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Bem-vindos mais uma vez!
Há já muito tempo que não actualizava o Weird Thoughts in a Lonesome Night.
Os novos escritos incluídos não são recentes, mas são inéditos. Espero que gostem.
Abraços,
José Remelhe Veja os últimos 5 tópicos:
 O cheiro dos fritos entranhado nos cabelos, na camisola e nas narinas. O amarelo da nicotina cravado nos dedos e na memória. O Davis ouve-se melancólico na telefonia.
- Perdeste outra vez! – diz-me o demónio.
Uma lua vermelha entra pela janela do quarto. As folhas caiem lá fora. Desnudam as árvores. Ramos esqueléticos. O Outono faz-me o que o tempo faz à pele.
- Perdeste! – murmura.
Uma vez mais, a delicadeza sussurrante das trevas inunda-me a alma. Memória fragmentada. Um murmúrio. Cálido. Tépido. Fervoroso.
Atiro o velho blusão de couro para cima da cama. O tilintar das chaves no bolso. A garrafa de Absolut quase vazia encostada ao rodapé.
Na escrivaninha, o jornal apregoa mais mortes. Os números saltam das páginas farruscas.
Ouvem-se passos no corredor. O bafo pútrido de uma ilusão. A porta escancarada de uma incerteza.
Olho-o agora nos olhos. Percebo a minha impotência.
Ri-se.
Vem-me à mente um punhal. O gume reluzente. Frio. Lê-me o pensamento. Sinto-o. Sorri somente.
Ardem nuvens lá fora. Uma ardência apaziguadora. Como que benévola. Espicaça-me outra vez. E mais outra.
- Perdeste! – repete simplesmente. E vai-se. |
 Os estilhaços dos vidros espalhados no chão
Em melancólicas posições esboçados
Espelham reflexos fugidios de flores e cimento
Na porta – um buraco
Deixando antever o interior da sala
Obscuro
Do tecto pende uma lâmpada em fio eléctrico
Enforcada
Balança ainda – cadência em decadência
De cá para lá
De cá para lá
As sombras aparecem e escondem-se ritmadamente
Mimam as paredes, os contornos dos móveis decadentes
Acariciam as superfícies estéreis e macilentas
De cá para lá
De cá para lá
As fendas na parede desenham notas em pauta esquecida
Cadavéricas
No canto mais afastado da sala
Escorre um líquido vermelho
Grosso
Viscoso
De cheiro doce
Escorre sem parar do pulso aberto
Escorre sem parar
E a lâmpada continua
De cá para lá
De cá para lá |
 Queria ser Poe
Brotar palavras como quem respira
Adocicar pensamentos com sílabas e vocábulos
Menosprezar a ignomínia
Com uma calmaria inspirada de poeta
Ousar florescer romances e poemas
Com pena borbulhante de mestria
Ode à beleza épica de mil cores pintalgada
Em encruzilhada redigida
Beber inspiração em prados e colinas
Veredas de sobranceira magia em papel retratada
Quem dera compreender a língua dos Deuses
Traduzi-la em palete colorida
Em galácticas me perderia maravilhado
Num estrelar de mil e uma fantasias
Amena mão esta que escreve
Humilde arauto de mente fértil entristecida |
 Imaginem o homem de negro e botas de couro empoeiradas que, tal corvo solitário, segue o seu caminho inebriado e ofuscado pelo movimento.
Imaginem uma lua cheia e uma noite abafada em que os olhares não se cruzam por receio, em que os devaneios são exorcizados, em que o oculto desejo vagueia por pradarias de luxúria recalcada, em vão...
Imaginem uma noite em que recordam velhos discos de rock n' roll, lugares há muito não visitados e odores já esquecidos.
Imaginem a ganância personificada.
Imaginem trevas e obscurantismo, valquírias e medusas, minotauros e cefalópodes.
Imaginem uma rádio antiga. E estática. Uma voz metálica vociferando impropérios. Folhas de Outono levadas pelo vento matinal. Fantasias impróprias de uma idade já avançada, ressuscitadas em tons cinza, mas camufladas com desdém e envoltas em considerações pudicas de escárnio assustadas.
Imaginem agora borboletas esvoaçando num dia soalheiro. Pássaros chilreando e risos de adolescentes nas margens de um riacho serpenteante entre rochas esverdeadas. Águas transparentes e transparentes vozes femininas, angelicais na sua candura.
Imaginem o homem de negro e botas de couro a observá-las.
Imaginem um regresso a casa e um comboio a vapor. Um apeadeiro envolto em neblina e gente. Sim! Muita gente! O apito do guarda-freio. Vozeares ininteligíveis.
Imaginem-se em criança, sozinhos numa noite de temporal. Sintam a chuva na vidraça. Sintam o ribombar aterrador dos trovões estremecendo loiças baratas e baixelas deslavadas pelo tempo.
Imaginem o rosto do homem de negro e botas de couro momentaneamente iluminado por um relâmpago por detrás da vidraça.
Imaginem um moribundo e o seu último desejo realizado, como que por artes mágicas.
Imaginem um estado febril transformado em doce frescura de cascata purificada por mão divina. Nirvana!
Imaginem religiões unidas! Harmonia entre nações! E o homem de negro e botas de couro empoleirado em tribuna, em convulsões de palavras de ordem para uma plateia mundial!
Imaginem agora um cirurgião que acaba de calçar luvas de látex. O coração a bater forte. O do doente fraco.
Imaginem o cheiro da sala de operações. O arrastar dos pés… e os familiares lá fora.
Imaginem uma experiência de quase-morte. O doente sente-se a pairar, a deixar o seu corpo, a subir uns metros.
Imaginem-no a olhar para baixo. A ver o cirurgião na sua azáfama de curandeiro, o seu corpo dilacerado, e o homem de negro e botas de couro segurando sua mão.
Imaginem a dor, a paixão. Como estão interligadas.
Imaginem a loucura. Como é ténue a linha que dela nos separa.
Imaginem agora uma bola de futebol que salta do passeio para a estrada. E o jovem que a persegue, inocente.
Imaginem o carro que se aproxima a grande velocidade. E a bota de couro do homem de negro que pisa o travão. |
 Perdido na noite
Estou cansado
Podia dormir
Mil noites seguidas
Sou seguido por sete cobras
De velhas disfarçadas
Cospem sonhos às cores
Que me poderiam acordar
No escuro corro
Aperta-se-me o coração
E as velhas continuam
Só que agora são mais
Ultrapasso as luzes
Que para trás ficam
Flashes ruidosos
Sempre atrás de mim
TROPEÇO
E caio no chão!
As velhas despem-se e
Por baixo das peles murchas
E mirradas, mil cobras aparecem
Mil cobras que me espetam no corpo as suas línguas de pesadelo |
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