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O Quiproquó só tem palavras e algumas histórias para contar.
O verdadeiro quiproquó é perceber nas entrelinhas as palavras que ficaram por dizer, tanto nos meios mediáticos, como no silêncio de povos habituados a calar-se perante diversas tiranias!
Já é tempo de se ir levantando esse véu...
Teté Veja os últimos 5 tópicos:
O INFANTE
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!”
Fernando Pessoa
In “Mensagem”
Edições Ática
O poeta nasceu precisamente a 13 de Junho de 1888, em Lisboa, daí o seu nome de baptismo ser Fernando António, em homenagem a Santo António, o Santo padroeiro da cidade-capital do nosso País.
Querido, tu também nasceste neste dia – uns largos anos depois, é certo!- também tens António como segundo nome, sei que este poema é um dos que mais gostas. Admiro o poeta, mesmo pouco católica simpatizo com o santo, mas tu és mais especial: companheiro, amigo, namorado, amante, marido, pai do filhote, não é o todos em um?
Contigo, sinto-me feliz!
Parabéns e beijão grande.
Teté |
Se alguém estiver mesmo interessado em saber como eram “os bons velhos tempos” salazaristas, aqui tem uma boa amostra, nesta série televisiva da RTP 1. Aos Domingos, lá para as 10 e tal da noite.
Estilo comédia, é certo, mas um bom retrato dos tempos que se viviam em 1968, numa perspectiva infantil do narrador, um rapaz com cerca de 8 anos de idade, que relata a história mais tarde.
Tem quase tudo o que “condimentava” aquele tempo, tanto em termos económicos de um pequeno agregado familiar da média-baixa burguesia, como nas relações de vizinhança muito-a-quererem-saber-tudo-sobre-todos-os-outros, para além de todos os preconceitos existentes, em que a Igreja Católica também exercia um papel relevante na submissão de todos ao regime.
Argumento bem feito, com óptimas interpretações de Miguel Guilherme, Rita Blanco, Catarina Avelar, entre outros.
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Nem preciso de te contar como foi, maninha, que estavas lá ao meu lado a assistir ao mesmo panorama. Éramos crianças e felizes! Certos assuntos não se falavam à nossa frente, porque estavam os “telhados baixos”...
Um bom dia de aniversário para ti e, já agora, uma Vida Boa para sempre!
Jinhos
Teté |
Uma figura lendária da Cidade do Lobito
crónica de Eduardo Jorge Esperança
(in Jornal "O Lobito")
Nunca soube ao certo o seu nome. A silhueta do Mahatma Ghandi mas negro, sem óculos, ainda mais simpático, calcorreando passeios com um saco eternamente atado à ponta de uma vara, assente no ombro. Chicocuma, era aquele velho simpático, a súmula - no seu maneirismo gestual - de toda a ultra-verbalidade m'bundo.
É incrível como, tantos anos depois, estas imagens nos saltam da memória como um vídeo eterno; não sei mesmo se deva estar grato ao inconsciente por esta liberdade de acesso.
O velho, todos os dias descia da Canata à cidade dos brancos para dar uma volta de sobrevivência; aceitava tudo - pão duro, uma sopa quente, um pano velho, uma esmola. Tudo metia no saco - um mistério que nunca consegui desvendar - que jamais ultrapassava determinadas proporções, como se o tamanho do saco pudesse eventualmente desvirtuar a sua "imagem de marca"
Em todos os sentidos, Chicocuma se tornou funcional. As mesmas beneméritas domésticas, que exorcizavam assim barato sabe-se lá que pecados, oferecendo restos de sopa ao velho negro, nele materializavam também o fantasma do "velho do saco", do "papão"; e as crianças comiam a sopa toda porque, lá a um canto do quintal, encostado à parede estava de facto o Chicocuma - terrível perseguidor - de - criancinhas - que - não - comem - a - sopa.
Punha-me então a imaginar o assombroso destino dos inocentes que, pendurados na ponta da vara dentro do saco, desapareciam ao fundo da rua levados por aquele velho trôpego, sabe-se lá para onde. E, cada vez mais, Chicocuma se transformou no grande lobby da sopa, e depois, de tantas outras coisas. Até que um dia...
Dei de caras com ele no portão. Não sei se foi a curiosidade, se o medo, que me paralisou. Levantou o ferrolho, abriu o portão e veio direito a mim. Passou-me a mão pelo cabelo: - Minino, onde está tua mamã?
Fiquei atónito a olhá-lo sem resposta. Deve ter-me achado malcriado. Atravessou o quintal e foi direito à cozinha que dava para as traseiras da casa. Avancei meia dúzia de passos naquela direcção e estanquei de novo. Voltou - segui-lhe os movimentos: sentou-se no chão, encostado à parede do quintal; pousou a vara com o saco, a malga de sopa e outro saquito de plástico que lhe deveriam ter provavelmente dado na cozinha.
Assisti à refeição completa antes que me satisfizesse a curiosidade. Chicocuma comeu calmamente a sopa com a colher de alumínio. Só quase no fim levou a malga à boca para emborcar o resto. De vez em quando levantava os olhos para mim e fazia aquele sorriso comprometido que me confundia ainda mais, tão descabido era em tal personagem; passou uma côdea pela malga da sopa e engoliu-a, limpou a boca à camisa e voltou a olhar-me com cara de satisfação.
Era chegado o momento: puxou a vara para junto de si e desatou meticulosamente o pano que servia de saco; estendeu-o no chão e... vestígios de crianças, nem cheiro: comida, trapos, uma caneca, um garfo, corda uns pauzinhos, bugigangas! Olhei tudo aquilo ainda assim incrédulo. Talvez todas as crianças tivessem naquele dia comido a sopa, talvez - pensei - mas então Chicocuma deveria estar triste, ou zangado, e não com aquele sorriso humilde e tão estranho.
Avolumou-se-me a confusão. Vi-o meter o saquito de plástico sobre o pano, voltando a fechá-lo atado à vara. Levantou-se e passou por mim com um "lari pó" de mãozita oscilante.
Cedo a perspicácia infantil se me sobrepôs à inocência. Percebi então que o Chicocuma não fazia mal a uma mosca. Escusado será dizer que, com esta tomada de consciência da minha alienação enquanto legítimo representante das classes enfardeiras de sopa, estalou a revolução lá em casa. Seguiu-se a "crise alimentar" com a qual aliás me dei muito bem, já que arranjei melhor e mais apetecível ocupante para o espaço vago pela sopa no meu pequeno estômago, o que me veio depois a dar cabo dos dentes...
Mas isso é outra história!
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Enviado por uma lobitanga, amiga do coração, a querida Nilzinha.
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O Papão ou Homem do Saco também existia no imaginário infantil dos finais dos anos 60 em Portugal, precisamente com o mesmo "carisma" de ajudar os meninos a comerem a sopa...
Infelizmente, os papões hoje em dia são outros!
Jinhos
Teté |
“A CRIANÇA QUE NÃO QUERIA FALAR”
Torey Hayden (1980)
Editorial Presença (2007)
Lê-se de uma penada, assim de um dia para o outro, que o livro é pouco literário, relata apenas uma vivência, de que não se tinha notícia nos finais dos anos 70 do século passado, nos EUA.
Com uma história verídica, que ainda hoje em dia custa a aceitar...
Uma catraia de 6 anos amarra um puto de 3 a uma árvore e pega-lhe fogo. Saíu em todos os jornais regionais, tipo rodapé, mas nos “manicómios” da zona nâo havia lugar. Onde é que ela vai parar? À aula da Tor, com oito rapazes e raparigas, com alguns atrasos mentais e psicológicos, não sendo o caso dela. Temporariamente!
Os laços que se seguem, são os da professora com a aluna, abandonada pela mãe adolescente que levou consigo o irmão mais novo, a viver com o pai alcoólico e ex-presidiário, numa barraca de um acampamento de imigrantes, sem quaisquer condições, sanitárias ou outras.
“Talvez a maior magia do espírito humano seja a capacidade de rir. De nós, dos outros, de situações por vezes desesperadas em que nos metíamos. O riso normalizava as nossas vidas”, refere a autora.
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“É um segredo muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”, revela a raposa ao Principezinho, no famoso livro de Saint-Exupéry. Passagem citada neste livro, que agradou imenso à criança.
Frase que também enviei ontem à minha amiga Paula, numa pequena mensagem de parabéns. Mesmo “crescidas” todas temos um bocadinho de criança, não é verdade?
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No Dia Mundial da Criança, devemos pensar nas nossas, mas também em todas as outras deste Mundo. Se crescerem em meios de fome, de guerra, de doença e de violência, se conseguirem sobreviver, provavelmente transformam-se em “carrascos” das muitas outras que ainda não nasceram...
Solidariedade, é preciso!
Teté |
Alguém sabe definir qual é essa herança?
“A HERANÇA DO VAZIO”
Kiran Desai (2005)
Porto Editora (Fevereiro de 2007)
Man Booker Prize 2006
Apesar de todas as pistas, a escritora não responde à pergunta. Não é um livro muito fácil de ler, porque o espaço temporal é quase sempre indefinido, parte da acção ocorre em Nova Iorque, mas o centro da questão fica na província de Darjeeling, num local perto da cidade de Kalimpong, junto ao rio Teesta, onde suponho que ainda hoje se desconhecem exactamente as fronteiras. À partida, não é especialmente atraente, não?
Mas a história em si, envolve toda a humanidade, alheia e desatenta ao que por lá se passou nos finais dos anos 80 e princípios dos 90, que para além desta escritora, nem nunca tinha ouvido falar. Se bem que o enredo comece antes...
Melhor que ler as passagens que se seguem, é ler o livro em si, em todos os contornos que não culpabilizam ninguém, com juízos de valor para os próprios leitores. Passa por uma certa moral, sem religião, em que muitos temas actuais são abordados frontalmente: colonialismo, racismo, emigração, globalização, terrorismo (tanto de bandos, como policial), preconceitos vários.
As passagens não são as mais poéticas, que o livro até tem, a última é só uma ironia, que também existe nestas páginas:
“O cozinheiro estava desiludido por trabalhar para Jemubhai. Era um grande retrocesso em relação ao seu pai, pensava ele, que só tinha servido homens brancos.”
“Uma mulher tinha-se incendiado junto a um fogão.
Oh, aquele país, exclamavam as pessoas, contentes por caírem nas frases do costume, onde a vida não tinha grande valor, onde os critérios eram variáveis, onde os fogões eram mal fabricados e os saris baratos incendiavam-se tão facilmente...
... como uma mulher que se queria ver morta ou...
... enfim, uma mulher que queria suicidar-se...
... sem uma testemunha, sem um caso...
... tão simples, um singelo movimento com a mão...
... e, para a polícia, um caso tão simples, implicava apenas outro movimento rápido com a mão...
... as rupias faziam um movimento untuoso entre as palmas das mãos...
- Oh, obrigado, meu senhor – disse um agente da polícia.
- Não tem nada que me agradecer – retorquiu o cunhado.
E, num piscar de olhos, tudo isto poderia ter passado despercebido.
O juiz optou por acreditar que foi um acidente.”
“Em vez de inimigos estrangeiros, em vez dos chineses para que andavam a preparar-se, contra quem acumulavam o seu ódio, tinham de combater o seu próprio povo...”
“-Aqueles malditos britânicos são mesmo incompetentes a traçar fronteiras.
A Sra. Sen, intrometendo-se imediatamente na conversa, comentou:
- Falta de prática, ora, estão rodeados de água por todos os lados, ah ah.”
Excelente!
Teté |
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