| |
Últimos tópicos:
|
Arquivo
 |
ESCREVER UM POEMA
2007-02-18
Durante a escrita de um poema o poeta encontra-se num estado de plena procura. A primeira palavra, ou o “ götterfunke “ ou até chame-se- lhe inspiração, motor de arranque que o levou à escrita do poema, incendiou a lenha... agora tudo é possível, como o fogo que tomou conta da lenha, também a palavra tomou conta do poeta, o poema autonomizou-se. E embora o poeta talvez tivesse uma ideia premeditada do que pretendia escrever e embora tente, agora mesmo, tomar as rédeas do poema com todos os princípios da disciplina e lógica , que lhe foram ensinados, ele vê-se, no entanto, perdido num labirinto. Um labirinto que talvez não tenha princípio nem fim, ou seja sem solução.
Quanto a isto, octavio paz, num dos ensaios do seu livro el arco e lira com o titulo: “la inspriración”, compara dois tipos distintos de poetas, poetas como ele diz “ ideales. “ Por um lado o poeta disciplinado, que antes de escrever planeia tudo, que já tem uma ideia premeditada do que pretende escrever. Nada é deixado ao acaso. E assim ele lá vai escrevendo e escrevendo a partir de um axioma e com o detalhe próprio da geometria. No entanto, de súbito, já perto do fim, falta uma palavra. O poeta sente-se cair num vazio sem fim. O que é que se passou? Porque é que de repente não consegue encontrar o vocábulo certo?
Que fazer? Ele consulta o dicionário em busca da palavra, naquele caso essencial. Mas nada. Todas as suas tentativas saiem frustradas: “ Só vacío e esterilidade. “ Será que algum dia encontrará a palavra?...
No caso contrário, embora usando ambos métodos criativos tão diferentes, sucede exactamente algo de muito semelhante.
Este outro poeta, poeta espontâneo, abandonado ao fluir inesgotável do murmúrio cósmico, de olhos fechados, escreve e escreve sem parar. As palavras saltam como por magia e vão-se fixando no papel. Tudo é ritmo, tudo flui por si mesmo, a própria mão do poeta libertou-se dele. Escreve ouvindo o ditado do seu pensamento. O poeta já não sabe se escreve ou sonha. No entanto escreve e escreve. Tudo flui como um grande rio, tudo jorra como uma fonte inesgotável.
De súbito, porém, tal como aconteceu ao outro poeta que não encontra a palavra certa para concluir o verso final do seu poema , o ritmo desenfreado, que fazia este poeta escrever, sem qualquer necessidade de meditação, pára, pára, de súbito, sem qualquer expilicação possível. O poeta tenta agora tudo por tudo para voltar a encontrar aquele ritmo fulgurante que até agora o acompanhara. mas nada. Esse ritmo desapareceu como por milagre. Simplesmente estancou. Será que algum dia voltará?
Ora chegados a este ponto reparamos como dois tipos de poetas tão diferentes no método de escrever e pensar, se encontram no entanto, no mesmo estado de paridade; estado que poderemos nomear de labiríntico.
Este estado labiríntico é um dos grandes sofrimentos que a escrita de um poema pode provocar em todo e qualquer poeta. É um estado que tanto pode acontecer ao poeta que pensa ser capaz de ter um controlo metódico sobre o poema do princípio ao fim, como àquele que se deixa ir ao sabor das cascatas do ritmo selvagem.
Tanto um como o outro provam a bílis deste sentimento agónico. Tanto um como o outro descobrem, chegados a este ponto, as suas fronteiras. Aqui nem a inspiração, nem o racionalismo podem fazer nada. De súbito, tudo parou. Para o poeta, este momento é um momento fatal, é como se fosse o fim do mundo. Ele sente-se desarmado...
É horível, é horrivel aquela incerteza... é horrivel a incapacidade de se prever se aquilo que se está a escrever, e a que nos entragámos de corpo e alma, se tornará num poema ou se irá simplesmente parar ao caixote do lixo.
Conseguirá o poeta encontrar o fio de Ariadne e assim a saida, ou não? Neste momento tudo é possível. A dor é imensa... chegados a este estado, a inanidade total instala-se na alma de ambos os poetas. só lhes resta a esperança... a esperança do momento-milagre, a esperança de que a palvra-chave, a " palavra nunca escrita " se eleve da obscuridade acerca da qual ninguém pode dizer nada. Uns chamar-lhe - ão, talvez inspiração, outros, talvez, " acaso objectivo " . A verdade é que esta obscuridade de onde de súbito se pode elevar a palavra poética " in -esperada " permanecerá sempre aquém e além de todas as deduções racionais, ou seja, será sempre um grande mistério.
Luís Costa
Comentários:
www.maresiademel.blogs.sapo.pt
- - - 2007-02-10
Olá Luís.
Deixas-te aqui um dilema. Qual destes "tipos" de Poeta (fora eu poeta), sou?
Ambos Luís.
Predominantemente aquele cuja escrita brota intempestiva, sem linhas predefinidas, que não sejam uma frase que oiço, um vocábulo que leio, um olhar instantâneo. De um modo geral, assim explode em mim a necessidade de escrever. É orgânico, antes de sair pela ponta dos dedos, borbulha - muitas das vezes de forma incendiária -, dentro da alma e no frio do estômago.
Mas existem momentos em que penso que gostaria de escrever sobre este ou aquele tema. Se são temas menos comuns, pesquiso e reúno fontes, terminologias, por exemplo.
Mas o ficar com poemas por acabar, por falta de vocábulos, meu amigo, não é comum em mim. Digamos que se existe um momento de alguma dificuldade, esse é o instante de começar. Que o terminar, ocorre como se fosse uma torneira que se fecha na hora em que a água, se continuasse a correr, seria demais ...
Nunca sei o tamanho que terá um poema … sei como começa, jamais como acaba.
(se no beijo … se na baba … como alguém disse um dia, não me lembro onde li, mas li, não é meu…).
Pelo menos para mim, os poemas e os textos acabam com a maior naturalidade.
Não me custa a findá-los ... Tudo fluí normalmente.
De qualquer forma, sinto que libertar para o papel o que nos habita é sempre um momento de criação e, como todos, não isento de prazer e dor.
***
Um excelente texto, este teu Luís.
Um bom fim de semana.
Um abraço
Mel
|
|
|
 |
|
|