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A paz, num passe de mágica



Um professor universitário norte-americano achou há quase dez anos uma solução mágica para trazer esperança a centenas de pessoas que vivem em situação de conflito. E a solução é literalmente ‘mágica’: Tom Verner fundou a organização não-governamental “Mágicos Sem Fronteiras”, que tem como objetivo levar arte e divertimento a campos de refugiados em várias partes do mundo.

Verner, que está licenciado da cadeira de Psicologia na Universidade de Burlington, em Vermont (EUA), conta que estava viajando para uma reunião na Polônia quando foi chamado a fazer apresentações em campos da Macedônia e em Kosovo, depois da crise que expulsou aproximadamente um milhão de albaneses, em 1999. O convite foi da ACNUR, a Agência de Refugiados das Nações Unidas. “Quando percebi, havia feito 15 apresentações em uma semana”, disse Verner em recente entrevista para a Rádio das Nações Unidas.

“Durante minha passagem na Macedônia e em Kosovo, pude desenvolver uma habilidade de entender as necessidades dos refugiados, e perceber o encanto que a mágica poderia trazer para eles”, afirma. Em março daquele ano, Verner iria fazer 14 apresentações no campo de refugiados da Etiópia, atingindo mais de 10 mil pessoas. “Tudo o que trouxer alegria para esta parte do mundo é bem vinda”, diz Peter Okoye, representante da ACNUR em Adis Abeba, capital da Etiópia.

Quando tudo se despedaça

Para Verner, muitas crianças gostam das mágicas porque tratam de fazer o impossível se tornar possível. “Eu gosto de pensar que as apresentações trazem não apenas risadas, mas, talvez, em um nível mais profundo, sementes de esperança são plantadas. Eu comecei a perceber o quanto eles perdem a esperança lá. A mágica traz esperança. Quase tudo se despedaça e volta a existir [com em um dos números de Verner]. Essa é a mensagem que os refugiados precisam quando estão nos campos há meses ou até mesmo anos e pensam que voltar para casa é uma coisa impossível”.

“Esse show é inesquecível. Vamos falar sobre isso por um bom tempo”, diz entusiasmado John Pidor, refugiado por 13 anos e atualmente coordenador para a questão dos refugiados em Dimma, outro campo da Etiópia onde Verner se apresentou. Para John, esta é uma excelente forma de integração da comunidade. E Verner não está sozinho: sua esposa o acompanha nas apresentações. Pintora, Janet Fredericks aprendeu a trabalhar como palhaça e mímica. Para o futuro, Verner espera ter mais gente em sua equipe. Um repórter da ONU pergunta: que mágica Verner gostaria de fazer? Ele sonha em fazer desaparecer o que classifica como “arrogância política”, trazendo assim soluções negociadas entre os países.

Ele destaca que, em algumas culturas, a mágica pode ser muito real. Em alguns países, a mágica não é só divertimento. Faz parte da cultura local e funciona até mesmo como cura para algumas doenças. Verner procura respeitar as diferenças culturais, como em um campo na fronteira com o oeste da Etiópia, onde as crianças levavam a mágica a sério. Tão sério quanto o sonho de chegar o dia em que a espera vai acabar, e a hora de voltar para casa finalmente chegará.

Para saber mais

· Mágicos Sem Fronteiras: www.magicianswithoutborders.org
· Etiópia (ACNUR): www.unhcr.org/cgi-bin/texis/vtx/country?iso=eth
· Agência de Refugiados das Nações Unidas: www.acnur.org
· Rádio das Nações Unidas, em português: www.un.org/av/radio/portuguese/index.html
· Mágicos Sem Fronteiras em abril de 2003: www.unhcr.ch/cgi-bin/texis/vtx/home/opendoc.htm?tbl=NEWS&id=3e8c4d19f&page=news

Imagem: Verner, sua companheira Janet Fredericks e um voluntário para a mágica. UNHCR/M.Maasho
 

A origem do terror: a história dos clãs Saud e Bush



Dan Grossi tinha quarenta e nove anos e fora policial por mais de vinte em Tampa, na Flórida, Estados Unidos. Pela manhã, recebera um telefonema para realizar um serviço especial. “Perguntaram se eu estava interessado em escoltar estudantes sauditas de Tampa até Lexington (...), porque o departamento de polícia não podia fazer isso”. O dia: 13 de setembro de 2001. A ordem era ir até o aeroporto, onde haveria um jatinho fretado para ele e os sauditas em fuga. Neste momento, os Estados Unidos passavam pela sua maior crise interna em décadas e evidentemente todos os vôos estavam proibidos – uma determinação irrevogável da Federal Aviation Administration (FAA). “Nunca achei que isso fosse dar certo”. Manuel Perez, ex-agente do FBI e encarregado de ajudar na missão, reforçou o ceticismo na operação: “Ninguém está decolando hoje”. Havia, no entanto, um diferencial: dentro do jatinho decolariam membros das famílias bin Laden e Saud. Um dos pilotos chegou no começo da tarde ao Aeroporto Internacional de Tampa e disse a Grossi: “Este é o seu avião. Quando quiser, podemos ir”.

A história foi contada pela primeira vez no Tampa Tribune, em outubro de 2001, e detalhada por Craig Unger no livro “As Famílias do Petróleo”, que organiza e explicita as relações entre os clãs Bush, dos EUA, e Saud, da Arábia Saudita. Uma busca feita por Unger dois anos depois em todos os jornais norte-americanos, usando o sistema Nexis-Lexis, mostrou que nenhuma outra publicação achou o acontecimento de interesse público.

Ordem veio de cima

Viajaram Grossi, Perez e três sauditas aparentando vinte e poucos anos, por volta das quatro e meia da tarde. A surpreendente exceção aberta ao vôo fez Perez concluir que a ordem vinha “do nível mais alto do governo”. No mesmo dia, o príncipe Bandar Saud – um dos homens mais poderosos da Arábia Saudita e o mais influente árabe nos Estados Unidos – estava reunido com George W. Bush, pensando de que forma travariam a “guerra contra o terror”. A identidade dos sauditas nunca fora revelada oficialmente. Grossi a Unger: “Foi tudo tão depressa. Só sabia que eram sauditas. Tinham boas relações. Um deles me disse que o pai ou o tio eram amigo de George Bush pai”.

A FAA diz que o vôo nunca existiu. “Não consta em nossos registros (...) Não aconteceu”, afirmou Chris White, porta-voz do órgão, ao Tampa Tribune. A Casa Branca também negou. A riqueza de detalhes, no entanto, foi confirmada pelos dois norte-americanos presentes, repercutidas por Unger.

Uma hora e quarenta e cinco minutos depois, chegaram ao Aeroporto Blue Grass, em Lexington, destino comum dos sauditas adeptos de corridas de cavalos. Os bin Laden, boa parte tendo rompido com Osama, são pessoas ricas que estudam em excelentes faculdades e moram em lugares de luxo, como por exemplo uma cobertura no Soho, em Nova Iorque, cujo aluguel custa seis mil dólares mensais. No aeroporto, um norte-americano e um 747 com letras árabes na fuselagem os esperavam. “Em todo o país”, conta Unger, “membros da grande família bin Laden, do clã Saud e seus colegas estavam se reunindo em vários locais”. Ele contabiliza pelo menos sete outros aviões disponíveis para tal fim.

O FBI também adotou a estratégia de negar a coordenação, mas desmentiu involuntariamente a Casa Branca e a FAA. “Posso declarar sem erro que, seja como for, o FBI não teve nenhum papel para facilitar esses vôos” (agente especial John Iannarelli, em entrevista a Unger). Bandar declarara à CNN: “Com a coordenação do FBI, tiramos todos de lá”. Os aviões da família bin Laden, em ação conjunta com a Casa Branca e a família Saud, recolhiam membros em Los Angeles, Orlando (Flórida), Washington e, finalmente, Boston. Pousaram no Aeroporto Logan, em 19 de setembro.

Agente do FBI tentou identificar passageiros

Foi de lá que partiram os dois aviões que se chocaram com as Torres Gêmeas. Dale Watson, ex-agente do FBI, lembra ter “criado a maior confusão no escritório de Bandar” ao tentar descobrir quem estava no avião. O próprio Watson participou da repatriação dos sauditas. Registra-se que quinze dos dezenove seqüestradores dos atentados de 11 de setembro eram sauditas. “Bandar queria que o avião partisse e insistíamos que o avião não ia decolar antes de sabermos exatamente quem estava a bordo”. A ordem também causou a ira e curiosidade de Tom Kinton, diretor de aviação do aeroporto, e de Virginia Buckingham, chefe da Superintendência de Portos de Massachusetts, que administra o aeroporto. “Estávamos no meio do pior ato terrorista da história e íamos assistir a uma evacuação de bin Laden!”, disse Kinton. Virginia completou, ao Boston Globe: “Meus funcionários perguntavam: o FBI sabe? O Departamento de Estado sabe? Por que estão deixando essa gente ir embora? Foram interrogados? Foi uma coisa ridícula”.

No meio do caminho de Watson, Kinton e Buckingham na busca pela verdade estava o clã Saud, que controla a Arábia Saudita há décadas e possui as maiores reservas de petróleo do mundo. Mantém o poder em aliança com o fundamentalismo wahabita, “seita muçulmana ruidosa e puritana que constituía campo fértil para a criação de uma rede global de terroristas ansiosos por uma jihad violenta contra os Estados Unidos”, conforme descreve Craig Unger. As relações com a “terra da liberdade” continuavam, no entanto, conforme O Corão prega: “Não perguntes sobre aquilo que, se te for explicado, poderá trazer-te problemas”.

Laços comerciais robustos

A família bin Laden (ou “Binladin”), igualmente, possuía laços tão estreitos com o status quo norte-americano que até mesmo os mais fervorosos críticos da Casa Branca acabam por se impressionar. A robusta construtora Saudi Binladin Group (SBG) fazia operações bancárias com o Citigroup e investia em grandes corretoras como Goldman Sachs e Merril Lynch. A lista de parceiros inclui Disney, Hard Rock Café, Snapple e Porsche. Em meados da década de 90, continua Unger, uniram-se a vários membros do clã dos Saud e se associaram ao ex-secretário de Estado James Baker e ao ex-presidente George H. W. Bush, o Bush pai, para investir no Carlyle Group, enorme empresa privada de investimentos com sede em Washington. Com tanta intimidade, é de se estranhar que a operação não tenha sido mais rápida e eficiente.

Enquanto isso, jornais supostamente “críticos” dos Estados Unidos, como o New York Times, repercutem a idéia de que os serviços de inteligência “falharam” em prevenir os atentados do 11 de setembro. O que Craig Unger demonstra por “A” mais “B” é que parte dos serviços de inteligência estava, na verdade, trabalhando para o esquema de poder que sustentou boa parte das operações terroristas. Unger resume, ao final do primeiro capítulo de seu livro: “(...) por mais horrível que pareça, o relacionamento secreto entre essas duas grandes famílias [Saud e Bush] ajudou a deflagrar o terror e deu origem à tragédia de 11 de setembro”.

Talvez não tenhamos a idéia exata do poder da família Saud, mas basta lembrar que os sauditas, para demonstrar apoio na suposta “guerra contra o terror”, despacharam nove milhões de barris para os Estados Unidos. Em conseqüência, o preço do barril caiu instantaneamente de 28 para 22 dólares.

Uma pergunta indesejável

Entende-se que parte dos passageiros nada tinha a ver com Osama bin Laden, ou com os atentados ocorridos dias antes. “Por outro lado”, escreve Unger, “(...) Uma caçada humana global de proporções sem precedentes estava em andamento. Milhares de pessoas tinham acabado de ser mortas por Osama bin Laden. Não faria sentido pelo menos entrevistar seus parentes e outros sauditas que, conscientemente ou não, poderiam tê-lo ajudado?” Além disso, lembra, em todo o país árabes inocentes foram presos, interrogados e torturados – o que a CIA chama de métodos especiais de interrogatório – pelo simples fato de serem árabes. Segundo indícios levantados por Unger, constata-se que também pelo fato de serem pobres e sem influência no clã Bush.

“Não há por que pensar que todos os membros de sua família [bin Laden] o renegaram”, disse Paul Michael Wihbey, filiado ao Instituto de Estudos Políticos e Estratégicos Avançados, ouvido por Unger. O jornalista aponta também outros dois parentes de bin Laden – Mohamed Jamal Kalifa e Kalil Binladin – como personagens envolvidos com o terrorismo e trabalhando ativamente para a Al-Qaeda. A agência de notícias alemã Deutsche Presse-Agentur chegou a noticiar que Kalil era suspeito por possuir negócios em Minas Gerais e possivelmente um centro de treinamento terrorista em Belo Horizonte, ligada ao Hezbollah.

No escândalo Irã-contras, na ajuda secreta dos EUA ao grupo de Osama bin Laden no Afeganistão na década de 70, no apoio ao ditador genocída Saddam Hussein nos anos 80, no apoio dos sauditas à empresa petrolífera de Bush filho (Harken Energy), na Carlyle Group, na Guerra do Golfo em 1991 e, agora, na repatriação de sauditas após o 11 de setembro – em todos os casos acima citados, os clãs Saud e Bush compartilham, citando Unger, “segredos que envolviam riqueza pessoal incalculável, poderio militar espetacular, os recursos energéticos mais ricos do mundo e os crimes mais odiosos que se pode imaginar”.

Informações como estas são a ponta do iceberg e servem para começarmos a calcular o grau de desinformação e manipulação na qual a imprensa está imersa, brutalmente distante do verdadeiro jogo de poder existente em duas das maiores dinastias atualmente existentes – uma delas fantasiosamente nomeada “democracia norte-americana”.

Para ler
UNGER, Craig. As famílias do petróleo: as relações secretas entre os clã Bush e Saud; tradução: Maria Beatriz de Medina. Rio de Janeiro, Record, 2004, 418 pág. Título original: House of Bush, House of Saud.

Autor do livro
Craig Unger foi subeditor do New York Observer e editor-chefe da revista Boston Magazine. Publicou artigos sobre George H. W. Bush e Goerge W. Bush para as revistas New Yorker, Esquire, Vanity Fair, é consultor da CNN sobre a indústria do petróleo e as relações entre Arábia Saudita e Estados Unidos. Mora em Nova Iorque.

Autor do artigo
Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net e pesquisador na Escola de Comunicação da UFRJ. Contribui para o Núcleo Piratininga de Comunicação, o diário Fazendo Media e para o portal Jornalistas.com
 

Café, no singular

Eu pretendo me formar em capitalismo para me tornar um 'jornalista sem fins lucrativos', como diria o Millôr, ou sem um fim lucrativo, pensando bem, para poder falar do dinheiro dos outros, desde que o meu esteja lá no banco, mesmo que o banco não seja o meu, mesmo que o meu seja do banco, por decreto oficial e acomodação em praça pública. Desde que o dinheiro acabou, tenho pensado em fazer um café (porque ainda tem café), reclamar do governo (porque ainda tem governo) ou sair para dar uma volta (porque ainda nos é permitido, entre 7 e 20 horas, que é quando todos nós trabalhamos e não temos tempo para dar voltas, reclamar do governo ou tomar café, no singular).

O café, no singular, ainda é um grande produto nacional, assim como as bundas e o narcotráfico. A gente entra com o produto, deixa passar tudo e ganha 10%, bruto. O narcotráfico, no caso, mas com as bundas é parecido. Já os nacionalistas vendem nossa imagem lá fora, liquidam o café, o café vira europeu, a gente traz o café de volta, paga quatro vezes mais pelo café e diz que o café é melhor. É que o que era brasileiro e passou a ser estrangeiro tem um quê de superação de raça, uma coisa bonita de deixar um passado ruim pra trás.

A crise é uma grande oportunidade para crescer, se você for um banqueiro, gerente de multinacional, o presidente da Re-"pública" (sei, sei) ou estiver na família de um dos supra-citados, ad extremum, ipso jure, saúde! Crescem as fortunas, crescem as demandas por mordomos, crescem felizes os filhos do mordomo! Crescem todos!

Em primeiro mão, gostaríamos de anunciar o contemplado desse mês... a conta de luz! O gás chegou perto, terá de esperar. Ontem estive na empresa de telefonia para reescalonar a cobrança. A moça balançou com meu palavreado re-buscado (no dicionário), caiu na minha e sexta vamos sair, juntos, da dívida. Ultimamente tenho sido muito cobrado: a vida imita as contas de telefone ou as contas de telefone imitam a vida? Pedi detalhamento à empresa, mas para mim só resta o café, no singular.

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Gustavo Barreto
Editor da revista Consciência.Net (www.consciencia.net), colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação (www.piratininga.org.br), estudante de Comunicação Social da UFRJ e bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Inciação Científica (PIBIC) pela ECO/UFRJ
 

A violência de todos os dias

Nestes dias em que vemos na tevê a confirmação dos números, colocando o Rio de Janeiro como um lugar tão ou mais perigoso que o Iraque, uma pesquisa da Agência Internacional da Paz no Brasil (Ipaz) nos dá uma pista sobre como pensa o brasileiro. Foi perguntado: O que é violência para você?

Para surpresa dos pesquisadores, a violência propriamente dita aparece apenas em quarto lugar. Em primeiro, o desemprego, tido pelos entrevistados como o maior tipo de violência exercida pela nossa sociedade. Agrega-se a este quesito o medo do desemprego, que tende a submeter os trabalhadores à empresa de forma unilateral, eliminando críticas e adesões aos sindicatos.

Neste primeiro ponto, foi observado que o brasileiro não tem inveja do dinheiro alheio: quer apenas viver com dignidade. Devemos observar, no entanto, a relação entre a população cuja riqueza ultrapassa o compreensível e as massas carentes de quase todas as necessidades básicas de um ser humano.

A segunda forma de violência mais citada foi o consumo não-consciente, um conceito levantado principalmente por Gandhi no século XX. Em um planeta em que se compra de acordo com a viabilidade financeira, em detrimento da viabilidade ecológico (no sentido mais amplo), é fundamental que pelo menos parte da sociedade já esteja pensando desta forma, tentando inclusive se informar sobre a forma como foi concebido o produto – e investigar em quais condições a mão-de-obra da empresa em questão se encontra.

A terceira forma de violência destacada foi a de gênero, raça etc. Apesar de o debate sobre estes problemas ter começado há muito tempo, ainda estamos engatinhando e criando simulacros para permitir a perpetuação deste preconceito. Isto provoca a reação verificada nesta pesquisa em pleno século XXI.

Não podemos dizer que a pesquisa teve uma abrangência tão grande quanto a de institutos governamentais, mas percebe-se uma sensibilidade aguçada no esforço de entender os problemas de nossa população.

Temos que ficar atentos para que estas pesquisas não sejam utilizadas de forma superficial por figuras públicas que querem apenas se promover – sejam eles políticos, bispos e padres, apresentadores de tevê ou qualquer outra categoria.

Da mesma forma, não podemos ignorar o quarto item, pois a violência propriamente dita também é um problema que não está diminuindo, e isto não é conseqüência do aumento populacional, e sim de planos catastróficos de segurança pública e má aplicação de recursos do Estado.

O endereço da Agência Internacional da Paz é www.ipaz.org
 

Jornalismo regional

Um dos dados mais importantes divulgados recentemente é o de que somente 8% dos municípios do país geram todos os programas de TV assistidos no Brasil inteiro. O dado foi revelado pela Pesquisa de Informações Básicas Municipais, divulgada dia 12 de novembro de 2003 pelo IBGE.

Isto é muito grave para o jornalismo regional, pois nos diz que 92% dos municípios, a maior parte resguardando evidentemente as tradições culturais deste país, são apenas espectadores do processo. Estes dados de fato nos dão um quadro fiel do que ocorre na nossa democracia formal, no qual a população é apenas objeto, e não sujeito de suas ações. A produção de informação é um dos pilares do desenvolvimento de uma Nação exatamente por ser uma das mais importantes arenas de debate sobre os grandes temas culturais, políticos, sociais etc.

Outro acontecimento notório se deu no dia 4 de junho de 2003, quando o ministro das Comunicações, Miro Teixeira (PDT), amigo pessoal de Roberto Marinho - como ele mesmo costuma dizer - declarou à Comissão de Comunicação da Câmara que não há concentração na mídia do país (Carta Capital n/o244, pág. 32, "Tudo Como Dantes"). O atual ministro não difere de seu antecessor, pois não há qualquer intenção de provocar grandes choques com os grandes grupos concentradores.

Na contramão deste quadro, há importantes ações, como o projeto de lei (PLC n/o 59/03) da deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ), que regulamenta artigo da Constituição Federal sobre a regionalização da programação artística, cultural e jornalística das emissoras de rádio e TV.

Algumas mudanças foram feitas para que o projeto ganhasse sobrevida. O projeto original determinava a produção regional pelo critério de municípios e o texto atual estabelece o critério por regiões. Outra alteração é referente à ampliação da faixa horária de exibição do conteúdo local, que poderá ocorrer entre 5 horas e meia-noite. A proposta anterior previa a faixa entre 7 e 23 horas. O prazo para as emissoras de TVs se adaptarem foi estabelecido em dois anos e a punição passou a ser uma advertência em vez do cancelamento da concessão pública.

O projeto foi aprovado na Câmara em agosto do 2003 e agora está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal. (leia o manifesto)

Além desta luta no Parlamento, muitos outros grupos também atuam neste sentido. O Núcleo do qual sou colaborador (www.piratininga.org.br), por exemplo, atua com a imprensa sindical de todo o país. Esta é uma das mais importantes lutas, pois se trata de organizar a comunicação dos que sustentam este país (os trabalhadores) para que a voz deles esteja cada vez mais presente nos domicílios brasileiros. A própria produção começaria a ser feita de forma independente, sem ter que passar pelas maldosas ou mal informadas edições da grande imprensa. Portanto, temos este e outros grupos trabalhando neste sentido. Não estamos começando do zero.

Outra luta importante é a necessidade de conscientizar os próprios jornalistas e editores, para que possam ter cada vez mais a noção do quanto nosso país é rico do ponto de vista cultural, antropologicamente falando. O que vem ocorrendo neste país há muito tempo - há pelo menos quatro décadas, diga-se - é a substituição da cultura local pela cultura alheia, que é impositiva e visivelmente pouco natural.

Onde havia festas tradicionais e espontâneas, estão começando a aparecer eventos artísticos pouco comuns aos moradores locais, envoltos de pessoas que determinam o que é bom e o que é ruim. Crescentemente temos visto nas praças públicas de cidades de pequeno e médio porte a TV no lugar de quermesses; as novelas no lugar das longas conversas diurnas; etc.

Alguém há de questionar se as novelas e programas de maior divulgação, seja na televisão seja no rádio, não são Cultura e, portanto, válidas como expressão da nossa brasilidade. É certo que sim, e não devemos nos contrapor de forma gratuita a isso.

No entanto, o nosso modelo de comunicação, desenvolvido em grande parte durante o regime militar (1964-1984), não levou em conta as particularidades do nosso imenso país. Havia uma ânsia por unir um país pouco inteligível sob o aspecto da coesão.

Esta Nação é rica não somente em recursos hídricos e gêneros alimentícios, cujas terras férteis tudo podem nos prover. O que o Brasil tem de mais espetacular também não é, creio, o seu povo, que como qualquer outra cultura pode se enquadrar facilmente nos dados estatísticos ou avanços tecnológicos e econômicos.

Temos, sim, um povo que sabe se expressar de forma única, de modo que em qualquer parte do planeta, seja qual for a situação, você consegue dizer: "Ele é brasileiro". E o que nos faz brasileiros é o fato de esta pessoa não poder explicar o porquê.

Este valor que temos é desperdiçado quando meia dúzia de produtoras, sob a égide do Estado, pensam e formulam uma programação cultural que imaginam ser o Brasil. Mesmo sem contar as produtoras que não possuem esta nobre intenção, o melhor e mais bem intencionado antropólogo, jornalista ou editor não saberia expressar o que sente e como vive nosso povo. O mais nobre erudito, tendo escrito dezenas de obras, perde, de longe, para uma única manifestação de um brasileiro cujas raízes só sobrevivem em solo nacional.

Valorizar a produção regional, fazendo com que cada vez mais municípios participem desta iniciativa, não é uma forma de preservação da cultura nacional nem o fortalecimento da democracia: é a própria cultura nacional, dentro de uma democracia viva e participativa.
 
 
 
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