razões fortes para confiar no resultado desse jogo”.

Arre...piadas Olímpicas
Diário de Notícias – 11.12.1953
“Se o Cruzeiro houvesse perdido em Tel Aviv teria sido decretado feriado na Av. Osvaldo Aranha e em toda a zona do Bonfim”.

Diário de Notícias – 15.12.1953
“- O Cruzeiro, agora é o time do zero a zero
- Do zero a zero ou do lero lero?”.

Diário de Notícias – 18.12.1953
“- O G.E.Israelita, do Bonfim, telegrafou ao Cruzeiro, ontem!
- Felicitando-o?
- Não. Pedindo revanche”.

“- Sabe por que, os times brasileiros atuam bem no estrangeiro?
- Não”.
- Porque os jogadores ficam separados de suas concentrações particulares”.

Correio do Povo – 19.12.1953
REGRESSARAM SETE ELEMENTOS DA EMBAIXADA DO CRUZEIRO
Regressaram ontem da Europa, onde se encontravam, como participantes da embaixada do Esporte clube Cruzeiro, os esportistas Ivan Coelho, tesoureiro da delegação; Jorge Rolla e os jogadores Dilvo, Delto, Tesourinha II e Bolacha. Pelo mesmo avião retornou ainda a Porto Alegre o cronista Ari dos Santos, que acompanhou a embaixada alvi-azul, como representante da imprensa local.


Diário de Notícias – 19.12.1953
Arre...piadas Olímpicas
“- O futebol, na Europa, deve andar pesado!
- Por que?
- O Cruzeiro só mandou de volta jogadores tipo’meio-quilo’, com Bolacha, Dívoli, Tesourinha II”.

Telegrama

De Santa Maria, chegou à sede do Cruzeiro o seguinte telegrama:

“-No momento em que o glorioso Cruzeiro nos campos da Velha Europa honra o futebol pátrio, em nome da cidade de Santa Maria apresento cumprimentos à digna diretoria. Abraços”.
Heitor Silveira Campos, prefeito municipal.

AGORA, A FORÇA ISRAELENSE

O povo de Israel não se cansava de aplaudir o Cruzeiro, a imprensa dedicava grandes espaços em seus matutinos. Os alvi-azuis, do Rio Grande do Sul, eram as atrações a todo momento. O jogo contra a seleção nacional era esperado com ansiedade. A seleção se preparava para as eliminatórias da Copa do Mundo, quando deveriam enfrentar a Iugoslávia e a Grécia.

Através do noticiário local, não foi possível descobrir o motivo da troca de adversário, ou até mesmo, se o próximo adversário do Cruzeiro possuía grande número de jogadores na seleção nacional e por isso era encarado como a própria seleção.

Acontece, que o adversário a seguir do Cruzeiro, foi à equipe do Hapoel, esquadrão futebolístico israelense, que possui em seu quadro, vários atletas da seleção nacional de Israel.

O jogo se realizou no dia 15.12.1953, com tempo chuvoso, talvez seja este, o motivo do pouco número de espectadores desta contenda. Cinco mil pessoas assistiram ao jogo, que foi classificado como “um verdadeiro ballet futebolístico brasileiro de primeira classe”.

O resultado de cinco a zero, não refletiu completamente o domínio exercido durante os noventa minutos, pelo esquadrão do Cruzeiro. Os israelenses saíram de campo, agradecendo a Deus, por não terem levado mais golos, pois o escore do prélio, poderia ter sido mais elevado.

A principal figura do gramado foi o goleiro israelense, que pertence à seleção nacional e que teve atuação destacada, realizando defesas brilhantes e bastante difíceis.

Jogando com grande facilidade e com suas linhas funcionando com eficiência, o Cruzeiro comandou o espetáculo desde o início. A primeira etapa, deste magnífico espetáculo, terminou com a contagem de dois a zero para os brasileiros, tendo em vista, que o Hapoel ainda conseguia oferecer alguma resistência. Na segunda fase, o Cruzeiro fez mais três golos e aí começou o baile. O público israelense, não se cansava de aplaudir as jogadas dos alvi-azuis brasileiros, que realizavam um jogo penetrante, com passes rápidos e precisos, de curta distância, envolvendo os jogadores do Hapoel por completo. Foi um verdadeiro carnaval.

Registro de jogos:

Até o momento, o Cruzeiro jogou oito vezes, em cinco países, venceu três jogos, empatou quatro e foi derrotado, uma vez. Concluiu positivamente, em doze oportunidades e sofreu sete golos. Tem um saldo favorável de cinco golos.

Arre...Piadas Olímpicas

“Do noticiário da United Press a respeito da vitória do Cruzeiro sobre o selecionado de Israel:
- A partida foi classificada por muitos dos cinco mil espectadores com ‘um ballet futebolístico brasileiro de primeira classe’.
-A força de dançar aqui, os jogadores do Cruzeiro terminaram aprendendo para ensinar os outros”.

CRUZEIRO NA TURQUIA



O Cruzeiro deixou Tel Aviv, dia 17 de dezembro, às 9h30min rumando para Istambul. No aeroporto, a delegação estrelada era aguardada pelo cônsul brasileiro em Istambul, pelo sr. Charles Carnana, por muitos jornalistas e desportistas locais, que devido às notícias estampadas em jornais apontavam com destaque para o Cruzeiro.

Ao descer do avião, a surpresa, neve em grande quantidade. A cidade estava coberta de neve. Jorge Tomaz, certa vez relatou: “Foi uma farra para a rapaziada e para nós, que nunca tínhamos visto uma cidade que mais parecia um lençol, tanta neve que a cobria e caía sobre nós”.

A delegação cruzeirista ficou hospedada no Mano Palaa Hotel. Para chegar lá, após sair do aeroporto, atravessa-se o Mar de Mármara, em uma barca. O hotel situa-se do outro lado da cidade, é muito bom e agradável, pois serve de hospedaria turística na época de veraneio.

A expectativa para o primeiro jogo era enorme, tanto por parte dos desportistas locais, como por parte do Cruzeiro, pois ainda não se sabia como iriam se portar nossos atletas ao enfrentar um campo cheio de lama e neve.

O jogo inicial ocorreu no dia 19 de dezembro, contra o Besintas, campeão turco de 1953. Equipe esta que conta com muito bons jogadores.

Condições iniciais do jogo: O tempo estava muito frio; o campo lamacento e nevado, muito escorregadio. Ao iniciar a partida, os jogadores do Cruzeiro davam a impressão de patinar em campo, não conseguiam se manter firmes no campo. A equipe local, já acostumada com aquelas condições , dominavam o jogo e pressionavam o arco do Cruzeiro. Decorridos vinte e cinco minutos, num ataque do Besintas, Valtão escorregou dando oportunidade a Receps, marcar o primeiro golo dos locais.
Conforme o tempo de jogo ia passando, os atletas do Cruzeiro iam se ambientando ao terreno e passavam a reagir as investidas locais. Aos 35 min, Ferraz cobra um tiro indireto, passando a Huguinho, que num chute forte marca o golo de empate. O primeiro tempo do jogo termina com o marcador assinalando um golo para cada lado.

Na segunda etapa o Cruzeiro demonstrou que veio disposto a ganhar o jogo. Aos 25 minutos, Huguinho chutou forte, o goleiro defendeu parcialmente, permitindo a entrada de Rudimar, que chutou sem apelação e marcou o segundo golo do Cruzeiro. Tudo ia bem até os quatro minutos finais da contenda, quando o árbitro do jogo, deu o ar de sua graça. Em determinado ataque do Besintas, Valtão desarmou licitamente o atacante adversário, que invadia a área. O atacante imediatamente, jogou-se ao chão e o juiz, incontinente, para surpresa até mesmo dos espectadores locais, apitou pênalti.

Fahrenttin, ao cobrar a penalidade máxima, o fez com defeito, colocando a bola para fora. Mas, o juiz estava mesmo disposto a interferir no resultado do jogo, fazendo valer sua vontade. Mandou repetir o lance, alegando má posição do arqueiro cruzeirista. Os espectadores locais iniciaram uma vaia contra a decisão da arbitragem, mas não teve jeito. Os dirigentes cruzeiristas invadiram o campo, dispostos a retirar do gramado seus jogadores. O empresário, sr. Carnana interveio, alegando que ele seria o maior prejudicado por esta decisão. Os dirigentes cruzeiristas aceitaram as ponderações e sujeitaram-se a decisão do árbitro. Cobrada, novamente, a penalidade máxima, foi convertida. O Besintas empatou o jogo.

Esta partida, pode ser “moralmente” considerada como uma vitória, uma vez, que, até mesmo a crônica esportiva de Istambul, ao comentar o lance, foi unânime, ao afirmar que o juiz, não deveria ter repetido a cobrança. Em seus jornais estamparam manchetes de primeira página “- JUIZ TURCO ASSASSINOU O FUTEBOL DA TURQUIA”.

Correio do Povo – 18.12.1953
PROJETO AUSTRÍACO

CRUZEIRO X BOCA

RIO,17 C.P.) - “Segundo notícias que circulam aqui, os dirigentes do football austríaco, tencionam levar a efeito uma peleja de grande envergadura, reunindo dois times sul-americanos, um do Brasil e outro da Argentina, que ora visitam a Europa. Desta forma, o Boca Juniors de Buenos Aires e o Cruzeiro de Porto Alegre, seriam convidados a jogarem uma partida, em data a ser previamente marcada, para que os austríacos pudessem observar, em confronto, os associativos mais evoluídos da América do Sul. O Cruzeiro, estuda no momento, a realização desse encontro, enquanto que o Boca Juniors, já aceitou a proposta”.

Diário de Notícias -

CRUZEIRO X ARSENAL NA GRÃ-BRETANHA
E NOVO JOGO COM O REAL MADRID
“Palestrando ontem pelo telefone internacional com sua esposa que se encontra em Roma, o dr. Belmiro Terra, destacado prócer do Cruzeiro, obteve a informação sensacional de que os dirigentes alvi-azuis, ora na Europa, estão em adiantadas negociações para a realização de um jogo em Londres contra a internacionalmente famosa equipe do Arsenal. Seria essa a primeira vez que um clube brasileiro pisaria os gramados londrinos. A realização deste jogo depende apenas de ser encontrada uma data que harmonize as possibilidades do Cruzeiro. Se acertado este encontro, de Roma, o Cruzeiro voará para a Grã-Bretanha, para ali disputar o jogo mais importante de sua história”.
“Outra informação obtida pelo dr. Belmiro Terra é que, dependendo dos futuros jogos do Cruzeiro em Israel e no Egito, os alvi-azuis voltarão à Espanha para uma partida de desempate com o Real Madrid”.





NOVAMENTE O SR. JOSÉ GAMA

A excursão cruzeirista, já estava em adiantado andamento, quando, em Porto Alegre, surgiu a notícia de como o sr. José Gama havia feito a propaganda estrelada na Europa. Foi um monte de atochadas. Eram mentiras que tinham contidas em si, algumas verdades, mas, que realmente, não condiziam com a realidade. Logo, que o Cruzeiro chegou a Europa, o dr. Antônio Pinheiro Machado Netto, presidente do clube, ficou sabendo e resolveu colocar tudo em pratos limpos. Talvez, fosse este, o motivo do cancelamento do jogo de estréia contra o Real Clube Desportivo Espanhol, em Barcelona.

O Pinheirinho resolveu assumir o controle das negociações, pois não admitia a mentira, nem como forma de marketing, muito menos como propaganda enganosa. A seguir, o que foi veiculado, em Porto Alegre, sobre o episódio.

Diário de Notícias –

Arre...piadas Olímpicas

“- E há gente que não acreditava que o Cruzeiro era tão importante!
- Ganhou outra partida?
- Então você não leu? Segundo publicaram os jornais da Europa, o Cruzeiro empatou com o Corinthians, venceu o Penharol, o São Paulo, o Nacional de Montevidéu, e perdeu por um a zero para o Vasco e para o Independiente. La Paz é o campeão do mundo!”

DE FORA DA ÁREA

TEMPO DE GUERRA
Pê TARDO

“Querem ver que ótimo empresário arrumou o Cruzeiro? Leiam só o ‘cartaz’ que ele arrumou para o clube alvi-azul, lá na Europa:”
“- Trata-se de um esquadrão dos mais destacados do campeonato do sul do Brasil. Na grande república sul-americana realizam-se importantes torneios futebolísticos, como o campeonato carioca, o campeonato paulista, aquele da região Norte e este da região Sul. O Cruzeiro, de Porto Alegre, é um dos primeiros classificados no campeonato de sua zona. Entre suas atuações mais destacadas, recentemente, estão o empate com o Corinthians por dois a dois, em São Paulo; sua vitória por um a zero sobre o Penharol, de Montevidéu; por um a zero sobre o São Paulo, em São Paulo e por um a zero sobre o Nacional de Montevidéu, também, para não mencionar o empate de dois a dois com o Palmeiras. O Cruzeiro foi vencido por um a zero em seu campo, pelo Vasco da Gama e em Buenos Aires, por um a zero, pelo Independiente. Em seu quadro militam três jogadores internacionais e outros seis que fazem parte da seleção representativa da zona sul do país. É a seguinte a escalação do quadro: Deoli (La Paz), Machado (Rui) e Laerte; Casquinha, Aloísio e Huguinho; Hoffmeister, Ferraz, Nardo, Jarico e Tesourinha. Este último e La Paz são jogadores uruguaios. Recorda-se que La Paz foi o arqueiro do esquadrão uruguaio, que conquistou no Rio, o Campeonato do Mundo. As cores são o azul e branco.Seu técnico é o senhor Osvaldo Rolla”.
“- Convenhamos, que em matéria de ‘atochada’, o seu Gama, pôs todo o mundo no bolo, pois embora a gente saiba que todos os empresários exageram muito as virtudes dos clubes que pretendem apresentar, não me recordo de ninguém que tenha conseguido elevar tanto um time como esse batuta. O diabo é que a própria direção do Cruzeiro achou ruim e se encarregou de desmentis o ‘atochador’, deixando-o em maus lençóis frente a turma de Barcelona”.

Diário de Notícias

DE FORA DA ÁREA
Pê TARDO

E BRILHAM AS ESTRELAS

“Era minha intenção esperar que o Cruzeiro terminasse a série de jogos que programou para o Velho Mundo para, então, escrever algo sobre suas atuações. Tão bonita, tão regular e tão honrosa tem sido sua campanha fora do país e tais as exibições que vem realizando que, não tenho dúvidas de que, dure o quanto durar sua excursão, e sejam quais forem os seus adversários que ainda tiver pela frente, tudo continuará como até aqui, Assim, não hesito em me abrir que nem gaita velha para o clube da ‘Montanha’, aproveitando, ao mesmo tempo, o ensejo para dar uma ‘baixadinha’ de leve naqueles que acharam ruim quando souberam estarem os estrelados de malas prontas para viajar rumo à Europa. Essa turma deve andar hoje com a cara no chão, porque o que o Cruzeiro vem fazendo muito pouca gente boa já fez e, agora, até mesmo os mais pessimistas quanto às possibilidades dos alvi-azuis mostrarem-se entusiasmados e são os primeiros a reconhecer que o Cruzeiro tem sabido honrar não só o nosso bom nome desportivo, como nossas próprias tradições de povo civilizado e cavalheiresco, pois sua embaixada só tem revelado ótima educação e feito alarde de qualidades pouco comuns. Seus jogadores vem arrancando manifestações entusiásticas da crônica especializada dos países visitados, desde que exibem um futebol digno do alto conceito que goza o nosso ‘soccer’ em todo o mundo. O público europeu tem aclamado os craques brasileiros em todas as suas apresentações enquanto que as autoridades diplomáticas de nossa pátria só lhes tem dispensado referências elogiosas, pela disciplina, cavalheirismo e ardor com que se lançam à luta, no afã de enobrecer nossa terra e levantar bem alto o nosso pavilhão”.

“Portanto, mais brilhante não poderia ser o papel que o Cruzeiro vem desempenhando, e sejam quais forem os resultados das partidas que ainda terá que disputar, nós, como desportistas e, sobretudo como brasileiros e rio-grandenses, só poderemos nos sentir orgulhosos de sua ação, fazendo ardentes votos para que as estrelas da gloriosa bandeira alvi-azul continuem a brilhar, felicitando aqueles rapazes que tão dignamente tem sabido elevar o nome do Brasil e do nosso futebol entre os povos da Europa e Oriente Médio”.

AGORA, É A SELEÇÃO TURCA

Um dia após a estréia na Turquia, estava marcada a segunda apresentação cruzeirista, desta feita contra o selecionado turco. A direção estrelada tentou, ao contatar os promotores do espetáculo, a transferência deste encontro para outra ocasião, pois o campo não tinha condição de jogo, tendo em vista o mau tempo e o péssimo estado do gramado. Nada conseguiu, e em menos de vinte e quatro horas após, lá estava a valente equipe alvi-azul gaúcha, para, novamente representar o futebol brasileiro.

O jogo era uma verdadeira aventura. Muito perigosa.A Seleção da Turquia se preparava para disputar as eliminatórias da Copa do Mundo. O Cruzeiro deveria enfrentar tudo isso, além do desgaste ocasionado pelo jogo anterior. Por isso, não era esperado, por parte dos gaúchos, um resultado muito promissor.

As previsões se confirmaram, o Cruzeiro não conseguia se armar em campo, seus atletas patinavam, escorregavam. Logo nos primeiros minutos do jogo, os locais já haviam conseguido uma vantagem de dois a zero. A primeira etapa terminaria com a vitória parcial da Seleção Turca.

Na etapa complementar, aos dez minutos, Huguinho marcava o golo de honra da equipe da Montanha. O jogo estava por terminar, quando os turcos conseguiram dar cifras definitivas ao marcador, assinalando seu terceiro golo.

Mesmo com o resultado final, de Seleção da Turquia três, Cruzeiro um, a torcida local reconheceu o valor da equipe brasileira, aplaudindo-os, demoradamente, a saída do gramado. Neste embate, que pôde ter sido tudo, menos ser chamado de futebol, o Cruzeiro formou com: Amauri, Xisto e Valtão; Laerte, Léo e Paulistinha; Ferraz, Rudimar, Nardo, Huguinho e Jarico.

Registro de jogos

O Cruzeiro, até então, jogou dez vezes, venceu três, empatou cinco e foi derrotado duas vezes.
Os atacantes cruzeiristas concluíram com perfeição quinze vezes e a defesa foi vazada por doze vezes. Resultando um saldo positivo de três golos.

Diário de Notícias (20.12.1953)

O FOCA

“Na Turquia os quadros tem 22 jogadores”
“ISTAMBUL, 19 (De Japonês, nosso enteado especial)” – “Chegamos a esta cidade, acompanhando a delegação do Esporte Clube Cr$. Ficamos surpresos ao saber que os times locais dão ‘entrada’ em campo com 22 jogadores dos quais 11 jogam e os demais cuidam para que os companheiros não vendam a bola a ‘crédito’. Para árbitro do nosso primeiro encontro foi escolhido o sr. Salim Silato de Sódio, que será o ‘fiador’ da normalidade do prélio. O primeiro ‘compromisso’ do Cr$ será atendido em duas ‘prestações’ de 45 minutos, cada uma”.

MENSAGEM DE NATAL DO CRUZEIRO


Os associados e simpatizantes do Cruzeiro enchem-se de satisfação com a brilhante campanha que o onze estrelado vem desenvolvendo nas canchas da velha Europa e da lendária Ásia.

A extraordinária performance dos craques estrelados, em oito jogos, obtendo três vitórias, quatro empates e um único revés. É de molde a entusiasmar a todos os nossos esportistas, que acompanham carinhosamente a marcha do simpático clube da Colina Melancólica.

Por este motivo e como o Cruzeiro passará o Natal e o Ano Novo na longínqua Áustria, foi endereçada à missão estrelada um surpreendente e delicado presente de festas.

Assim, foi confeccionado um disco, com três gravações especiais: a saudação oficial do clube, na palavra do 1o vice-presidente em exercício, dr. Pedro Pacheco de Souza; outra, do antigo cruzeirista Augusto Perez, em nome da tradicional “torcida dos 18”; e a do esportista Walmir Pinheiro Machado, irmão do presidente cruzeirista, em nome de toda a família, saudando o Cruzeiro e incentivando seus jogadores a nova messe de triunfos.

Por último, foi gravada uma linda canção, em que se ouve som piangente dos sinos de Natal, envolta com a voz dolente de uma das nossas cantoras, entoando uma verdadeira mensagem de paz e de fraternidade.

Esse é o presente de festas que a família cruzeirista já enviou, via-aérea, aos craques estrelados, que brilhantemente estão defendendo, frente aos mais poderosos esquadrões do Velho Mundo, o prestígio e o valor do futebol gaúcho e brasileiro.

CONTRA O FENERBACH


Um frio intenso marcava a terceira apresentação do alvi-azul gaúcho, em gramados da Turquia. Desta vez, o adversário era o Fenerbach, campeão turco, cujo nome, traduzido para o português, significa Lanterna de Quintal. Em seu estádio, com o gramado pesado e lamacento, dificultando a mobilidade dos atletas cruzeiristas, teve início esta disputa, no dia vinte oito de dezembro. Já quase ao apagar das luzes do ano de 1953.

Na primeira etapa, mesmo lutando com grande dificuldade, a equipe cruzeirista dominou as ações e chegou a estar vencendo por dois a um. Além do adversário, havia o juiz e o campo escorregadio para atrapalhar as ações estreladas.

Na etapa complementar, após os vinte minutos o cruzeiro cansou, demonstrava claramente o esgotamento físico, dando chance aos locais de dominar as ações, envolvendo os brasileiros e se transformando nos senhores do terreno. Nos vinte cinco minutos finais, o Fenerbach conseguiu marcar quatro golos, fechando o marcador em cinco a dois.

Amauri, goleiro do Cruzeiro, lesionou-se, na segunda etapa deste prélio, sendo substituído por La Paz, que mesmo tendo levado quatro golos, foi apontado como destaque do jogo, juntamente com Valtão, Casquinha, Hoffmeister, Ferraz e Huguinho.

O Cruzeiro, neste jogo, contou com: Amauri (La Paz), Xisto e Valtão; Laerte, Casquinha e Paulistinha; Hoffmeister, Ferraz, Nardo, Huguinho e Jarico.

Há uma história contada com freqüência. Devido ao frio intenso, o Abraão mantinha uma térmica com infusão de ervas. Era um chá quente, para combater o frio. Os atletas, no banco de reservas estavam sempre solicitando um gole ao Abraão. O chá passava de mão em mão. Era a salvação para o gelo a que estavam expostos.

Foguinho, a certa altura, desconfiado de alguma coisa, perguntou ao Abraão:
-“Seu Abraão, o que os jogadores estão tomando?”
O Abraão , envergonhado, confessou ao treinador, que o que ele dava aos atletas era uma mistura de chá e um conhaque bem forte, na proporção de 50%.

CRUZEIRO NA TURQUIA

O CRUZEIRO SAIU DE CAMPO APLAUDIDO

Novamente em campo, a 30.12.1953, ante véspera de um novo ano, longe de sua terra natal e, também, longe de seu estádio, situado na Avenida Natal, o Cruzeiro enfrentou a equipe do Galatassaray, que ocupava a terceira colocação no certame turco.

A primeira etapa do prélio, acabou empatada em um tento para cada lado. Huguinho aos 17 minutos com um belíssimo golo, colocou o Cruzeiro em vantagem no marcador. Aos 20 minutos, Reha, comandante de ataque turco, com um golo de cabeça, empatou o jogo.

Na Segunda etapa, aos 18 minutos, Huguinho, colocou o Cruzeiro, novamente, em vantagem, ao assinalar o segundo golo dos brasileiros. A vantagem, não demorou muito. Aos 19 minutos, Reha, novamente, igualou o escore da partida. Aos 30 minutos, Ferraz marcou o terceiro golo do alvi-azul gaúcho, nesta partida, que o Cruzeiro foi obrigado a abandonar o campo, por discordar da atuação do juiz.

A Turquia, nesta época, padecia de um problema crônico em relação as arbitragens. Chegaram a contratar um juiz italiano para apitar um de seus clássicos, no campeonato, devido as péssimas arbitragens dos juízes locais.

Este jogo, como não poderia deixar de ser, o juiz deu o ar da graça.Decorriam quarenta minutos da etapa final, quando um zagueiro do Galatassaray atingiu Jarico, que se contundiu e foi retirado de campo. O mesmo jogador, tentou agredir Paulistinha, mas se deu mal e acabou caindo na lama. O juiz, incontinente, expulsou Paulistinha e deixou o zagueiro turco, faltoso, em campo. Inconformados com a situação, a chefia da delegação, autorizou a que o capitão da equipe estrelada retirasse o time de campo. Fato corrido sob os aplausos da assistência.
A direção do Cruzeiro exigiu a substituição do juiz, mas, infelizmente não foram atendidos. Por isso, abandonaram o estádio. Os jornalistas presentes declararam, que a atitude do Cruzeiro foi a mais acertada possível, devido a desastrada atuação do apitador da partida. Não havia outro caminho a seguir.

Nesta dramática vitória, o Cruzeiro defendeu suas cores, com: La Paz (Amauri), Valtão e Paulistinha; Laerte, Casquinha e Léo; Ferraz, Rudimar (Hoffmeister), Huguinho, Nardo e Jarico.Rudimar lesionou-se e foi carregado nos braços, por seus companheiros de equipe, pois não podia andar. Foi substituído por Hoffmeister. Os melhores jogadores do Cruzeiro foram: Valtão, Laerte, Paulistinha, Hoffmeister, Ferraz e Huguinho.

O CRUZEIRO E A SELEÇÃO GAÚCHA


Era dezembro, o Cruzeiro estava na Europa, havia solicitado e recebido à permissão da Federação Rio-Grandense de Futebol para realizar a excursão. Precisava de seus atletas para cumprir seus compromissos. Mas nem tudo estava acertado. Teté, técnico do Internacional, escolhido para treinar a seleção gaúcha, deixou antever que, alguns atletas do Cruzeiro, necessariamente deveriam ser convocados. Ora, os atletas da seleção deveriam se apresentar ao técnico dia dois de janeiro, mas todos sabiam que até esta data, o Cruzeiro estaria na Europa. O Clube da Montanha só regressaria a Porto Alegre no final do mês.

Este cenário armado, obrigaria a que os atletas selecionados, tivessem de retornar com antecedência, prejudicando o clube que excursionava. Estavam, nesta situação, Cruzeiro, na Europa e Ásia, o Grêmio, que estava no México e o Renner, que realizava uma excursão vitoriosa pelo Norte e Nordeste do Brasil. Os atletas selecionados, eram os melhores de suas agremiações, isto por certo, traria aos clubes excursionistas, muitos prejuízos.

Havia, na licença, uma cláusula que determinava que “todo atleta selecionado pelo técnico, não estando na capital, deveria retornar, esteja onde estiver”. Os clubes excursionistas necessitavam de tranqüilidade e não de pressão externa que os prejudicassem.

Havia, também, a questão do bom senso. Só convocar atletas que pudessem estar liberados na data de apresentação.Muita água rolou neste rio, até que o bom senso tomasse conta das cabeças dirigentes do nosso futebol. A novela, finalmente, teve um final feliz, quando Teté resolveu que não iria convocar os jogadores do Cruzeiro nem do Renner. O Grêmio, já deveria estar de volta, na data da apresentação. Assim, Laerte III, Xisto, Casquinha e outros, não teriam com que se preocupar, podendo jogar em paz em seus clubes.

Diário de Notícias – 7.01.1954

Arre...piadas Olímpicas

“- Por falar em jogadores alvi-azuis, eles são arames ou moirão?
- Não, porque?
- É que o Teté (técnico da Seleção Gaúcha) quer trazê-los para a ‘cerca’!”.

O CRUZEIRO DE VOLTA À ESPANHA


As informações recebidas em Porto Alegre, no início de janeiro de 1954, deixavam antever que o Cruzeiro saíra de Istambul e rumava para a Espanha, fazendo escala em Roma. As informações diziam que havia dois jogos para os alvi-azuis gaúchos antes de retornar aos pagos. Especulava-se, que os dois jogos seriam , em Santander, no dia 3, contra a equipe local do Santander e, no dia 6 em Valladolid contra a equipe local.

Surge, porém, de Madri, via Associated Press, a notícia de que a próxima apresentação estrelada na Espanha, seria dia 6 de janeiro, em Barcelona, capital da Catalunha, contra o R.C.D.Espanhol. O mesmo adversário que deveria enfrentar o Cruzeiro no início da excursão gaúcha pela Europa.

Barcelona é uma cidade que dispõe de duas equipes categorizadas. Uma é o próprio Barcelona, clube que retirou da cidade a sua denominação e o outro é o R.C.D.Espanhol, um dos mais importantes conjuntos ibéricos.

O jogo, programado para a tarde do dia 6 de janeiro, do ano de 1954 estava carregado de expectativas, por parte dos espanhóis. O Cruzeiro vinha de uma série de jogos de alto nível e com bons resultados. Esperava-se um jogão de bola. E o Cruzeiro não decepcionou.

A formação das duas equipes foi a seguinte: o Desportivo Espanhol contou com: Somer, Arjiles e Faura; Casami, Tjana e Bolinches; Marchet, Prieto, Mauri, Pequin e Ramirez.
O Cruzeiro formou com: La Paz, Xisto e Valtão; Rui, Casquinha e Laerte; Ferraz, Rudimar, Huguinho, Nardo e Jarico.

Vinte mil pessoas lotaram o Estádio Sarriá, de propriedade do Desportivo Espanhol, local onde a seleção brasileira foi derrotada, na Copa da Espanha, pela seleção italiana, no ano de 1982.

A primeira fase da contenda, começou com um melhor trabalho da equipe alvi-azul gaúcha, que dominava as ações, mas não conseguia traduzir em golos este predomínio. Aos 12 minutos, Nardo recebeu a bola de Casquinha, invadiu a área espanhola e foi derrubado por Faura. Penalidade máxima, que foi convertida por Laerte III, deixando o Cruzeiro à frente do marcador. Vantagem que durou até os 23 minutos, quando Ramirez escapou pela esquerda e passou a Mauri, que deu alguns passos e fuzilou para as redes, empatando a contenda. O primeiro tempo terminaria com o predomínio cruzeirista das ações, mas com o marcador empatado em um a um.

Na segunda fase, o Espanhol modificou sua equipe e aos dois minutos, Huguinho, depois de receber um passe primoroso, arremessou a gol, marcando o segundo tento dos brasileiros. Poucos minutos depois, Huguinho coloca Ferraz em condições de marcar o terceiro golo do Cruzeiro. Aos 12 minutos, Huguinho, em brilhante jogada individual, assinalou o quarto golo dos gaúchos.

Os locais, tentaram em várias oportunidades, mas a defensiva estrelada estava firme e impedia que os espanhóis obtivessem sucesso. Porém, aos 23 minutos, Paseiro, que havia recebido um passe de Pequin, fuzilou a meta brasileira e marcou o segundo golo do Espanhol.

O Cruzeiro deu aula de futebol, na terra onde só havia professores. Deitou cátedra. Já quase no final do espetáculo, o árbitro marcou uma penalidade máxima a favor do alvi-azul brasileiro. Seria o quinto golo. Jarico bateu e Somer desviou espetacularmente, salvando a meta do Desportivo Espanhol. Somer, arqueiro ibérico, mesmo tendo sido batido em quatro oportunidades, ainda saiu de campo como um dos destaques do jogo. Laerte, Huguinho e Nardo foram os destaques cruzeiristas, neste jogo tão emocionante, com lances brilhantes e uma perfeita atuação brasileira, que os espanhóis tiveram oportunidade de apreciar e pedir bis.



Diário de Notícias – 7.01.1954

Arre...piadas Olímpicas

“Mauri foi um dos grandes jogadores do Espanhol, na tarde de ontem contra o Cruzeiro. Mal passavam-lhe a bola e já o golo estava feito...
-Que coisa incrível! Como pode ser isto?
-Ora, passando a Mauri, a bola já estava em caminho do golo, pois AMAURI é o goleiro do Cruzeiro”.

A REVANCHE


Uma aula só, foi pouco para os espanhóis. Solicitaram a possibilidade de nova disputa, uma chance de reabilitação. Afinal, os espanhóis eram os professores de futebol. Precisavam aprender a nova técnica. O Cruzeiro não se negou. Novo jogo foi marcado, para o dia 14, na mesma cidade de Barcelona e no mesmo estádio Sarriá, que, neste embate abrigou 30 mil espectadores.

Havia muita confiança, por parte dos cruzeiristas e da legião de admiradores conseguida junto aos ibéricos. Durante o jogo, os brasileiros, com rápidos deslocamentos e bom controle de bola, dominaram as ações. O primeiro tempo finalizou com a vitória parcial dos estrelados pela contagem de um a zero. O golo foi consignado por Huguinho, aos 44 minutos, após iludir os zagueiros e chutar forte para as redes. A beleza do lance, levou os torcedores a aplaudir fortemente a jogada.

Na segunda etapa, o Cruzeiro continuou melhor ainda, impressionando os espanhóis pelo jogo vistoso e harmônico que desenvolvia. Aos sete minutos Ferraz assinalou o segundo golo do estrelado gaúcho. Os locais fizeram várias alterações em sua equipe, mas os brasileiros continuavam melhor. Aos 22 minutos, Ferraz foi substituído por Hoffmeister, que em determinado momento sofreu uma falta, ficou ao solo sentindo dores. Como o médico brasileiro estava longe do lance, rapidamente, o médico do Desportivo Espanhol foi atendê-lo. Ouve-se então, o seguinte diálogo:

O médico, “- Su apellido?”
O jogador lesionado, responde “- Rubens”.
O médico “- traumatismo?”
O craque “- Não senhor, Hoffmeister”.

Mesmo jogando melhor e dominando territorialmente as ações, foi o Desportivo Espanhol quem conseguiu movimentar o marcador pela última vez. Aos 44 minutos, já com vitória cruzeirista assegurada, David, meia – esquerda, que havia entrado no segundo tempo, em substituição a Pequin, avançou rumo ao arco guarnecido por La Paz, serviu a Perez, que rapidamente entregou a Ramirez, que chutou forte e a curta distância, para marcar o único golo do Desportivo Espanhol.

Os destaques cruzeiristas deste jogo foram: Huguinho, Jarico e Casquinha. Scopelli, cognominado “El Maestro” e técnico do Desportivo Espanhol elogiou o Cruzeiro, dizendo-o ótimo praticante de futebol e uma das equipes mais limpas que conheceu. É uma ótima referência.

Nesta excursão, o Cruzeiro realizou três jogos na Espanha, empatou o primeiro e venceu os outros dois. Marcou seis golos e sofreu três.

Correio do Povo -

“El Maestro” Scopelli, da Espanha:

“CRUZEIRO, PRATICANTE DE ÓTIMO FUTEBOL
E DAS QUIPES MAIS LIMPAS QUE CONHECI”

“Scopeli foi um grande jogador argentino, no passado. Comandou uma das ofensivas mais famosas do futebol portenho em todos os tempos. Aquela do Independiente, de Ravaschino, Scopelli, Scoane e Orsi. Depois, já veterano, militou no futebol francês, onde até hoje é lembrado como o grande mestre que se projetou em dois Continentes. Atualmente, além de cronista abalizado, que faz de correspondente de vários órgãos argentinos no Velho Mundo, é treinador do Espanhol de Barcelona, o último adversário do Cruzeiro e a quem o clube gaúcho abateu pelo convincente escore de 4 x 2. Scopelli escreveu a Abelard Noronha, de quem é velho amigo, comentando a atuação do Cruzeiro frente à equipe que dirige. Elogiou fartamente o tean treinado por Foguinho, e este pessoalmente. ‘Uma equipe de magnífica movimentação e ótimo futebol, que ganhou da que dirijo com sobra de jogo. Além de tudo, uma das mais limpas para jogar que tenho visto’. Termina dando parabéns a Abelard Noronha pela apresentação brilhante do Cruzeiro e manifestando o desejo de que o intercâmbio do futebol europeu com o do extremo sul do Brasil não fique nessa primeira iniciativa, o que – diz - seria prejudicial às duas partes: aos europeus, porque perderiam bons espetáculos; aos brasileiros, porque se privariam de um contato tão necessário ao amadurecimento do seu magnífico association”.



DE FORA DA ÁREA
DE DEZOITO À DEZOITO MIL
Pê TARDO


Entrando para o rol dos meus correspondentes, Evaldo Quadrado acaba de me enviar o seguinte trabalho:
“- Há precisamente um ano passei a sentir que o E. C. Cruzeiro, trilhando uma linha de conduta que até então não chegara a percorrer, encaminha-se para tomar a posição e assento no lugar que realmente merece”.
“Conduzido por um moço de qualidades incontestáveis, das quais saliento a estupenda capacidade de trabalho, a iniciativa corajosa mas ponderada e uma sábia organização em tudo aquilo que diz respeito aos interesses do Cruzeiro, pôde nossa agremiação contar com um técnico capaz e um punhado de jogadores jovens, sem medalhas, muito dos quais refugados por grêmios coirmãos, que, unidos como irmãos, acabam de elevar bem alto o nome do E.C. Cruzeiro, do futebol gaúcho e do nacional em todo o mundo”.
“Por tudo isso, eu que já havia perdido as esperanças e me dispunha a ingressar na campanha desmoralizadora dos derrotistas, senti, como dizia no início, há um ano, a necessidadede vir ao encontro daqueles que tão bem administram atualmente o Cruzeiro, para oferecer os meus humildes préstimos, colaborar dentro das minhas possibilidades a, antes de mais nada, tão somente dizer-lhes:”
“Senhores dirigentes! Continuai nessa trilha que novos louros ide colher!”
“E assim o fiz”.
“E assim o fazendo encontrei, não muita gente, mas um punhado de bravos, heróis anônimos e, ao que foi informado, alguma gente nova, que, como eu, antes não se interessava nem em visitar a sede!”
“O ambiente – preparativo da recepção ao Cruzeiro, depois dessa estupenda campanha Europa e Ásia - era de intensa alegria e inusitado entusiasmo”.
“E, dentro desse ambiente, senti que a continuação da atual elevação moral do clube depende, exclusivamente, de nós outros. E, assim pensando tomo a liberdade de dirigir-me aos cruzeiristas para lembrar-lhes que nós não somos ‘DEZOITO’! Nós somos milhares que em face de campanhas medíocres de algum tempo até esta nova era, ficamos com os corações empedernidos e apáticos, mas que, tenho a certeza, atualmente – embora não se mostrem ao público – fremem de alegria e dizem de si para si”:
“Continuai Cruzeiro nesta trilha que novos louros colherás”.
“Aqui está o meu apelo”.
“Permiti que os acorde e os sacuda dessa inércia, para solicitar que façais como eu fiz. Ide a nossa sede e, se não puderdes colaborar, felicitai os que lá trabalham para nós e, então, vereis como eu vi e senti, o quanto és bem recebido e o quanto vale a tua presença !”
“Por fim, não aguardes notícias do nosso clube. Procure-as em nossa sede”.
“Presentemente, estamos bem adiantados nesta caminhada que deve ter sido árdua mas confortadora pelas conquistas obtidas!”
“Se o apelo deste cruzeirista formar eco, o futuro bem próximo será de maiores resultados do que aqueles até aqui colhidos. Em caso contrário, novas tristezas voltarão obscurecer nossos corações!”
“Portanto, sigam-me cruzeiristas”.


CRUZEIRISTA !

No dia em que regressa da Europa e Ásia o valoroso esquadrão alvi-azul, os cruzeiristas da velha guarda irmanados com os novos, como numa grande e unida família, estarão aguardando, ansiosos, o momento de prestar aos denodados atletas e dirigentes, as homenagens de que são merecedores!
Assim, pois, a Comissão de Honra, que assina a presente conclamação, convida a todos os cruzeiristas e esportistas em geral para comparecer ao desembarque da Delegação, tomando parte nos demais festejos.
(assinados).

COMISÃO DE HONRA

Dr. Ernesto Di Prímio Beck, Dr. Aníbal Di Prímio Beck, Dr. Belmiro Terra, Dr. Ricardo Jafet, Dr. Ernani Coelho, Dr. Oscar Fontoura, Dr. Celestino Prunes, Dr. Ernesto Lassance, Dr.Miguel Moreira, Dr. Heitor Moreira, Dr. Victor Graeff, Dr. Mário Graeff, Dr. Victor Rodrigues, Dr. Nelson Renck, Dr. Januário Franco, Dr. Cel. Aramí Silva, Guilherme Melecchi, Henrique Aveline, Henrique Bertaso, Cel. João Macedo Linhares, Cel. Olyntho França, dr. Leocádio Antunes, Dr. Octávio Abreu, Cícero Soares, Homero Soares, Oscar Paixão, Eduardo Paixão, Dr.Telêmaco Pires, Dr. Ernesto Marques da Rocha, Dr. Balbino Marques da Rocha, Dr. Ernesto Mariat, Paulo Mariat, Dr. José Antônio Aranha, Dr. Odalgiro Corrêa, Ary Vinhas, Dr. Armando Temperani Pereira, Deoclécio Cruz, Dr. Zopiro Ourique, Cel.Joaquim Amaro da Silveira, Gen. Fernando Besouchet, Dr. Bernardo Geisel, Dr. Daly Barbosa, Dr. Hieron Ribeiro, Dr. Emílio Bührer, Dr. Ruy C. Bastian, Dr. João C. Bastos, Rubens Ramos, Luiz Miranda, Dep. Flávio Menna Barreto Matos, Pedro Paulo da Rocha, Adalberto Duval Barreto, Ary Mariante, Leopoldo Freire Pinto, Antônio da Cunha Pinto, João Severo Recena, Dr. Glacy Pinheiro Machado, Dr. Pedro Pacheco de Souza, Flávio Cunha da Silva, dr. Roberto Cunha Beck, dr. Amilcar Sirangelo, Ivan Macedo Coelho, Antônio Soares, Liomar Formiga, Cap. Paulo S. Chagas, Dr. Oscar Machado, Cel. Afonso Mesquita, Espir Rivaldo, Amaro Júnior, Mendes Ribeiro, Amilcar Silveira, Dr. Ernesto Corrêa, Darcy Bittencourt, Dr. Mário de Lima Beck, Fernando Rosa, Francisco Caldas, Dr. Edmundo Gomes, Dr. João Hemman, Otávio Souto de Oliveira, Luiz Firpo Pinto, Bolivar Masserachimidt, Dr.Dulphe Pinheiro Machado Filho, José Scliar, Celso Albert, Felipe Janselme Filho, Luiz M. Ferraz, Dr. Américo Cidade Júnior, Eduardo Faccin, Dr. Renato Motta, Domingos Stoduto, Dario Capelli, Dr. Darcy Furtado, Miguel Lardiez, Joaquim Sotér, Cândido Borba, Rafael Menna Barreto, Ney Galvão, Carlos Moreira, Joubert M. Giaccobi, Justino Mércio, Ubirajara Galvão Paiva, Osório Magalhães, Dr. Roberto Medaglia Marroni, Adolfo Di Lorenzi, dr. Juliano Filho, Waldemar Sandler, Hercio Carvalho, Wilson Melecchi, Emílio S. Filho, Hermogenes Lopes, José Maria D’Avila, Dr. Luiz Comin, Wandencoch Vanzelotti, Anchieta Barbosa, Mário Borda, Dr. Raul Moreira, Pedro Cauduro, Caleb Leal Marques, Hendenburg Lima e Silva, Augusto Peres, Luiz G. Martins, Francisco Nascimento, Alício Thomaz, José Henrique Dias, Pery Coelho, Dr. Herbert Janssen, Egydio Lopes Reis,Renaux Düring, Luiz costa,

Roberto Rohnelt, Liomar Rodrigues, Henrique Dias, Orlando Barbeitos de Vasconcellos, Fernando Botelho, Manoel Sanchez, Alexandre José da Silva, José Barbosa, Delegado Bonorino, Ney Barreto Vianna, Ary dos Santos, Helio Assis, Suano Gomes, Balduino Barreto Franzen, Francisco de Deus Pereira Filho, Ibanez Souza, Ney Machado, Dr. Edmundo Gomes, Seaber Martins, Dr. João Hemann, Flodoardo Oliveira Costa, Victor Ribeiro Neves, Ruy Moreno, Ramão Clesca, Isidro Clesca, Antônio Amaro da Silveira, Zupiro Marques, Adolfo Mayer, Dr. Marne Domeghi, Paulo Raymond Luís, Eraclides Cezimbra, João Cezimbra, Thedy Rodrigues, Cid Carneiro da Cunha, Trogílio Souto de Oliveira, Oscar Hetne, Miguel Kalil, Natálio Haemann, Henrique Haemann, Dr. Rubens Menna Barreto Costa, Samuel Retmann, Ernesto Pinto Vieira, Prof. Dr. Otelo Laurent, Prof. Azambuja, Ciro Gavião, Fausto Sant’Anna, Heraldo Araújo, Octávio Barreto Rosa, Carlos Barreto Rosa, Arthur do Canto Júnior, Marcelino Silva, C. Conti, Ernani B. de Oliveira, Alfredo B. de Oliveira, Ernesto B. de Oliveira, Alfredo Avelino, Dr. Paulo Sartori, Alceu Linhares, Walther Franzen, Gen.Osmar Plaisant, Avelino Freitas, Plínio de Assis Hessel, Emílio Salatino, Vicente Zunino, Elias Livschtz, Sexto Rosa, Carlos Eugênio Di Prímio, Artur Visintainer, Dr. Manoel Soares, Carlos S. de Castro, Tenente Heitor Campos, Gregório Macedo Coelho, Dr. Guilherme de Almeida, José Rossari, Dr. Roberto Menna Barreto Mattos, Roberto Besouchet, Cap. João Carlos Besouchet, Dr. Curcio Juchem, Leomar Fernandes da Silva.



PREPARANDO O REGRESSO

Em Porto Alegre, a direção e torcida estrelada, preparavam-se para a recepção que deveria ser feita a delegação cruzeirista , que voltava de brilhante gira pela Europa e Ásia. O trabalho era intenso, tudo deveria estar correto e o programa, a altura do feito estrelado no Velho Mundo. Para tanto, foram organizadas várias comissões, que se encarregariam de sua elaboração.



COMISSÃO DE RECEPÇÃO GERAL:
A cargo dos srs. drs. João Carlos Bastian, Pedro Pacheco de Souza, Ernesto Di Prímio Beck e Aníbal Di Prímio Beck, respectivamente, Presidente do Conselho Deliberativo, Vice-Presidente em exercício e Patronos. Superintendentes: Henrique Aveline e Ivan Coelho.
COMISSÃO DE FINANÇAS:
Dr. Evaldo Quadrado, Joaquim Soter, Felipe Janselme Filho, Antônio Pinto, Ruy Moreno, João Barreto, Domingos Stoduto, Homero Soares, Dario Capelli, dr. Renato Motta, Luiz Martins, Adolfo Hamer e Leopoldo Freire Pinto.

COMISSÃO DE RECUPERAÇÃO:
Dr. Glacy Pinheiro Machado, Roberto Di Prímio Beck, dr. Hieron Ribeiro, Celso Albert, Luiz Firmo, Luiz M. Ferraz, Gastão Cerqueira, Hercio Vargas de Carvalho, Miguel Lardies, João Severo Recena, dr. Leocádio Antunes, bem como todos os membros do Conselho Deliberativo.

COMISSÃO ESPECIAL:
Para receber a embaixada no Rio de Janeiro: dr. Ernesto Di Prímio Beck e dr. Belmiro Terra.



COMISSÃO DE TRANSPORTE E PERCURSO:
Bolivar Messerachmidt, Waldemar Sandler, Francisco Nascimento, Alício Thomaz, José Henrique Dias, Petry Coelho, Fernando Botelho, Orlando Barbeitos de Vasconcellos, Manoel Sanchez, Herbert Jansen, Alexandre José da Silva e José Barbosa.

COMISSÃO DE PROPAGANDA:
1- Junto as Rádios e Jornais: Cicero Soares, Luiz Miranda, Amilcar Silveira, Renaux Düring, Luiz Costa, Roberto Ronheldt, Ney Barreto Viana, Ibañez Souza, Ary dos Santos e Hélio Assis.
2- Impressos, cartazes, flâmulas, faixas e etc... Liomar Formiga, Pedro Cauduro, Nestor Pinho, Leomar Rodrigues, Samuel Salatino, Lauro Só, Adolfo Di Lorenzi e Suano Gomes, Balduino Barreto Franzem, Francisco de Deus Pereira Filho e Eduardo Facin.
3- Orador: dr. Pedro Pacheco de Souza, Vice-presidente em exercício, para em nome do clube saudar a briosa Embaixada Alvi-Azul.

PROGRAMA:
1- Receber a Embaixada, no Aeroporto Salgado Filho.
2- Após a chegada, saudação feita por orador a ser designado.
3- Organizado o corso pela Comissão de Percurso, demandará ao Centro da Cidade, tendo por término a Sede Social, obedecendo o trajeto definido.
4- Os atletas do Clube, Campeões Estaduais de Atletismo, devidamente uniformizados, prestarão uma homenagem especial.
Por ocasião da chegada à Sede Social, será prestada grande manifestação popular aos valorosos jogadores cruzeiristas, devendo nessa oportunidade serem executados os Hinos Nacional e Rio-Grandense, pela Banda de Música da Brigada Militar, bem como em nome do clube, usará da palavra um orador a ser designado.


A VOLTA PARA CASA

No dia 15 de janeiro de 1954 surgiu, no Rio de Janeiro, a notícia de que o Cruzeiro iniciaria sua volta à Porto Alegre, mas antes disso, recebeu o convite do Barcelona, para a realização de um jogo, tendo em vista a boa impressão deixada, pelo Cruzeiro, nas suas exibições pela Europa, principalmente, na Espanha, onde os estrelados gaúchos empataram com o Real Madrid, recentemente escolhido, pela FIFA, como “a melhor equipe do século XX” e seguido de duas vitórias frente ao RCD Espanhol, principal adversário do Barça.

Infelizmente, o Cruzeiro não pôde aceitar a disputa. A delegação, desde outubro, longe de seus familiares, vagando por terras estranhas, sem férias, desejava apenas o descanso do retorno.

Os estrelados deixaram o porto de Barcelona, no dia 16 de janeiro, um domingo, viajando pelo transatlântico Augustus (irmão gêmeo do Giulio Cesare) e somente chegaria ao Rio, no dia 28 de janeiro. Dia 21, o navio Augustus fez uma parada em Dakar, rumando em seguida para a Capital da República do Brasil.

A bordo do navio, o dr. Pinheiro Machado, presidente do Cruzeiro, enviou telegrama de agradecimento e de saudação do Cruzeiro à Crônica esportiva do Rio Grande do Sul. A chegada ao Brasil, ocorreu no dia 28, às primeiras horas da manhã, sendo, após o desembarque, encaminhado diretamente ao Aeroporto, para embarcar, em avião das Aerovias Brasília, especialmente contratado, para conduzir a delegação estrelada aos pagos gaúchos. Com a finalidade de recepcionar a delegação cruzeirista, rumou para o Rio de Janeiro, os drs. Ernesto de Prímio Beck e Belmiro Terra, que fariam as primeiras manifestações de apreço e externariam a alegria que dominava os corações cruzeiristas.

Em Porto Alegre, desde cedo da manhã, a sede do Cruzeiro, localizada nos altos do Cine Rex, na Rua dos Andradas, em frente a Praça da Alfândega, onde hoje é a galeria Di Primio Beck, começou a encher de gente interessada em obter informações. Eram associados, simpatizantes do clube e também familiares dos atletas e curiosos.

Para aguardar a chegada da delegação cruzeirista, foi preparada uma recepção, onde não faltaria balões, flâmulas, confete, serpentina, sacos de papéis picados, que seriam distribuídos, no afã de realizar uma brilhante acolhida àqueles que representaram condignamente o nome do Cruzeiro, do Rio Grande do Sul e do Brasil em plagas distantes.

Na sede eram encontrados cruzeiristas da velha guarda como o General Fernando Pires Besouchet, o veterano craque Paulo Mariath e Felipe Janselme Filho, acompanhados da nova geração com os irmãos Celso e Tobias Seligman, Darci Bittencourt Júnior e os irmãos José Ari, Roberto e Renato Brenol de Andrade, que juntamente com elementos da atual diretoria cuidavam da decoração interna e externa, com bandeiras do Brasil, de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Havia bandeiras da C.B.D. (Confederação Brasileira de Desportos), da F.R.G.F. (Federação Rio-Grandense de Futebol), além das bandeiras nacionais da França, Itália, Suíça, Israel e da Turquia.



A todo instante, espoucavam rojões, anunciando as festividades. Várias faixas, com dizeres alusivos a efeméride eram colocadas ao longo do trajeto que seria percorrido. A cidade engalanava-se com as faixas expostas, como aquelas em que o Cruzeiro manifestava sua gratidão pelo apoio recebido do Governador do Estado, do Prefeito Municipal e da Federação Rio-Grandense de Futebol.

O Internacional, para satirizar, colocou na fachada de sua sede social uma faixa, onde se lia: “Os campeões saúdam o valoroso S.C. CRUZEIRO”; acrescento: saudação a um clube realmente Internacional.

Outras faixas foram colocadas como “A Torcida dos 18”; “Cruzeiro -Academia de Futebol” (lembrando, como a atuação cruzeirista foi considerada pela Crônica espanhola).

Às 16 horas, em frente a Casa do Cruzeiro, a briosa Banda Musical da Brigada Militar, executava dobrados e marchas festivas. O público iniciava a se aglomerar. Ao ser anunciado a hora exata da chegada, formou-se uma extensa carreata em direção ao Aeroporto. Local de amplas acomodações, mas que já estava, desde as primeiras horas da tarde, ficando pequeno para abrigar a ruidosa multidão que aguardava os destacados viajantes.

A CHEGADA

Eram aproximadamente 18 horas, quando o aparelho de prefixo PP – AXO, pousou no Aeroporto Salgado Filho, trazendo aos pagos gaúchos, a delegação estrelada. Grande multidão, ali estava reunida, para saudar os viajantes. Faixas, dísticos, banda de música, cordões emprestavam ao ambiente um aspecto festivo.

Mal, o aparelho havia pousado, a multidão, rompeu os cordões de isolamento, invadiu a pista, gritando vivas e externando manifestações de júbilo.

A saída do avião, dirigentes e atletas, emocionados, receberam os cumprimentos de esposas, mães, filhos, noivas e amigos. Momento de emoção que contagiou até mesmo reporteres de rádios e jornais, que efetuavam a cobertura do evento.

Um dos primeiros a descer do avião, foi o presidente estrelado, dr. Pinheiro Machado Netto, logo saudado por autoridades presentes, como o Prefeito Municipal, dr. Ildo Meneghetti; major Eurico Nogueira, da 3a Região Militar; dr. Aneron Correia de Oliveira; dr. Otávio Abreu; dr. José Antônio Aranha. Logo, conduzidos ao grande salão de recepção do Aeroporto, para o início das homenagens, onde diversos oradores fizeram uso da palavra. Iniciando, com o prefeito, dr. Ildo Meneghetti, que em nome da cidade, salientou a imensa satisfação de recepcionar a embaixada cruzeirista, no seu regresso de tão majestosa excursão ao Velho Mundo, onde representou galhardamente o nome da cidade de Porto Alegre. A seguir, o dr. Aneron Correia de Oliveira, fez uso da palavra para saudar a embaixada, em nome de todos os clubes do interior do Estado e também da C.B.D.. O dr. Otávio Abreu, discursou em nome da F.R.G.F. e para encerrar, ouviu-se a palavra de Antônio Pinheiro Machado Netto, presidente do clube da Montanha. Em breve locução, disse, o presidente estrelado, estar satisfeito com os resultados da excursão e que o Cruzeiro jogou todas as partidas imbuídas do espírito de responsabilidade. Quanto à recepção, disse ter sido uma surpresa e que não tinha palavras para expressar seu reconhecimento a esta torcida que os acolhia com carinho.

Do Aeroporto, formou-se o cortejo, que conduziria os recém chegados à sede alvi-azul. Eram automóveis, caminhões, ônibus e bicicletas, que seguiam pela Avenida Farrapos, ao espoucar de foguetes e aplausos da multidão que, portando flâmulas e cartazes, se comprimiam na calçada para ver a passagem dos craques cruzeiristas, que brilharam na Europa e na Ásia.As ovações eram inesquecíveis; vivas, citação de nome dos atletas, escolas perfiladas pela avenida, com o intuito de homenagear os heróis que retornavam.

Da Avenida Farrapos, o cortejo de longas filas de veículos, subiu a Ramiro Barcelos, entrou na Barros Cassal, subiu até a Independência e seguiu até a Rua dos Andradas, onde se encontra a sede do clube, em frente a Praça da Alfândega. Em todo o itinerário, sempre a mesma cena, multidões dando vivas, alegres e satisfeitas com as glórias conquistadas pelo clube alvi-azul.

Na sede assomavam a sacada, atletas, dirigentes, simpatizantes, o local de tornava pequeno para as demonstrações de alegria e satisfação com a volta ao lar, da delegação estrelada. Foram homenageados também aos atletas ligados ao Atletismo, que no ano de 1953, venceram o campeonato e conquistaram, em definitivo, para o Cruzeiro, o Bronze Farroupilha. Da sacada, fez uso da palavra, o dr. Pedro Pacheco de Souza, vice-presidente do Cruzeiro, que emocionadamente ressaltou a satisfação da família cruzeirista ao receber seus atletas cobertos de glória. A multidão que lotava o Largo dos Medeiros, aplaudia os oradores. A seguir, usou da palavra o presidente, dr. Antônio Pinheiro Machado Netto, que agradeceu a seus companheiros de viagem e aos desportistas gaúchos, reportando-se a acontecimentos ocorridos na extensa gira que o Cruzeiro realizou. Lembrou também, o vice-presidente Rivadávia Prates, que faleceu repentinamente, na Turquia.

Em meio a discursos, apareciam na sacada, os craques estrelados, que recebiam palmas e aplausos dos desportistas gaúchos. Foi uma festa emocionante. Havia blocos que pulavam e cantavam, muita serpentina e confete, que eram jogados a todo instante. Reco-recos e sirenes, banda de música e um entusiasmo contagiante marcou a chegada do Cruzeiro a Porto Alegre. Ao aproximar-se à noite, a multidão começou a dispersão. Muitos, ainda permaneceram no local, até altas horas da noite, dando mostras de sua alegria com o retorno do clube mais querido aos pagos.

A RENTRÉE DO CRUZEIRO

No dia 4 de fevereiro de 1954, realizou-se na Colina Melancólica, estádio do Cruzeiro, o encontro entre os Estrelados e a Seleção Gaúcha. Este jogo contava com os melhores jogadores do Estado. A imprensa dizia que o Cruzeiro havia melhorado consideravelmente, o que proporcionou um esplêndido cotejo futebolístico.

Com a fraca arbitragem de Artur Vilariño, o popular Espanha, iniciou a partida que teve muitos lances violentos. O árbitro não conseguiu conter as jogadas mais ríspidas, o que, infelizmente, empanou o brilho do cotejo.

O Cruzeiro formou com: Amauri, Xisto e Rui; Laerte III (Casquinha), Léo e Paulistinha; Ferraz, Rudimar, Huguinho, Nardo e Jarico.

A Seleção Gaúcha contou em suas fileiras com: Milton, Florindo e Oréco; Paulinho, Salvador e Odorico; Luisinho, Bodinho, Juarez, Jerônimo e Canhotinho.

Numeroso público compareceu ao Estádio da Montanha para aplaudir este jogo que deveria ser amistoso, mas que se transformou quase num jogo valendo pontos. O cruzeiro saiu à frente aos 2 minutos, com um belíssimo golo de Ferraz. Aos 14 minutos, ocorreu o empate quando Amauri foi iludido pelo chute de Canhotinho.

Aos 31 minutos Rudimar, recebendo uma bola alta que cruzou a área, fulminou o arco guarnecido por Milton e marcou o segundo golo do Cruzeiro. O Empate só viria na Segunda fase, aos 13 minutos, com um belo golo de Bodinho. A seleção marcaria pela terceira vez, aos 20 minutos, quando Amauri saiu do arco e Paulistinha lhe atrasou a bola, fazendo um golo contra. Logo após, o juiz expulsou Rudimar, que ao abandonar o campo deixou o Cruzeiro inferiorizado tanto em quantidade como em qualidade, favorecendo o domínio das ações por parte da Seleção, que marcou o quarto golo, aos 26 minutos, assinalado por Juarez.

Os lances violentos ocorreram até o final do jogo, era pontapé, empurrões e puxões de camiseta, quase sempre com a conivência do juiz, que não fazia menção de coibir os lances violentos da Seleção. O Espanha, algum tempo depois, confidenciaria a um grupo de esportistas locais, que se não expulsasse o Rudimar, o Cruzeiro poderia vencer o jogo. Ele deu uma mãozinha para a Seleção que se preparava para o campeonato brasileiro.
 

A IMPORTÂNCIA DO FEITO CRUZEIRISTA ---->
O ano de 1953, não estava sendo dos melhores para o Cruzeiro; Porto Alegre era só um pontinho no mapa. Quando muito, seus resultados esportivos apareciam em noticiários cariocas e paulistas. Havia, isto sim, um intercâmbio maior com os países platinos, com Argentina e Uruguai. Pouco contato com outros países da América do Sul e Central.

Os clubes do Rio Grande do Sul, via de regra, eram desconhecidos. Os poucos destaques pertenciam a Grêmio, Internacional, Cruzeiro e Renner. O Rio Grande do Sul era um mercado quase virgem. Quando o Cruzeiro divulgou a notícia de que iria jogar na Europa, houve um espanto geral. Por que o Cruzeiro? Esta era a pergunta. A propaganda efetuada pelo empresário José Gama foi uma das alternativas responsáveis para a resposta a esse questionamento. Mas não foi a única. O Cruzeiro surgiu, não para ser, um clube pequeno entre os pequenos, mas para ser grande entre os grandes. Isto pôde ser percebido, desde sua fundação. Em menos de cinco anos de existência, o Cruzeiro já era o grande campeão gaúcho. O Cruzeiro surgiu para proporcionar grandes espetáculos. Por isso, os jogos realizados na Europa, não preocupavam os cruzeiristas, que confiavam em seu destino: Ser um grande clube.

Os resultados obtidos, em jogos na Europa e na Ásia, somente confirmaram a vocação estrelada para o sucesso. Quis o destino, que o primeiro jogo fosse desmarcado, para o Cruzeiro enfrentar a melhor equipe do século, o Real Madrid. O resultado entre estes dois gigantes do futebol, não poderia ser outro, senão o empate. O cansaço, o frio e o barro, causaram sua primeira derrota, em seu segundo compromisso. Maravilhou a Itália, realizou um trabalho diplomático em Israel, Estado independente, recém criado, por decisão da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, sessão presidida pelo cruzeirista Osvaldo Aranha. Jogou na Turquia, onde foi derrotado duas vezes, tendo empatado uma e vencido outra. Estavam aprendendo a jogar na neve, sem esqui, nem patins. Antes de concluir esta excursão, voltou à Espanha onde deitou cátedra, dando verdadeira aula de futebol àqueles que já eram professores.

Esta gente valente, que passou o Natal de 1953 e o Ano Novo, longe de sua família, num lugar onde a cultura é influenciada pela religião islâmica e o Natal é um dia como outro qualquer. Abraçados ao mesmo ideal, fizeram sua própria festa, irmanados e solidarizados com a missão que lhes foi confiada. Muitos, dos grandes clubes europeus desejaram jogar com o Cruzeiro, mas infelizmente, as datas, viagens cansaço, a distância de seus familiares e a saudade que era grande, não permitiu ao Clube da Montanha satisfazer a todos, entre tantos, destacamos o Barcelona, da Espanha e o Arsenal, da Inglaterra.

A expectativa da volta, ouriçou clubes do Rio de Janeiro, que queriam uma disputa com o Cruzeiro, por ocasião de seu regresso. América e Flamengo desejavam realizar uma disputa com o alvi-azul gaúcho, que se realizaria dia 30 de janeiro de 1954. Nada feito, da Capital federal, os estrelados vieram direto para casa, onde a Seleção Gaúcha, os esperava para uma disputa amistosa. Lêdo engano, a barra pesou, era pontapé para todo lado, empurrões e chutes na canela. O bicho pegou! A vitória da Seleção só ocorreu depois que o juiz ajudou.

Tudo isto foi nada, comparado a recepção prestada pela cidade aos viajantes que regressavam. Apoteótica, foi a volta triunfal, destes heróis que lutaram na Europa e na Ásia, capitaneados pelo dr. Antônio Pinheiro Machado Netto, para colocar o nome de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, na rota dos grandes espetáculos esportivos do mundo.

A festa, a grandiosa festa estrelada reuniu em sua sede social uma multidão incalculável. Tenho uma vaga lembrança, é como um sonho, eu era muito pequeno, não tinha muita consciência da importância do momento, sabia que estávamos presente à chegada do Cruzeiro, que vinha de vários jogos na Europa e na Ásia. Não fazia idéia da magnitude do momento. Levado por meu pai, lembro de um prédio antigo de dois pisos, ao entrar, subia-se por uma escada estreita. Havia muita gente, risos, abraços, pessoas passavam por mim, colocavam a mão sobre minha cabeça e me felicitavam. Lembro, que olhávamos da pequena sacada, apertados, no meio de tanta gente. Embaixo, uma multidão a ovacionar.

Era a chegada desses valentes atletas alvi-azuis, que defenderam em terras estrangeiras o nome de nossa cidade, deste Estado e da Nação. Durante estes jogos, nos idos anos cinqüenta, éramos verde e amarelo, éramos branco e azul anil. Éramos o Brasil, a manifestação de nossa nacionalidade, prova disso, é que, os manifestantes torcedores de todas as agremiações do Estado reconheciam a grandiosidade do feito estrelado.

MENSAGENS DE CONGRATULAÇÕES

AO E. C. CRUZEIRO

“Na data auspiciosa em que o valoroso E. E. Cruzeiro retorna ao Rio Grande, trazendo a bandeira alvi-azul coberta pelos louros de expressivas vitórias, colhidas em sua longa gira em terras estrangeiras – a F.R.G.F., apresenta, prazeirosamente, ao brilhante filiado os melhores votos de boas vindas e as mais sinceras saudações”.
“E ao fazê-lo, tem a convicção de que interpreta o pensar dos desportistas gaúchos que, tão interessadamente torceram pelas vitórias do Clube da Montanha”.
“É que um sentido maior orientava esse pensar, qual fosse o de patriotismo, voltados que tínhamos, todos, o nosso espírito para a atuação dos bravos atletas em quem não víamos os integrantes de uma associação gaúcha mas sim, ao momento, legítimos representantes do nosso querido Brasil, levando aos campos estrangeiros, o vibrante futebol de nossa Pátria e a força indomável do seu civismo”.
“Infelizmente, aos louros das vitórias que emolduraram o seu altaneiro pavilhão, veio o crépe da dor e da saudade a eles se entrelaçar. Rivadávia Prates tombou em plena campanha triunfal”.
“A esse dedicado batalhador das hostes cruzeiristas, no significativo dia de hoje, mais uma vez, a homenagem do respeito e a lágrima da saudade dos desportistas do Rio Grande”.
“E ao E. C. Cruzeiro a certeza de que Porto Alegre desportivo lhe estendeu o seu emocionado amplexo, afirmando-lhe que venceu para a glória do desporto do Rio Grande e do Brasil”.
Porto Alegre, 28 de janeiro de 1954.
OTÁVIO ABREU DA SILVA LIMA – 1o Vice-Presidente, no exercício da Presidência da F.R.G.F.

SALVE, ESPORTE CLUBE CRUZEIRO

“É sob intensa satisfação que apresento votos de boas vindas à galharda e valorosa equipe do Esporte Clube Cruzeiro em seu regresso de vitoriosa excursão pelo Velho Mundo, trazendo para a tradicional entidade porto-alegrense novos louros ao seu patrimônio de glórias”.
Porto Alegre, 28 de janeiro de 1954.

ENG. ILDO MENEGHETTI
Prefeito

UM VOTO DE CONGRATULAÇÕES AO CRUZEIRO

A Assembléia Legislativa do Estado associou-se, ontem, significativamente, às homenagens que vêm sendo tributadas ao E.C. Cruzeiro.
Assim, na sessão da Comissão Representativa, o deputado Unírio Machado, líder da maioria, falou sobre a campanha dos estrelados na Europa e Ásia, propondo a inserção em ata de um voto de congratulações ao Cruzeiro.
O requerimento em apreço foi unanimemente aprovado.

SONHO DE GRÊMIO E INTER
REALIDADE CRUZEIRISTA


A retrospectiva de Zero Hora (10 outubro 1999, pág. 71), textualmente afirma que “a década de 50 foi de amadurecimento do futebol gaúcho. O Cruzeiro fez a primeira excursão de um time do Estado pela Europa, em 1953. Dois anos depois, foi a vez do Grêmio.”

Nesta afirmativa, pode-se entender que a primazia de jogar na Europa foi do alvi-azul gaúcho, mas que logo a seguir outros clubes fizeram o mesmo. Falta de informação? Superego de gremista? Desvalorização do feito estrelado? São perguntas de quem tenta se esclarecer um pouco. Acredito que seja ignorância de algum jovem jornalista, que deva estar meio confuso.

O Grêmio, efetivamente, conseguiu sua primeira excursão à Europa, um ano após a ida do Cruzeiro, mas, veja bem, após a segunda ida do clube do escudo estrelado à Europa, em 1960.

É esta a excursão, que motiva a segunda etapa deste trabalho. Muitos empresários há algum tempo, vinham tentando divulgar outros clubes gaúchos, sem sucesso. Portanto, quando Roberto Fauszlegier trouxe ao Rio Grande do Sul, a notícia de que já havia agenciado alguns jogos do Cruzeiro no Velho Mundo, a direção estrelada tratou logo de providenciar os passaportes dos jogadores. Foi escolhido o sr. Ildo Nejar, para ultimar os preparativos, no Rio de Janeiro, e também manter um contato mais amiúde com o empresário.

Estávamos em março de 1960, os sonhos dos outros clubes de jogar na Europa, deveria ser mais uma vez adiado. O Cruzeiro já estava de malas prontas.

No Correio do Povo (03.03.1960) era publicado o que segue: “Segundo nos informam tem sido relativamente fácil para o empresário acertar exibições do Cruzeiro, na Europa, pois é suficiente aproveitar-se do prestígio estabelecido, na gira anterior”.

Como se pode verificar, o cartaz angariado pelos estrelados gaúchos, permitiam que, antecipadamente, se pudesse conhecer os adversários, as datas e os locais em que se realizarão as contendas.

Ildo Nejar, ao regressar da capital federal, declarou ao Diário de Notícias (06.03.1960), o que segue: “- O empresário a quem está afeta a nossa excursão é pessoa de idoneidade, o que é provado com as viagens de outros clubes que já empresou, entre os quais podemos citar aquela feita à Europa pela Seleção do Departamento Autônomo da Federação Metropolitana de Futebol, do Estado da Guanabara, onde o senhor Fauszlegier agiu com toda a correção conforme declaração que me forneceu o Diretor Geral daquele Departamento”.

Esta nota, relacionada ao caráter do empresário, já era uma garantia de que o Cruzeiro não iria se jogar numa aventura. Era diferente da excursão feita em 1953, quando o estrelado gaúcho teve problemas com seu empresário, causado pela propaganda efetuada.

É QUENTE A EXCURSÃO

Com o embarque previsto para 22 de marco de 1960 e a estréia programada para 26 ou 27, em Sofia, capital da Bulgária, tendo jogos acertados na Alemanha para sábado e domingo de Páscoa, ninguém mais duvidava de que era quente a excursão do Cruzeiro, agenciada pelo empresário Roberto Fauszlegier.

Os preparativos se aceleravam, os contatos eram efetuados. O D.F.C. (Departamento de Futebol da Capital, da Federação Gaúcha de Futebol) concedeu licença ao Cruzeiro para excursionar e ao mesmo tempo, liberou o clube do escudo estrelado, das três rodadas iniciais do certame gaúcho, que provavelmente começará em fins de maio e nesta época, o Cruzeiro ainda andará pela Europa, ou então iniciando o seu retorno a Porto Alegre.

Junto ao C.N.D. (Conselho Nacional de Desporto), em contato mantido com o senhor Canor Simões, secretário deste alto órgão esportivo, o Cruzeiro obteve apoio, já que ele demonstrou boa vontade e não opôs óbice algum, ao empreendimento do clube estrelado.

Tudo certo na F.G.F., no C.N.D., jogos acertados na Europa e informações idôneas sobre o empresário; estavam criadas as condições favoráveis ao empreendimento cruzeirista. Faltava apenas definir e relacionar os nomes dos componentes da delegação.

Havia, no entanto, um detalhe. As passagens de ida e volta, que já deveriam estar no clube, desde o primeiro dia de março, lá pelo dia 13, ainda não havia chegado. Esta passava a ser a principal preocupação do clube.

A ESCOLHA DA DELEGAÇÃO

Roberto Fauszlegier, através de um “Western” comunicou a diretoria do Clube da Montanha que havia acertado 25 jogos no Velho Mundo e que dia 22 de março de 1960 seria a data de embarque da delegação. Reforçou seu pedido sobre a relação dos integrantes da missão com os respectivos números dos passaportes. Solicitou também que o Cruzeiro providenciasse o visto nas embaixadas da Áustria e da Espanha.

Tudo pronto e resolvido, o Cruzeiro divulgou a relação de atletas que seguiriam com a embaixada alvi-azul para o continente europeu. O clube deverá viajar em avião da Panair do Brasil, rumo a Frankfurt, para se reunir ao empresário e iniciar a excursão.

Dia 19 de março foram entregues as roupas especiais, confeccionadas especialmente para a delegação cruzeirista que viajará para o Velho Mundo. No dia anterior, o Cruzeiro recebeu do empresário a cópia dos contratos das partidas iniciais do clube. As cotas acertadas para os jogos do clube seriam de 2000 dólares no primeiro encontro e de 2500 dólares pela segunda apresentação.

O EMBARQUE

O embarque do Cruzeiro, no Aeroporto Senador Salgado Filho teve um clima de muita emoção. Lágrimas e sudações emocionadas às 8 horas da manhã, quando a delegação do Esporte Clube cruzeiro, embarcou no avião da Panair do Brasil, rumo ao Rio de Janeiro, de onde partirá para a Europa e realizará uma excursão de noventa dias, com jogos em gramados do Velho Mundo.

A delegação estrelada teve a seguinte composição:

Chefe: dr. Ernesto Di Prímio Beck;
Diretor: Wilson Nunes;
Jornalista: Roberto Rohnelt;
Técnico: Carlos Bevenuto Froner;
Massagista: Abraão Lermann;
Atletas: Candinho, Picasso, Torres, Ivo, Carazinho, Cará, Nonô, Cacique, Tesourinha, Mauro, Elário, Raul, Chagas, Tonico, Salvador, Saul, José, Joel e Cabral.

O senhor Wilson Nunes foi chefiando a delegação até o Rio de Janeiro, quando passou o comando da delegação ao dr. Ernesto Di Prímio Beck, Patrono do Clube, que deverá permanecer chefiando a embaixada, por uns 20 dias, depois será substituído pelo Deputado Federal, dr. Paulo Mincarone, presidente estrelado.

ROTEIRO DA VIAGEM

A delegação estrelada chegou ao Rio de Janeiro às 11h 30 min., quando foi recepcionada pelo dr. Ernesto Di Prímio Beck. Do aeroporto foram almoçar e depois realizaram um passeio pelas lindas praias cariocas.

O avião da Panair deixou a Cidade Maravilhosa ás 17 horas com destino a Recife, onde o avião fez escala. Da Veneza brasileira, rumou para Dacar e de lá para a Alemanha, mais precisamente, em Frankfurt, aonde chegou durante a madrugada.

Em Frankfurt, o encontro com o empresário, sr. Roberto Fauszlegier e a troca de avião para a companhia soviética, que realiza os vôos para os países da Cortina de Ferro. A jornada para Sofia, teve uma escala em Lisboa, Capital de Portugal. Não consegui apurar o motivo que levou a embaixada cruzeirista a vir da Alemanha para Portugal e de lá rumar à Áustria, para depois, então, chegar a Bulgária. Apenas registro este roteiro, que foi o informado por agências noticiosas internacionais.

Em Lisboa, o Cruzeiro chegou dia 23 de março, o vôo atrasou 2h10min., era esperado para as 14 horas, mas chegou às 16h10min. As informações transmitidas pela UPI(agência noticiosa internacional) era de que o Cruzeiro jogaria na Bulgária, Alemanha, Inglaterra, Áustria, França, Espanha, Turquia e Israel, num total de 25 jogos.

De Portugal, o Cruzeiro rumou para a Áustria, utilizando como meio de transporte o trem. A chegada na Estação Ocidental de Viena, ocorreu na quinta-feira, 24 de março, antevéspera da estréia na Bulgária. Na chegada a Viena, uma surpresa, o frio era de rachar. O frio era tão intenso que fez com que os integrantes da delegação abrissem suas malas para colocar um agasalho, tendo em vista que tiritavam de tanto frio.

As informações obtidas apontavam que todos os integrantes da comitiva estrelada gozavam de boa saúde e estavam gostando da viagem. Porém, acreditava-se que os jogadores necessitavam de alguns dias para se acostumar ao clima diferente e que poderiam apresentar um decréscimo de produção nos primeiros encontros.

Ao ser entrevistado, o sr. Roberto Fauszlegier afirmou que dos 25 jogos programados, 15 já estavam acertados e que após a Bulgária, o Cruzeiro jogaria na Áustria, Tcheco-Eslováquia, Alemanha, Espanha, Holanda, Bélgica e Grã-Bretanha. Por sua vez, declarou que era relativamente fácil acertar os jogos do Cruzeiro por causa da boa impressão deixada pelo clube em sua excursão à Europa em 1953, além de possuir em seus quadros quatro jogadores que contribuíram para a vitória do Brasil no Pan-Americano de 1956, que são: Irno, Cará, Tesourinha e Amauri.

NA ESTRÈIA: A SELEÇÃO BÚLGARA

O Cruzeiro chegou a Sofia, por via aérea, dia 24 de março, na tentativa de se aclimatar ao frio glacial que fazia. A Capital da Bulgária é uma cidade parecida com Porto Alegre em tamanho, sua população gira em torno dos 600 mil habitantes. É, portanto, nesta cidade que o estrelado gaúcho fará sua estréia, na sua segunda gira, por gramados europeus.

No dia 25, o Cruzeiro realizou um treino individual, para reconhecimento do estádio. O frio continua sendo o maior problema dos gaúchos, mesmo agasalhados passam o tempo tiritando de frio.

Este encontro futebolístico é aguardado pelos búlgaros com grande expectativa. Os estrelados gozam na Europa de grande prestígio e são bastante conhecidos, os anfitriões, a Seleção da Bulgária, vinha de recente triunfo sobre a Seleção da França, por 1x0. Tudo levava a crer que o jogo teria uma afluência muito grande de espectadores.

O selecionado búlgaro é formado por excelentes jogadores. O Cruzeiro terá, em sua estréia, nesta segunda excursão, um adversário muito duro. O jogo está marcado para o sábado, 26 de março, no Estádio Nacional de Sofia.

A ESTRÉIA

Pelo menos 10% da população de Sofia acorreu ao Estádio Nacional, para assistir ao jogo da Seleção da Bulgária contra o E.C. Cruzeiro, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. O frio continuava intenso, mas a expectativa em torno deste encontro futebolístico era muito grande.

Após o apito inicial da partida, os dois quadros apresentaram um futebol rápido, com ataques freqüentes e inesperados. O Cruzeiro mostrou jogadores muito velozes e com excelente domínio de bola, as jogadas apresentavam combinações de grande efeito, porém faltou um pouco de sorte nos arremates ao arco búlgaro. A primeira etapa terminou com o marcador acusando um empate em zero a zero.

No segundo tempo da partida houve um decréscimo na velocidade empregada pelos atletas. A seleção búlgara apresentou uma ligeira superioridade sobre os brasileiros, que já demonstravam estar cansados. Aos vinte minutos, o ponteiro esquerdo Kolev, da Bulgária, abriu o marcador, cobrando uma penalidade máxima. Carlos Froner, técnico do Cruzeiro, declarou ao final do jogo, que a marcação do pênalti foi irregular, pois a bola bateu na mão do jogador estrelado sem que houvesse existido o propósito de colocar a mão na bola.

Aos vinte e cinco minutos do jogo, em rápido ataque da equipe búlgara, seu centro-avante Panayotov, marcou o segundo golo da Bulgária, fechando com cifras definitivas o marcador. O Cruzeiro mostrava que não possuía mais força física para modificar o resultado adverso.

Cinqüenta mil pessoas presenciaram este encontro, que foi vencido pela Seleção da Bulgária por dois a zero. Jogaram e venceram: Naydenov, Pakarov e Manolov; Dimitrov, Largo e Kovachev; Diev, Abadyev, Yordanov (Panayotov), Ykimov (Debruski) e Kolev.A equipe brasileira do E.C.Cruzeiro, esteve composta por: Candinho, Ivo e Nono; Torres, Chagas e Carazinho; Tesourinha, Mauro, Cabral, Cará e Elário.

Ao final da contenda, Carlos Froner, técnico do Cruzeiro, lamentou a derrota, mas salientou que estava satisfeito com o resultado, tendo em vista que foi contra a Seleção Nacional da Bulgária. Criticou o pênalti sofrido pelo Cruzeiro e ponderou que o seu clube iria produzir mais nos próximos jogos, quando os jogadores estivessem aclimatados com o ambiente.

A renda do jogo, convertida, na época, para a moeda nacional brasileira, rendeu aos búlgaros 7 milhões de cruzeiros. De Sofia, o Cruzeiro rumou para Rousse, no interior da Bulgária, onde jogaria no dia seguinte.

SEGUNDO JOGO NA BULGÁRIA

De Sofia a delegação estrelada seguiu para Rousse, local onde o Cruzeiro enfrentaria o clube local, reforçado por vários jogadores do Varnas. O jogo era no dia 27 de março, um dia após a derrota para a Seleção Nacional da Bulgária por dois a zero.

O frio intenso e o cansaço eram os elementos desfavoráveis que o Cruzeiro deveria enfrentar. Grande público assistiu a este jogo disputadíssimo e que rendeu nas bilheterias do estádio a cifra de 4 milhões de cruzeiros, convertidos para a moeda brasileira da época.Antes de iniciado o cotejo, houve a tradicional troca de flâmulas. Na primeira etapa do jogo, a equipe treinada por Carlos Froner dominou as ações, mas infelizmente, não conseguiu movimentar o marcador.

Na etapa final, os estrelados gaúchos caíram de produção, demonstrando não estarem ainda aclimatados ao frio glacial que fazia na Bulgária. Aos oito minutos Cabral marcava o golo do Cruzeiro. Porém, um lance daria o que falar. Aos dezessete minutos, uma bola cruzada, sem perigo, para a meta de Candinho, bateu na mão de Cacique, dentro da área. O juiz búlgaro, incontinente, marcou o pênalti. Os jogadores estrelados protestaram, mas foi em vão. O meia esquerda Rudve cobrou com sucesso esta pena máxima, decretando a igualdade no marcador.

Neste segundo encontro do clube do escudo estrelado em gramados da Bulgária, o Cruzeiro empatou e formou com os seguintes atletas: Candinho, Torres (Cacique), Ivo e Nonô; Chagas e Carazinho; Tesourinha, Mauro, Cabral, Cará e Elário.

Ao final da partida, Carlos Froner manifestava-se contrariado com a marcação do pênalti e dizia: “Nossa equipe merecia o triunfo e se não fosse o pênalti injustamente cobrado seríamos os vencedores”.

Os jogadores estrelados que se destacaram no jogo foram: Tesourinha impressionou o público com seus dribles espetaculares; Candinho, que praticou defesas importantes e Cará, que brilhou como preparador de jogadas. Os atletas cruzeiristas reclamaram do peso das bolas, alegavam que elas são muito leves e os búlgaros não permitiram o uso de bolas brasileiras, nem ao menos em um tempo do jogo.

As homenagens finais, com beijos e distribuição de lírios vermelhos e brancos, não agradavam muito aos brasileiros. O europeu oriental tem o costume de beijar ao cumprimentar. Muitos inclusive beijam na boca.Isto é um carinho normal, para os europeus.

O Cruzeiro impressionou vivamente ao público presente no local, que não se conteve e carregou os jogadores brasileiros nos ombros até o hotel, que se situava a mais de três quilômetros de distância. A noite foi oferecida ao clube gaúcho um jantar, com a participação de mais de mil pessoas, seguido de um grandioso baile, onde a bandinha do Cruzeiro animou o ambiente, transformando-o num verdadeiro carnaval.

O Cruzeiro foi considerado a equipe mais disciplinada que jogou na Bulgária. Teve seu futebol comparado ao do Santos, de Pelé, que lá jogou em 1959 e também não conseguiu vencer. Destacaram também, o fardamento estrelado e os uniformes usados fora de campo, que os tem impressionado bastante.

O CRUZEIRO NA ÁUSTRIA

Depois de derrotado pela Seleção Nacional da Bulgária e do empate com o Rousse, a delegação estrelada seguiu para a Áustria, onde deveria cumprir seu terceiro compromisso em gramados europeus. O jogo marcado para dia 30 de março deveria ser realizado na cidade de Klagenfourt, Capital da Província de Ilya. O adversário deveria ser a equipe do Carinthia, campeão local.

Carlos Froner pretende manter a mesma equipe que vem jogando na Europa, que mesmo sem ter vencido ainda, vem apresentando um bom nível de produção. O Cruzeiro chegou em Klagenfourt dia 29 de março e já aproveitou a oportunidade para realizar uma sessão de física e reconhecimento do terreno.

O jogo gerou uma enorme expectativa entre os aficionados locais do esporte bretão. O estádio, no dia do jogo, recebeu a visita de três mil torcedores, que assistiram entusiasmados a disputa entre austríacos e brasileiros.O prélio se realizou à noite e desde seu início os brasileiros já demonstravam um preparo superior e uma boa velocidade, agradando bastante ao público local, que não se cansava de aplaudir as jogadas realizadas pelos visitantes.

O primeiro golo da partida foi marcado pelo extrema-esquerda Elário, que aos vinte e três minutos desferiu um violento disparo a dezoito metros do arco local. A primeira fase deste jogo terminou com a vitória parcial do alvi-azul gaúcho pelo escore de um a zero.

Na segunda etapa o Cruzeiro continuou dominando as ações. Aos dezenove minutos, o meia-direita Mauro assinalou o segundo golo dos estrelados. O placar foi movimentado novamente aos vinte e sete minutos, por intermédio de Salvador, que num potente chute acertou o ângulo superior direito, balançando as redes austríacas pela terceira vez.

Alguns minutos depois, Salvador acertou o travessão, ao disparar um potente “canhonaço”. O Cruzeiro foi nitidamente superior a seu adversário em todos os fundamentos do esporte. Faltou apenas, mais precisão nos arremates, o que poderia ter dilatado ainda mais o marcador.O Cruzeiro formou com: Candinho; Torres, Ivo e Nonô; Carazinho e Cará; Tesourinha, Mauro (Salvador), Cabral, Tonico e Elário.

Os destaques estrelados neste encontro foram os ponteiros Tesourinha e Elário; brilharam ainda o zagueiro-central Ivo e o centro-médio Carazinho. A crônica local teceu os mais calorosos elogios ao quadro cruzeirista, denominando-o de excelente.
CRUZEIRO NOS ESTADOS UNIDOS

Peregrinava pela Europa um emissário dos Estados Unidos, que pretendia levar à Terra do Tio Sam algumas equipes de alto nível no futebol mundial. O objetivo dos americanos era a realização de um torneio para incentivar o desenvolvimento do futebol nos Estados Unidos. Ao assistir um jogo do Esporte Clube Cruzeiro, na Europa, o empresário ficou impressionado com a qualidade do futebol apresentado pelo clube das cinco estrelas.

Os americanos planejavam levar aos Estados Unidos os clubes: Real Madrid da Espanha, Rapid de Viena, Dínamo de Moscou, Estrela Vermelha da Iugoslávia, Dínamo de Berlim e o Cruzeiro de Porto Alegre, como representante do futebol brasileiro e sul-americano.

O torneio seria realizado no mês de julho em comemoração dos 184 anos da independência dos Estados Unidos. Ao Cruzeiro restava ver a possibilidade de aceitar o convite, uma vez que obtivera licença da Federação Gaúcha de Futebol até o mês de junho. Aventou-se à possibilidade de disputar o campeonato de 1960 com a equipe dos Flechinhas Azuis, mas a dupla GRENAL estrilou. Alegaram que o Cruzeiro não poderia aceitar a participação neste torneio devido ao fato de contarem com as rendas do GRECRUZ e INTERCRUZ para manterem seus elencos milionários. O campeonato gaúcho, sem a equipe principal do Cruzeiro, seria deficitário.

A direção estrelada tentou alterar a data das disputas na terra do Tio Sam, antecipando o torneio para o mês de junho, mas os organizadores do evento mantiveram-se irredutíveis, não restando outra alternativa ao estrelado gaúcho se não recusar tão honroso convite, já que as pressões eram muito grandes e a Federação exigia que o Cruzeiro voltasse o mais breve possível a fim de intervir no certame gaúcho.

DÍNAMO DE ZAGREB

O próximo jogo do estrelado gaúcho deveria ser na cidade de Graz, ainda na Áustria. Para passar o tempo e aguardar o dia marcado para o jogo, aproveitaram para fazer turismo e conhecer a região montanhosa da Província de Carinthia, situada no sul da Áustria.

Já ambientados com o clima europeu, os brasileiros do Esporte Clube Cruzeiro, sentem-se em ótimas condições físicas e atléticas. Estão ansiosos para entrar novamente em campo. O jogo de Graz acabou sendo cancelado, os planos mudaram e a delegação estrelada teve que sair de Carinthia e rumar para Viena, de onde saiu no dia 04 de abril com destino a Belgrado, na Iugoslávia. Desta cidade, o Cruzeiro rumou para Zagreb, importante centro industrial iugoslavo, onde enfrentou a equipe do Dínamo local. A partida foi realizada dia 06 de abril, no Estádio Maksimirk e teve 25 mil pessoas a assisti-la.

O primeiro tempo contou com o predomínio inicial da equipe brasileira do E. C. Cruzeiro, com pouca sorte nos arremates, não o transformando em marcação de golos. Porém, diz o ditado popular, “quem não faz, leva”. Aos oito minutos Liposinovic abriu o marcador para o Dínamo. O Cruzeiro continuou fazendo uma excelente apresentação, com jogadas rápidas e de grande efeito, mas infelizmente várias oportunidades de marcar foram desperdiçadas devido à ótima atuação do arqueiro Stomajovic, que garantiu, na primeira etapa, a vitória parcial do Dínamo por um a zero.

O clube local voltou a marcar, aos vinte sete minutos do segundo tempo, através de Zambata, que desferiu um potente chute de curta distância. O Cruzeiro insistiu, mas o dia era mesmo de Stomajovic, goleiro reserva, do Dínamo, que havia substituído o titular e desejava mostrar serviço.

Os destaques do Cruzeiro ficaram com Mauro e Cabral, dois atacantes que demonstraram muita habilidade no trato com a bola, mas seu sucesso esbarrou na brilhante atuação do jovem arqueiro local. O Dínamo, de Zagreb formou com: Stomajovic, Gaspar e Rede; Banovic, Marcovic e Resek; Liposinovic, Conc, Matus, Zambata e Dugandija. O Cruzeiro teve a seguinte formação: Candinho, Ivo e Nonô; Cacique, Tonico e Carazinho; Tesourinha, Mauro, Cabral, Cará e Elário.
 

RIJEKA ---->
O Cruzeiro voltou a jogar, desta vez em Belgrado no dia 10 de abril, enfrentando a equipe do Rijeka, clube da primeira divisão iugoslava. É a equipe representativa da cidade de Rijeka, localizada no litoral Adriático da atual Croácia.

Quinze mil pessoas assistiram a quinta apresentação do Esporte Clube Cruzeiro por gramados europeus. Havia grande expectativa em torno deste encontro futebolístico. As agências internacionais de notícias destacaram o brilhantismo com que os estrelados brasileiros se exibiram. O Cruzeiro chegou a estar perdendo por dois tentos a um, mas conseguiu reverter o placar para três a dois, com dois golos de Mauro e o terceiro marcado por Elário.

A platéia saiu satisfeita do estádio com a apresentação do Cruzeiro, que formou com: Candinho, Ivo e Nonô; Cacique, Chagas e Carazinho; Tesourinha, Mauro, Cabral, Cará e Elário. Após a disputa o Clube da Montanha tomou o rumo de Viena, a velha capital imperial da Áustria, onde deverá realizar uma partida contra o Wacker, tradicional esquadrão austríaco. Depois tomará o rumo de Berlim, onde deverá participar do Torneio da Páscoa.

TORNEIO DA PÁSCOA

O Torneio da Páscoa é disputado na antiga Alemanha Oriental. É uma disputa onde, geralmente, são convidados cinco ou seis clubes de projeção no cenário mundial e também alguns clubes que excursionam pela Europa.

Como o nome já diz, ocorre na época da Páscoa, quando se comemora internacionalmente a ressurreição de Cristo. Os cristãos da Alemanha fazem verdadeiras festas e se preparam há muito tempo para estas comemorações. É lógico que o futebol a influência destas festividades.

As equipes alemãs organizam este torneio e o consideram muito importantes. Portanto, realizam estes jogos com a finalidade de vencer. Os convidados são para aumentar o prestígio da disputa. Para citar como exemplo, até fins da década de 1980, somente dois clubes estrangeiros conseguiram os louros da vitória no certame. Foram o Cruzeiro e o Real Madrid. Seleta galeria de vencedores.

A princípio, alguém pode pensar que outros clubes gaúchos nunca tenham disputado este torneio. Ledo engano! O Grêmio Porto-Alegrense, em 1961, conseguiu disputá-lo e terminou classificado em terceiro lugar. Dois outros clubes acabaram empatados na segunda colocação, sendo que neste ano, apenas quatro clubes participaram da disputa. Só para lembrar, neste torneio, o Grêmio levou quatro a um do Real Madrid. Equipe que até hoje, há precisamente 50 anos, não consegue vencer o Cruzeiro.

Faço este comentário sobre o Torneio da Páscoa, na Alemanha, pois o jogo contra o Wacker da Áustria não saiu e o Cruzeiro teve que intervir neste certame, como já estava previsto.





CONTRA O BAYERN


A primeira disputa ocorreu no dia 14 de abril, na cidade de Hof, contra a equipe alemã do Bayern. Lembro o slogan que afirma: “Se é Bayer é bom”.

Poucas informações sobre este jogo circularam em Porto Alegre. Foi possível coletar que o Cruzeiro venceu a partida pelo escore de um a zero, o golo dos gaúchos foi assinalado por Raul Tagliari, ainda na primeira fase da disputa.

Até este momento, o estrelado gaúcho soma seis apresentações no Velho Mundo, tendo conseguido três vitórias, um empate e duas derrotas. Já marcou oito golos e sofreu sete.
CONTRA O VORVAERTS


No dia 16 de abril, novamente atrás da Cortina de Ferro. O Cruzeiro entra, sai, torna a entrar. Desta vez para disputar com a equipe do Vorvaerts, de Berlim Oriental. O clube gaúcho venceu, novamente pelo placar de um a zero, com golo marcado pelo centro-avante Raul Tagliari. Neste torneio o Cruzeiro soma duas vitórias, já marcou dois golos e não sofreu nenhum.


CONTRA O DÍNAMO


O Cruzeiro voltou a campo no dia seguinte, 17 de abril, para disputar com a equipe do Dínamo, de Berlim. O jogo terminou empatado em um a um, dando ao Cruzeiro a primeira colocação no Torneio da Páscoa.

O jogo foi disputado no domingo, em Berlim, Capital da Alemanha Oriental, no Estádio Friedrich Ludwig Jahn. Os gaúchos demonstraram possuir uma melhor técnica, desenvolvendo jogadas em velocidade, que esbarravam na defesa adversária, que desta forma conseguia resistir à pressão dos brasileiros. O Cruzeiro dominou quase todo o jogo. Os golos só ocorreram na segunda etapa. Aos dezessete minutos os locais abriram a contagem, mas cará assinalou o golo de empate aos 42 minutos.

O alvi-azul gaúcho formou com: Candinho, Carazinho e Nonô; Torres, Chagas e Salvador; Tesourinha, Mauro, Cabral, Cará e Elário.

Na apreciação efetuada pelos dirigentes estrelados, o futebol alemão está muito bem. Os jogadores são rápidos e insinuantes. É tudo cronometrado. Marcam muito bem, porém lhes falta ainda uma maior intimidade com a pelota.

A empresa Associated Press (agência internacional de notícias), através do jornal Correio do Povo, em 19.04.1960, divulgou: “O Cruzeiro do Brasil que disputou até agora oito jogos, obteve quatro vitórias dois empates e sofreu duas derrotas. No Torneio da Páscoa o Cruzeiro derrotou o Bayern sexta-feira, o Vorvaerts, no sábado. Com estes dois triunfos e o empate com o Dínamo sagrou-se Campeão invicto do Torneio da Páscoa”.

Este foi o primeiro título intercontinental obtido por um clube gaúcho. O Cruzeiro se orgulha muito de ter sido campeão deste torneio. O Grêmio ufana-se de ter conquistado a Copa Toyota, no Japão, disputando apenas um jogo. O Cruzeiro disputou vários jogos para conseguir seu título. A Comissão Organizadora do Torneio ofertou, ao Cruzeiro, um fino troféu de Porcelana de Saxe, avaliado em 40 mil cruzeiros, ao câmbio da época. A delegação estrelada não pôde comemorar como desejava a conquista intercontinental invicta do Torneio da Páscoa, uma vez que no dia seguinte, feriado na Alemanha, deveriam estar em Rostok para outra disputa esportiva.
AINDA NA ALEMANHA


O empresário aproveitou que o dia 18 de abril era feriado na Alemanha e marcou outro jogo para o Cruzeiro. De avião, o clube do escudo estrelado foi conduzido até próximo da cidade de Rostok, aonde chegou após viajar uma hora e meia de ônibus.


O próximo jogo do Cruzeiro era contra o S. C. Empar Rostok (clube que ocupava a terceira colocação no campeonato alemão). Esta partida foi assistida por vinte mil espectadores. Logo que iniciou a contenda, os alemães do Rostok inauguraram o marcador. A desvantagem inicial não abateu os estrelados que aos trinta minutos, ainda no primeiro tempo, igualaram o placar.


O golo estrelado foi marcado por Chagas. O jogo teve prosseguimento na segunda etapa, com o cruzeiro sempre a acossar a meta do Rostok, mas sem conseguir transformar esta superioridade em golos. O jogo terminou com o escore de um a um.


O elenco estrelado já começava a dar sinal de estafa, principalmente por causa das viagens constantes. O dr. Ernesto Di Prímio Beck foi dar um duro no empresário para que ele espaçasse mais os deslocamentos, a fim de que o clube possa recuperar os jogadores lesionados. O empresário, sr. Roberto Fauszlegier alegou que todos querem jogar contra o Cruzeiro e por isso fica difícil recusar os convites, o dr. Ernesto ponderou que devemos ter muito cuidado na marcação dos jogos, espaçando-os com critérios para salvaguardar o prestígio consolidado pelos cruzeiristas na Europa.
NOVAMENTE UM A UM


Em Rostok o Cruzeiro não permaneceu nem vinte e quatro horas. Após o jogo, o clube gaúcho viajou para Hamburgo onde pernoitou, para depois viajar para Aachen, uma das cidades mais importantes da Alemanha Ocidental, com perto de quinhentos mil habitantes e onde se localiza o túmulo de Carlos Magno, imperador dos francos, durante a Idade Média.

Ainda quando se encontrava em Hamburgo, a embaixada cruzeirista recebeu a visita do famoso ator brasileiro José Lewgoy, que estava residindo na França e filmando na Europa. Lewgoy, além de gaúcho é torcedor do Cruzeiro, afirmou estar vibrando com o seu clube em campos europeus. Adiantou também, que em setembro estaria em Porto Alegre, para filmar “Um rio imita o Reno”, que deverá ser rodado em São Leopoldo para uma companhia alemã.

Outra visita recebida foi a do empresário, sr. Julius Ucrainksic, residente em Paris e que havia levado o Santos à Europa. Ele queria organizar um roteiro da próxima excursão do Cruzeiro, em 1961, que já estava acertado com o Comitê Esportivo dos Países da Cortina de Ferro. Para quem não sabe, o sr. Julius já havia entrado em entendimentos com o Grêmio Porto Alegrense, que lhe forneceu amplos materiais de divulgação, para uma excursão à Europa. Esta excursão não se concretizou, pelo fato de ser apenas o Cruzeiro, dentre os clubes gaúchos, conhecido na Europa. E aí, seu repórter da Zero Hora, o que me dizes a respeito?

O jogo contra o Aachen foi realizado na quarta-feira, dia 20 de abril, perante uma lua crescente e reuniu uma assistência de quinze mil entusiásticos espectadores, que não se cansavam de aplaudir as boas jogadas realizadas pelas duas equipes.

O primeiro tempo da partida terminou com o escore em branco. Porém, na segunda etapa, Frivaldi, da equipe local, aos vinte e nove minutos abriu o marcador, cabendo a Tesourinha II igualar o placar aos trinta e dois minutos, dando as cifras definitivas deste encontro.O Cruzeiro formou com: Candinho, Torres e Nonô; Cacique, Carazinho e Salvador; Tesourinha, Mauro, Raul, Cará e Chagas.

A GUERRA FRIA


Com o final da Segunda Guerra Mundial e os interesses imperialistas dos vencedores, o mundo ficou dividido em dois blocos de influência econômica. A Alemanha nazista, derrotada na Guerra, foi dividida. De um lado, foi criada a República Federal Alemã, mais conhecida como Alemanha Ocidental, sob a liderança econômica dos Estados Unidos da América e pertencente ao bloco capitalista. Por outro lado, sob a influência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, pertencendo ao bloco comunista, surgiu República Democrática Alemã, a chamada Alemanha Oriental.


A capital da Alemanha Ocidental era a cidade de Bonn, enquanto que a Alemanha Oriental tinha sua capital na cidade de Berlim. O clima entre estes dois blocos econômicos era de uma possível guerra, que poderia estourar a qualquer momento. Este período histórico ficou conhecido como a Guerra Fria.


A iminência de um possível conflito entre os países envolvidos proporcionou a que a área sob a influência do bloco comunista fosse fechada ao trânsito livre das pessoas e das economias conflitantes. A descoberta da tecnologia da bomba atômica, pelos soviéticos, só fez aumentar este clima de tensão no continente europeu. Em 1946, Winston Churchill profetizava que uma cortina de ferro se ergueria na Europa.


Em 1960, quando o Cruzeiro foi à Europa pela segunda vez, tinha que jogar ora na parte Oriental, ora no Ocidente. Era um entra e sai. Ficou provado que a cortina não era de ferro. Poeticamente pode-se afirmar que o Clube da Montanha derrubou as barreiras da Cortina de Ferro. Foi o manto azul e branco do estrelado gaúcho vestindo o Leste europeu com as cores do Esporte Clube Cruzeiro.


Havia a previsão de uma nova excursão do Cruzeiro em 1961, da proposta constavam dez jogos na Cortina de Ferro, recebendo além das passagens de ida e volta e todos os deslocamentos, hospedagem e mais 150 mil cruzeiros livres, por jogo. Os jogos eram patrocinados pelo Comitê de Esportes dos Países da Cortina de Ferro. Porém, o estrelado gaúcho não realizou esta nova gira. Ao invés do Cruzeiro, foi o Grêmio. Partindo da premissa que se o Cruzeiro fez, o Grêmio pode fazer também. Foi convidado para disputar o Torneio da Páscoa, ficou em último. Foi uma bomba. Só fez criar mais tensão entre o Oriente e o Ocidente. Não sei ao certo. O que eu sei é que depois do Grêmio, os alemães orientais construíram um muro em Berlim, mais, para não receber nova visita do Grêmio do que para impedir a fuga de seus habitantes. Alemão bom não se mistura, diziam a época.


Brincadeiras à parte, como pioneiro deste contato entre Oriente e Ocidente, o Cruzeiro já denunciava ao mundo as diferenças econômicas entre as duas Alemanhas. Transcrevo parte da correspondência de Roberto Rohnelt aos Diários Associados, que dizia: “Não há dúvidas de que Berlim, esta tradicional Capital da Europa é uma das que mais sofreu com a última guerra”. “Ainda se nota claramente os reflexos da grande batalha mortal passada”. “Casas destruídas, outras com respingos das balas e até mesmo Igrejas quase que completamente avariadas, assim como outras coisas”. “Está tudo sendo reconstruído e a jato”. “No lado ocidental, especialmente”. “Lá é muito alegre e a vida noturna é intensa”. “No lado oriental existe muita pobreza, muito embora estejam trabalhando dia e noite para colocá-lo em seu verdadeiro lugar”. “Em qualquer dos lados, o tratamento recebido pelos estrangeiros é ótimo”.


Como podemos perceber, sem entrar em maiores detalhes, é possível identificar as diferenças existentes entre o bloco capitalista europeu e o bloco comunista. De um lado, com o capital em abundância, ficava fácil reconstruir um país, econômica e socialmente. Percebe-se quando o Robertinho se refere à intensa vida noturna existente. Do lado comunista, o gasto social é grande, aliado a despesa com armamentos e segurança, faz com que o trabalhador seja obrigado a doar mais de si, para o desenvolvimento da nação.


É lógico que muita gente conseguia entender esta situação. Mas ela só foi clarificada ao mundo em 1989, quando da queda do Muro de Berlim. O mundo todo pôde perceber aquilo que o Cruzeiro já divulgara há 29 anos. Coisa de louco! O Portal de Brandemburgo, hoje é apenas um monumento. A Alemanha está reunificada.

NA BÉLGICA


De Aachen, o Cruzeiro viajou na quinta feira, dia 21 de abril, para Liége, na Bélgica, cidade de um milhão de habitantes, para enfrentar no dia 23 de abril ao Standard. Em houve o encontro de velhos amigos. Num passeio pelas ruas da cidade, os membros da missão estrelada se encontraram -se com Irno, Mengalvio e Calvet, que excursionavam com o Santos.


Nesta noite, entraram em campo as duas equipes. Após os cumprimentos de praxe, iniciou-se a disputa internacional. O primeiro tempo terminou com a vitória parcial do Standard por dois golos a um. Na segunda etapa, os ânimos esquentaram e este jogo foi pontilhado por discussões e incidentes, que ofuscaram o brilho da apresentação.


Houve, tanto tempo de bola parada, quanto de bola em jogo. No final da contenda a equipe belga saiu de campo vitoriosa pela contagem de quatro a dois.


No dia 24 de abril, o Cruzeiro deixou a cidade de Liége e via aérea rumou para a Espanha, onde deverá estrear dia 27 de abril, contra o Sevilha.


CRUZEIRO NA ESPANHA


Os dirigentes da missão estrelada tentaram junto ao empresário um período maior de descanso, devido à estafa dos atletas e as viagens constantes. O empresário alegou que seriam cinco os jogos na Espanha e que eles já estavam acertados, portanto, era muito difícil à troca das datas.


O jogo contra o Sevilha F.C., ocorreu na noite de 27 de abril, perante uma assistência de vinte mil espectadores.Na primeira etapa desta disputa, as duas equipes demonstraram um jogo bonito e muito parelho, onde as defesas se destacaram sobre os ataques adversários. O placar não foi aberto.


Na segunda etapa, com a lesão de Nonô, houve um decréscimo na produção defensiva do Cruzeiro, permitindo a infiltração dos rápidos atacantes andaluzes. O ataque estrelado demonstrou ótimo domínio de bola, muita técnica, mas ineficiência nas conclusões. Não conseguiram se sobrepor à sólida defensiva espanhola.


Mas devido à estafa, o Cruzeiro de sinal de cansaço e acabou entregando o jogo aos trinta e cinco minutos do segundo tempo, quando o ponteiro esquerdo sevilhense Szalay marcou o primeiro golo da equipe espanhola. O placar seria movimentado novamente aos quarenta e três minutos, com um golo assinalado pelo meia-direita Aguilera e finalmente aos quarenta e cinco minutos, através de Perada.

Nesta derrota por três a zero, para o Sevilha, Candinho, goleiro do Cruzeiro foi o melhor jogador estrelado, secundado pelos zagueiros Torres e Carazinho. O clube gaúcho formou com: Candinho; Torres, Ivo e Nonô (Carazinho); Chagas e Salvador; Tesourinha II, Mauro, Elário, Cará e Tonico.



REAL MADRID E BARCELONA QUEREM JOGAR COM O CRUZEIRO

Com os jogos do Troféu Salvador Vilarrasa já acertados, surgiu à possibilidade de fazer mais duas apresentações na Espanha. Estes jogos seriam contra as duas mais poderosas representações do futebol ibérico. A primeira partida seria contra o Real Madrid, a ser realizada dia 10 de maio, terça-feira e a outra contra o poderoso bicampeão espanhol o Barcelona, no sábado dia 14. A missão estrelada se sentiu honrada com a deferência do convite e ficou de estudar as possibilidades.

A delegação cruzeirista visitou o novo estádio do Barcelona, que ainda estava em obras, mas saíram encantados com o que puderam presenciar. È um estádio programado para acomodar 150 mil espectadores, possui instalações para amplos departamentos médicos e dentários, além de possuir local para treinamentos com dois campos e naturalmente, o campo principal apenas para a realização dos jogos.



TORNEIO SALVADOR VILARRASA


Para comemorar as “Fiestas e Feiras De La Cruz”, a cidade de Figueras, na Espanha, promove um conjunto de festividades, onde o futebol não poderia ficar de fora. O torneio realizado nesta época é um dos mais importantes da Espanha. Para disputar estes jogos são convidados clubes espanhóis e também estrangeiros. Para o torneio de 1960, quatro equipes foram convidadas a participar, são elas: Cruzeiro de Porto Alegre, Toulouse da França, R.C.D.Espanhol de Barcelona e o U.D.Figueras.
O troféu em disputa é uma copa de prata, muito bonita, artisticamente confeccionada e avaliada em cinqüenta mil pesetas. O Torneio Salvador Vilarrasa é um certame eliminatório e os vencedores continuam. Serão apenas dois jogos para o vitorioso. Diante da categoria das equipes litigantes um enorme público era esperado no dia dos jogos, acreditando os organizadores do evento, que o estádio, palco do grande jogo, estará completamente lotado.


O Cruzeiro, já mais tranqüilo com alguns dias de folga, que proporcionaram a recuperação dos atletas lesionados, pôde, então, pensar seriamente nos jogos que disputaria. Seus adversários já eram conhecidos de longa data. Os estrelados haviam sido derrotados pelo Toulouse, em 1953 e vencido ao Espanhol, por duas vezes em 1954.

Definido os jogos, coube ao Cruzeiro enfrentar na primeira disputa ao esquadrão do Figueras, os donos da casa, na inauguração do torneio. O outro jogo será entre o Espanhol e o Toulouse.



CRUZEIRO x FIGUERAS


A disputa pelo Troféu Salvador Vilarrasa iniciou no dia 3 de maio, no Estádio Municipal de Figueras. Oito mil espectadores estavam presentes ao evento. A equipe do Figueras estava reforçada pelos brasileiros: Joel, Didi, Vavá e Evaristo, jogadores que foram campeões pelo Brasil na Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Só este fato já demonstrava a importância desta partida.

O primeiro tempo do jogo foi muito disputado, mas que teve o predomínio técnico e tático do Cruzeiro, que dominava as ações, apresentando um futebol rápido e bonito. Seu estilo “filigranado e harmonioso” foi muito elogiado pelos espanhóis.

A defesa estrelada esteve soberba, contendo muito bem os ataques efetuados pelo Figueras. O primeiro golo do jogo, obra de Cará, aos vinte oito minutos e o segundo feito por Cabral aos vinte nove, marcaram o escore da primeira etapa.

Na segunda fase, o Cruzeiro voltou decidido a continuar dominando o jogo e marcando mais golos. Porém, não esqueça, que o Figueras contava com o ataque reforçado por quatro jogadores da Seleção Brasileira de 1958, Campeã do Mundo. E estes jogadores realizavam jogadas, com muito brilho.

O Cruzeiro não se deixou levar por este ataque milionário. Aos dez minutos, Raul Tagliari, que havia substituído Cabral, por motivo de lesão, marcou o terceiro golo do alvi-azul gaúcho. Aos vinte minutos coube a Vavá anotar o primeiro golo do Figueras. Tesourinha II, aos vinte seis anotou o quarto golo do Cruzeiro. Mas quem tem Didi no time está sujeito a fazer mais golos e foi o que aconteceu aos 29 e 34 minutos. Mesmo com o ataque da Seleção Brasileira, o Figueras não conseguiu vencer a equipe brasileira, que se sagrou vencedora da disputa pelo escore de quatro a três.


As duas equipes formaram com:
Cruzeiro: Candinho; Ivo e Nonô; Torres, Salvador e Cacique; Tesourinha II, Mauro, Cabral (Raul), Cará e Chagas.
Figueras: Series; Quartango e Roca; Coll (Arana), Vilches e Gimeno; Joel, Didi, Vavá, Evaristo e Suco.


ESPANHOL x TOULOUSE


No dia seguinte houve a disputa entre as equipes do Espanhol e do Toulouse, vencida pelos espanhóis, que se qualificaram, desta forma, para jogar com o Cruzeiro, na partida final e ver quem leva a taça.



A DECISÃO DO TÍTULO

No dia 5 de maio, as equipes vitoriosas voltaram a campo para decidir com quem ficaria o Troféu Salvador Vilarrasa. O Cruzeiro vencedor da disputa com o Figueras foi o primeiro a se credenciar para esta disputa. O R.C.D. Espanhol, conseguiu na vitória sobre o Toulouse da França, a garantia de sua vaga para a disputa final entre os vencedores.


Este jogo possui história, Espanhol e Cruzeiro iriam se enfrentar pela terceira vez, nos dois primeiros encontros o estrelado gaúcho foi o vitorioso pelas contagens de quatro a dois e dois a um. O que iria acontecer desta feita? A expectativa para este encontro futebolístico era muito grande.


O jogo foi realizado dia 5 de maio à noite, no Estádio Municipal de Figueras. A vitória neste prélio coube ao Espanhol pela contagem de quatro a dois, sendo que todos os golos foram marcados na primeira etapa. “Nem todo dia santo é feriado”, diz o ditado popular. O Espanhol jogou como se fosse uma Copa do Mundo, não poderiam perder a terceira vez para o Cruzeiro.


Campos, ponteiro esquerdo do Espanhol foi a melhor figura em cancha e anotou três dos quatro golos da equipe espanhola. Para o Cruzeiro, Tonico marcou aos 32 e 44 minutos. O Espanhol venceu e sagrou-se campeão do Troféu Salvador Vilarrasa com: Joanet; Argiles, Bártoli e Daudier; Recaman e Muñoz; Ribas, Rivera, Índio, Aguirre e Campos.
O Cruzeiro, Vice-Campeão, formou com: Candinho; Torres, Ivo e Nonô; Salvador e Cacique; Tesourinha, Mauro (Tonico), Raul, Cará e Elário.


FIGUERAS e TOULOUSE

Na decisão do terceiro lugar na tabela de classificação, o Toulouse se deu bem, vencendo a equipe do Figueras pela contagem de cinco a três.


AINDA NA ESPANHA

Após ter-se sagrado vice-campeão do Troféu Salvador Vilarrasa, o Cruzeiro teve alguns dias de descanso. Poucas informações circularam em Porto Alegre a respeito deste período. Foi aventada a possibilidade de um jogo contra o forte esquadrão do Desportivo La Corunha, na cidade do mesmo nome, na data de 10 de maio.




CRUZEIRO CONTRA O ATLÉTICO BALEARES


O jogo não se realizou e o clube do escudo estrelado somente foi realizar seu próximo compromisso dia 15 de maio, em Palma de Mallorca, situada nas Ilhas Baleares, contra a equipe local do Atlético Baleares, clube da segunda divisão espanhola.




Realizado no Estádio Balear, presenciado por quinze mil espectadores e arbitrado com muito acerto e correção pelo sr. Martorel, árbitro da Federação espanhola. Os brasileiros dominaram as ações durante todo o jogo. Efetuando jogadas rápidas, precisas e com excepcional senso de colocação em campo, tanto na defesa como no ataque, o Cruzeiro deixou muito claro o seu domínio. A equipe do Atlético, perante a pressão imposta pelo estrelado gaúcho, foi obrigado a se defender constantemente. Embora, tenha reagido em algumas oportunidades.

O placar foi movimentado pela primeira vez aos dezoito minutos, num belíssimo golo de Mauro. Aos dezenove minutos foi a vez de Elário marcar o segundo golo cruzeirista. Raul aos trinta e cinco minutos anotou o terceiro golo estrelado. Todos que assistiram a partida, destacaram o jogo coletivo como a maior virtude da equipe brasileira, havia um perfeito entendimento em todas as suas linhas, proporcionando jogadas brilhantes. Com toda esta superioridade apresentada, ninguém estranhou que o Cruzeiro finalizasse o primeiro tempo vencendo por um escore de três a zero.

Na segunda etapa o clube gaúcho voltou arrasador, logo aos dois minutos Cará marcou o quarto golo. O quinto ocorreu aos dezessete minutos, obra de Raul Tagliari. O primeiro golo do Atlético só foi ocorrer aos dezenove minutos por intermédio de Sita. Porém, Elário, aos vinte cinco minutos marcou o sexto golo dos brasileiros e Moreira foi o autor do segundo golo do Atlético.


O resultado de seis a dois veio a premiar a brilhante exibição coletiva apresentada pelo Cruzeiro durante os noventa minutos deste espetáculo que agradou a todos por sua beleza. A torcida entusiasmada não se conteve e de pé aplaudiu durante dez minutos a equipe estrelada, após o jogo. O jornal gaúcho Correio do Povo (17.05.1960) divulgou notícia originada pela Associated Press, em suas páginas esportivas que dizia: “O Atlético foi incapaz de conter o jogo em estilo avalanche dos brasileiros”. “Teve que se limitar a jogar na defensiva, mas, assim mesmo não pôde conter o conjunto visitante”.

O ponteiro direito Tesourinha II está sendo cobiçado por grandes clubes espanhóis, jogou tanta bola que os ibéricos apelidaram-no de “El diablo”, destacaram-se também Candinho e Raul Tagliari.

O Cruzeiro formou com: Candinho, Torres, Ivo e Nonô; Salvador e Cará; Tesourinha, Mauro, Raul, Tonico e Elário.
O Atlético Baleares teve a defender suas cores, os seguintes atletas: Gás, Oliva, Ferrer e Daga; Contaliopa e Villar; Sita, Ricardo, Ceva, Romancito e Morey.
NA FRANÇA


Da Espanha, a missão estrelada em gira pelo Velho Mundo, foi para a França, mais precisamente na cidade de Limoges para enfrentar o esquadrão local. O clube francês reforçou seu plantel com jogadores de outras agremiações e se preparou condizentemente para o espetáculo.

Chovia bastante na noite de terça-feira do dia 17 de maio, data deste encontro internacional, que mesmo abaixo do mau tempo foi realizado. O placar do jogo foi totalmente construído na primeira etapa. Não havia ainda decorrido um minuto e o Cruzeiro armava seu ataque, quando Tesourinha II num magnífico cruzamento colocou Elário em frente ao arco francês. O ponteiro esquerdo gaúcho arrematou com sucesso, fazendo o primeiro golo da partida.

Aos vinte oito minutos, o juiz marcou um pênalti para a equipe do Limoges. François Remetter, arqueiro da Seleção Nacional da França foi cobrar a pena máxima. Ao converter, empatou a partida. Porém, Raul Tagliari, aos trinta e cinco minutos, assinalou o segundo golo estrelado, desempatando o cotejo.

A segunda etapa foi muito disputada e com os nervos acirrados, mas não houve modificação do placar. O jogo terminou em meio a uma confusão. O zagueiro francês Henri Kowal afirmava ao juiz ter sido atacado por vários jogadores brasileiros, momento em que o árbitro da contenda resolveu assinalar o final deste match internacional em que o Cruzeiro se saiu vencedor. Ao final da disputa, a Direção do Limoges ofertou ao Cruzeiro uma fina Copa de Porcelana e cada membro da delegação recebeu uma lembrança comemorativa do evento.

Os jornais franceses da cidade de Limoges elogiaram bastante a maneira de jogar da equipe gaúcha do Esporte Clube Cruzeiro, que venceu esta disputa com o Limoges por dois a um.



NA BÉLGICA NOVAMENTE


Após sair da França os cruzeiristas rumaram para Jambes, na Bélgica, onde deveriam enfrentar uma equipe da cidade de Namur, mas para surpresa geral o Cruzeiro foi colocado frente a equipe do Anderlecht, tetracampeã, atual segunda colocada no certame nacional e cuja equipe possui sete jogadores titulares da seleção belga. Os críticos locais acreditavam que grande número de aficionados assistiria esta disputa por causa das referências elogiosas dos jornais franceses sobre a apresentação estrelada na cidade de Limoges.


O céu nublado da noite belga, após ter chovido intensamente por uma hora, deixou o gramado encharcado e também contribuiu para afastar os torcedores do estádio, que recebeu um público de cerca de quatro mil espectadores.

A primeira etapa foi muito disputada e o Anderlecht teve o comando das ações. O mau estado do gramado prejudicou as duas equipes, que não puderam desenvolver todo o seu potencial. A equipe local fez perigar a meta guarnecida por Candinho em dois momentos, a primeira vez quando o cronômetro marcava trinta minutos, Van Hinst chutou forte e a bola se chocou contra o travessão, a segunda, foi aos trinta e dois minutos quando Candinho, já quase abatido se esticou e conseguiu defender o arremate dos belgas.

O Cruzeiro reagiu nos minutos finais do primeiro tempo e dominou amplamente as ações até os vinte minutos iniciais da segunda fase, quando criou boas chances de abrir o marcador por intermédio de Tesourinha II e Elário, mas esbarrou na boa atuação do goleiro belga.

O Anderlecht voltou a controlar o jogo, mas seu domínio territorial foi infrutífero, pois a defesa estrelada estava muito bem postada.

Neste jogo, arbitrado pelo sr. Geluck, o Cruzeiro de Porto Alegre empatou com a equipe belga do Anderlecht em zero a zero, mas foi um empate com sabor de vitória. O Anderlecht formou com: Trappeniers; De Vogelaere e Culot; Van del Wilte, Dacse e Hanon; Wolbling, Plascie, Van Hinst, Van den Bosch e Danneau.

A disputa entre Cruzeiro e Estrela Vermelha, foi realizada na cidade de Bratislava, em 25 de maio, perante uma assistência de doze mil espectadores. A CTK informou que a equipe tcheca jogou desfalcada de seus quatro melhores atletas que estavam convocados pela seleção nacional que iria medir forças com a Romênia.

O jogo iniciou com o predomínio das ações por parte da equipe tcheca, porém este domínio era apenas aparente, tendo em vista que seus ataques eram contidos na entrada da área. Mesmo assim, houve uma superioridade dos locais. Na segunda fase deste encontro internacional, o técnico Carlos Froner resolveu mexer na equipe cruzeirista, fazendo algumas substituições, colocando Joel, José e Cacique, nos lugares de Mauro, Raul e Salvador. As modificações surtiram o efeito desejado e os brasileiros equilibraram as ações.

O resultado final foi justo e o placar permaneceu mudo como havia começado. Para defender suas cores o Cruzeiro contou com: Candinho; Torres, Tonico e Ivo; Salvador (Cacique) e Nonô; Tesourinha, Mauro (Joel), Raul (José), Cará e Elário. A equipe cruzeirista, após o jogo, foi vivamente aplaudida pelos torcedores presentes ao estádio.

CONTRA O SLOVAN

Na segunda apresentação na Tcheco-Eslováquia, dia 27 de maio, o Cruzeiro enfrentou o Slovan, da cidade de Nitra. Os estrelados apresentaram um futebol vistoso e filigranado, mas sem uma conclusão mais precisa. Houve muita troca de passes, dribles, mas na hora de arrematar a coisa não ia muito bem.

Com o Slovan aconteceu o contrário, mesmo sem apresentar um futebol desenvolto, foi muito objetivo em suas jogadas de ataque. Apesar das poucas chances que tiveram para marcar, os jogadores tchecos aproveitaram-nas muito bem.

O primeiro tempo findou com a vitória parcial do Cruzeiro por um a zero, tento assinalado por Tesourinha II. Porém, na segunda etapa o Cruzeiro cansou e o Slovan aproveitou para marcar dois golos.

O Cruzeiro formou com: Candinho; Ivo e Nonô; Torres, Cacique e Tonico; Tesourinha II, Mauro, Raul, Cará e Elário.

NA SUÉCIA

Apesar de ter jogado dia 27 na Tcheco-Eslováquia, o Cruzeiro voltou a campo no dia 28 de maio, jogando na Suécia, em Helsingbord, contra o esquadrão local. Poucas foram às informações que circularam em Porto Alegre sobre este jogo, sabe-se apenas que o Cruzeiro colheu uma expressiva vitória sobre o Helsingbord pela contagem de dois a um.

Na Dinamarca

Da Suécia, o Cruzeiro rumou para Copenhagem, capital da Dinamarca, para realizar dia 31 de maio mais um espetáculo futebolístico, desta vez contra a equipe do Alliancem, clube local, que conta em suas fileiras com sete jogadores titulares do selecionado nacional dinamarquês.

A equipe do Alliancem é uma verdadeira seleção, além de ser o campeão nacional, todos os atletas são sócios do clube e a maioria de seus jogadores pertence à Seleção Olímpica, que, este ano, irá disputar a Olimpíada em Roma. A Seleção Olímpica da Dinamarca é forte candidata ao título no futebol, só para exemplificar, pouco tempo antes deste jogo do Alliancem com o Cruzeiro, a Seleção dinamarquesa foi derrotada por quatro a três, apenas para a Seleção dos Campeões do Mundo.

O jogo foi realizado no Estádio Olímpico de Copenhagem perante uma assistência de seis mil espectadores. No início da contenda, os estrelados tiveram alguma dificuldade ao se movimentar devido ao estado lamacento que se encontrava o gramado. A primeira etapa terminou com o marcador assinalando um a zero para o Alliancem, golo marcado pelo ponteiro esquerdo Andersen, aos trinta e sete minutos.

Depois de acostumados ao estado lamacento do gramado, o Cruzeiro retomou as rédeas do jogo, porém só conseguiu o golo de empate aos vinte quatro minutos do segundo tempo, por intermédio de Cará. Ampliou o marcador com um belíssimo tento assinalado por Mauro aos vinte sete minutos. Raul Tagliari aumentou para três os golos do Cruzeiro aos trinta e um minutos.

Na segunda etapa o futebol apresentado pelo Cruzeiro deslanchou, esbanjou categoria e dominou as ações. Porém, aos trinta e oito minutos foi a vez do Alliancem marcar, por intermédio de Jorlan Hansen.

O Cruzeiro formou com: Picasso; Salvador e Nonô; Torres, Cacique e Tonico; Tesourinha II, Raul, Mauro, Chagas e Cará.

BRILHA O CRUZEIRO NA EUROPA

O cronista Remy Gorga Filho, do jornal Diário de Notícias, edição 01.06.1960, sobre a vitória do estrelado gaúcho na Dinamarca publicou o que segue:
“Vitória espetacular do Cruzeiro em campos da Dinamarca”. ... “Continua, assim, o Cruzeiro a colher bons resultados nesta sua já longa maratona pelos campos do Velho Mundo”.
“Um 3x2 brilhante faz subir o cartaz dos cruzeiristas e os credencia para a próxima temporada em Porto Alegre”. “Não há dúvida de que o clube de Repúlo irá brilhar este ano”.

AINDA NA DINAMARCA

Copenhagem ficou para trás e a frente da missão estrelada estava o próximo jogo, que deveria ser realizado na cidade de Randers, ainda na Dinamarca. O Cruzeiro chegou a esta cidade, precedido de muito cartaz, tendo em vista sua atuação anterior contra o Alliancem, onde se saiu vitorioso pelo escore de três a dois.

O treinador estrelado sr. Carlos Froner, em entrevista à crônica local afirmou que: “Os atletas cruzeiristas, apesar da fadiga a que estão submetidos, possuem plenas condições de realizar mais uma performance convincente”.

O jogo deverá ser contra um combinado local, onde os clubes Randers, Freja e AAB selecionaram seus melhores jogadores para vestir a camiseta do Randers e enfrentar o clube de Porto Alegre, que encantando por onde tem se apresentado.

O espetáculo ocorrido em 2 de junho, na cidade de Randers, despertou a atenção dos desportistas locais, que acorreram em massa ao estádio, para assistir o jogo da chamada “seleção B” da Dinamarca contra os brasileiros do Cruzeiro de Porto Alegre.

Com uma assistência calculada em oito mil espectadores, o jogo desta quinta-feira à noite foi memorável em todos os sentidos. Um espetáculo futebolístico de primeira grandeza, onde o Cruzeiro desenvolveu uma belíssima apresentação e o jogo foi recheado de golos.

Logo aos seis minutos da etapa inicial, o Cruzeiro iria abrir o marcador com um golo de Mauro. Aos dez minutos Overgaard empatou a partida. O alvi-azul gaúcho continuou apresentando um futebol vistoso, elegante, impressionava a platéia, que não se cansava de aplaudir as boas jogadas que eram realizadas.

Aos vinte nove minutos, ainda na primeira fase, Tesourinha II aumentou a contagem para os brasileiros. Cará marcou o terceiro golo estrelado aos trinta e dois minutos. Um minuto após era a vez de Knnud Christensen descontar para o Randers.
O marcador seria movimentado mais uma vez, ainda na primeira fase, aos quarenta e dois minutos, quando Leo Jensen empatou a partida. Delírio geral. O jogo era lá e cá, a platéia extasiada nem acreditava, que depois de estar perdendo por três a um ainda poderiam empatar.

O futebol brasileiro era o melhor do mundo, o futebol local era um dos melhores apresentados na Dinamarca. O intervalo foi o período que os torcedores conseguiram para recuperar o fôlego e voltar para a etapa final.

A segunda fase também foi emocionante, logo aos cinco minutos, o ponteiro esquerdo Elário num magnífico golpe de cabeça empurrou a bola para as redes do combinado Randers, Freja e Aalborg. O marcador de quatro a três não mais seria movimentado e o Cruzeiro se sagraria o vencedor desta disputa, passando invicto pela Dinamarca.

O Cruzeiro, neste jogo teve a seguinte formação: Candinho; Ivo e Salvador; Torres, Tonico e Cacique; Tesourinha II, Mauro, Joel, Cará e José.
 

O CRUZEIRO NA HOLANDA ---->
Esta rápida passagem do Cruzeiro pela Holanda não foi condizentemente divulgada em Porto Alegre, por este motivo, transcrevo a noticia que divulgou o jogo aqui na cidade.

Diário de Notícias (14.06.1960).

“CRUZEIRO VENCEU NA HOLANDA: 3 x 2”

Está mesmo esclarecido que o Cruzeiro realizou um jogo na Europa, cujo resultado (3x2) para o clube porto-alegrense, não chegou a ser publicado em Porto Alegre”.
“A descoberta foi possível graças a um cartão postal que recebemos do nosso enviado especial, Roberto Rohnelt, procedente da cidade Venlo, na Holanda, datado de 6 do corrente e que dizia: ‘Vencemos, hoje nesta cidade, a equipe local do mesmo nome, por 3 a 2’”.
“Como se vê, está descoberto o ‘prélio incógnito’ do Cruzeiro, na Europa”. “O clube do escudo estrelado já realizou, portanto, 24 jogos na sua atual ‘gira’ que deverá ser encerrada na Espanha, no dia 16 do corrente”.

A transcrição da nota é uma curiosidade. A informação a respeito do jogo vem a seguir.

Em seis de junho, o Cruzeiro jogou com o V.V.V., de Venlo, na Holanda. Esta equipe foi à vencedora da Taça da Holanda em 1960 e possui oito jogadores na Seleção dos Países Baixos. É classificada nos meios esportivos como uma das grandes equipes européias.

O Cruzeiro foi à segunda agremiação brasileira que jogou em Venlo. Antes, só havia jogado nesta cidade, em 1957, a equipe do Bahia, que perdeu o jogo pela contagem de três a dois.

O jogo teve início às 14h30minutos, sob um sol de rachar, o calor prejudicou um pouco a movimentação dos atletas em campo, principalmente no primeiro tempo. Mesmo assim, o jogo agradou a assistência. O placar foi movimentado ainda na primeira fase com um belo golo assinalado por Mauro.

No segundo tempo, Tesourinha II aumentou para dois. Os locais passaram a insistir mais nos arremates e conseguiram empatar o jogo. Porém, o juiz acabou anotando uma penalidade máxima a favor do Cruzeiro. Incrível, o árbitro local conseguiu ver um pênalti a favor do Cruzeiro. Ivo cobrou a pena máxima com perfeição, marcou o terceiro golo e garantiu a vitória estrelada. O surpreendente mesmo é que depois de ser penalizado, em outros jogos, com vários pênaltis, agora o Cruzeiro foi contemplado com um.

Diário de Notícias (08.06.1960) - Canto de Página -

CAMPANHA MERITÓRIA

“CAMPANHA MERITÓRIA vem fazendo o Cruzeiro nesta sua gira por gramados do Velho Mundo, a qual já se estende por quase três meses, com nada menos que 22 jogos realizados”. “Tamanho é o cartaz do alvi-azul da Montanha, que o empresário Fauszlegier está disposto a dobrar a cota até agora paga ao Clube da Montanha”. “O empresário ofereceu 160 mil cruzeiros por jogo que exceder a cota mínima, com o que não concordaram, aliás, acertadamente, os dirigentes do Cruzeiro”. “O cansaço e a estafa já estão tomando conta dos jogadores, o que poderá vir a ser causa de prejuízo total, botando a perder em alguns jogos o magnífico desempenho de até agora”. “Cumpre assim o Cruzeiro, sem alarde e sem muito estímulo inicial, sua segunda exitosa campanha no Velho Mundo, tendo já garantidos, pelo menos dez jogos no caso de desejar voltar à Europa, no próximo ano”.

MAIS UMA NA ALEMANHA

Voltando a Alemanha, o Cruzeiro jogou dia 11 de junho, desta vez em Dusseldorf, contra a equipe local do V.S.L. Osnabruck, clube da primeira divisão alemã.

A primeira etapa findou acusando o placar de um a zero para os locais. Na segunda fase o marcador foi ampliado para dois a zero. Este resultado assinalou a sétima derrota estrelada nesta excursão, que até o momento teve 24 jogos.

O CRUZEIRO FOI MULTADO

O C.N.D. Conselho Nacional de Desportos multou o alvi-azul gaúcho, em dez mil cruzeiros, por contrariar a legislação em vigor e levar, ao exterior, como responsável técnico da equipe o sr, Carlos Froner, que apesar de ser um ótimo treinador não possuía diploma de Educação Física.

O CRUZEIRO VOLTOU

O sol se pôs, iniciava a noite de 17 de junho de 1960. O relógio marcava 19h45min quando o avião da Panair do Brasil que conduzia a missão estrelada no seu retorno a Porto Alegre aterrizou no Aeroporto Salgado Filho. Presentes no local, os mais altos dirigentes cruzeiristas, os membros da Comissão Oficial de Recepção, além de uma multidão de torcedores que desde cedo aguardava a chegada da missão estrelada. Ao pousar o avião eram enormes as expectativas. Quando as portas se abriram, Cará foi um dos primeiros a aparecer, trazia em suas mãos o troféu conquistado com muito brilho na Alemanha. A seguir outros membros da delegação saíram do aparelho. O treinador Carlos Froner foi um dos últimos a descer. A multidão aplaudia, ovacionava, gritava o nome dos atletas. A alegria era muito grande.
O ambiente era de festa, todos demonstravam muito carinho na recepção aos integrantes da comitiva estrelada. Curiosamente, contrastando com a alegria cruzeirista, havia uma intensa escuridão no Aeroporto, causada por um inesperado e inexplicável racionamento de energia, que acabou tão logo a delegação iniciou seu cortejo até o centro da cidade.

Havia muita curiosidade dos presentes, a festa era intensa, todos queriam se abraçar, os atletas usando chapéus típicos do tirol desejavam rever seus familiares, pois a saudade era muito grande. Alguns, aproveitando-se da escuridão reinante conseguiram despistar e saíram ao encontro de seus familiares. Muitos choros, beijos e abraços. Emoção no reencontro, a filha de Carlos Froner chorava abraçada ao pai.

A escuridão reinante abreviou a estada no Aeroporto, fazendo com que a delegação rumasse para a sede do clube, no centro da Cidade. Formado o cortejo. Por onde passava, a delegação estrelada era aplaudida. Na sede social, na rua dos Andradas em frente a Praça da Alfândega, onde hoje se localiza a Galeria Di Prímio Beck foram prestadas as homenagens oficiais.

O dr. Antônio Pinheiro Machado Netto, em brilhante locução saudou a embaixada. O dr. Ernesto Di Prímio Beck, chefe da delegação recebeu das mãos do vereador Revoredo Ribeiro um fino cartão de prata oferecido pela Câmara Municipal de Porto Alegre.

O dr. Ernesto Di Prímio Beck também fez uso da palavra, agradecendo as manifestações de apreço que a delegação tem recebido e aproveitou para dizer que estava emocionado pelos feitos cruzeiristas no velho Mundo e que os jogadores da equipe foram os lídimos representantes do futebol gaúcho e brasileiro. Souberam honrar as tradições do futebol dos pagos e foram muito disciplinados.

Sobre o empresário, sr. Roberto Fauszlegier, o dr. Ernesto disse que ele cumpriu tudo o que havia prometido, não criando a menor dificuldade financeira ou contratual. Afirmou, que como empresário sacrificou o clube na busca de obter lucros cada vez maiores. Chamado a atenção, portou-se de maneira elegante.

A respeito das arbitragens, falou que em todos os lugares existem os bons e maus árbitros. Infelizmente parece que ao Cruzeiro quase sempre tocavam os maus. Na Espanha, os árbitros eram uma verdadeira calamidade, mas no norte da Europa eles são aceitáveis.

Contou que o Cruzeiro já tem, programada nova excursão para 1961 e ele deseja que o Clube venha carregado de troféus como ocorreu nesta gira. Ao finalizar sua fala houve muitos aplausos e gritos de “Viva o Cruzeiro”.

A festa continuou animada. A família cruzeirista aproveitou o momento da confraternização para exteriorizar sua alegria e otimismo no futuro do clube.


Este trabalho visou a repercussão das duas excursões que o Cruzeiro fez até a Europa e a Ásia nos anos de 1953 e 1960

Isto é tudo pessoal !
 
 
 
 
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