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PORQUE
Porque escrever é para mim uma higiene diária, um ritmo alucinado como uma sinfonia de Beethoven e adoro partilhar poemas com os amigos…
Porque a poesia é para mim, sobretudo, o meu modo de existir e também uma forma de revolta contra um mundo cada vez mais decadente, um mundo em que já não existem lugares nem coisas sagradas, um mundo que precisa, cada vez mais, dos dedos em fogo do poeta.
Porque a poesia é a liberdade livre – a liberdade feita carne.
L. Costa Veja os últimos 5 tópicos:
O sol cai a pique,
relinchante
Para lá da verde colina
os cereais incendeiam-se
Sob a fresca sombra de um
malmequer
uma formiga dorme
reflecte raios de paz
As romãs reluzem
intensas como a volúpia
As casas são brancas
e dentro delas
sabe-se que habita alguém
Agora
atordoadas no seu silêncio
de luz
lembram as conchas
dos búzios
ou dos caracóis
numa noite sem estrelas |
Raios de tinta atravessam o papel
Nas espigas douradas o mundo
ainda existe, nos sobreiros a luz
quebra-se em miríades outonais
As fronteiras alargam-se. Com o
plasma em fogo as cores procuram-te:
Azuis distorcidos, amarelos pálidos,
roxos, vermelhos não vermelhos….
Encontras-te do lado dos animais,
pois ser-se poeta é ser-se mais alto
que os homens, é ser-se peregrino…
Na solidão dos desertos, no centro
da dor , na chaga aberta, purificas
as coisas com dedos de fogo. |
MITO
Deambulas por entre os dias das estacas
e do arame farpado
vibração do desejo inominável
inviolável
em todo o seu corpo de propulsões
rumo sem rumo, ascensão sem ascensão
árvore que se ergue, solitária,
no píncaro da montanha,
por baixo dela só o abismo
com as suas legiões de destruição
com os seus mares cavernosos, caninos,
incomensuráveis
Penetras,
sem qualquer temor ,
as regiões mais pantanosas dos matagais
e incendeias a trepidez das árvores mortas
com as chagas abertas dos teus pés
com o teu grito fresco de dor
com os olhos desventrados;
e com o sangue correndo-te pela testa
pulsando-te nos punhos
fazes estremecer os astros
abalas o relentim dos motores
a segurança dos casulos de betão
A terra, as aves, as árvores, os bichos
da noite e da madrugada
conhecem as relíquias dos teus sinais
a certeza das incertezas
e num rio em turbilhão perfuras o
horizonte dos desertos
és o seu mana, a consolação
dos que acreditam que só o caminho
alimenta o caminho
que só a dor amacia a dor
que só o silêncio fala a verdade
em toda a sua inicial nudez |
Rompidos os arvoredos
dos mastros
a luz afirma-se sobre os
claros balcões
Longínquas melodias
vêm de encontro
às janelas, estalam
a crosta da pele
Os nossos sexos
transpiram, são relâmpagos
na noite do nada
o mundo retorna ao seu
grito inicial |
Semelhantes
às aves que emergem da luz
os nossos corpos entrelaçam-se
é a surdez do grito
a nave dos sabores inauditos
o mundo que se exprime…
No fundo de nós
no seu vermelho de sangue
peixes cristalizam-se |
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